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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

30
Mar21

Formiga 27

Zé Onofre

                          27

6/1/970

1

Quando o comboio faz a primeira curva

É que me apercebo

Que se acabou o tempo do sol,

E que a chuva está de volta.

As noites longas,

As manhãs doces na cama

Ficam para trás.

E agora?

Estudar, estudar e estudar.

2

Foi, não existe agora.

Foi, não tornou a vir.

Foi, aconteceu.

Foi.

Existiu,

Aconteceu

Ficou por lá.

                  Zé Onofre

27
Mar21

Formiga 26

Zé Onofre

                26

23/12/969

Montes! Vales!

Por entre verdes e montes corri como um louco,

Sempre atrás dela e não a encontrei.

Estive no mais alto, estive no mais fundo,

E não a vi.

Levou sumiço?

Esfumou-se?

Quando chego não a vejo!

Parto está lá!

Para onde vai?

Onde se esconde?

Ninguém me responde.

               Zé Onofre

26
Mar21

Formiga 24

Zé Onofre

                     24

15/12/969

Que aconteceu num ano,

Num dia, para me sentir grande.

A idade é a mesma.

Ontem era criança,

O mundo era todo verde, soalheiro,

E a vida era dourada

Que mundo é este

Que me pergunta o que quero,

Que me interroga sobre a liberdade.

E passou apenas um ano e um dia

                           Zé Onofre

26
Mar21

Formiga 23

Zé Onofre

                      23

10/12/969

Ser maluco, ter uma vida inventada.

Ser ave, sobrevoar o mundo.

Ser flor, embelezar a vida.

Vivo a vida como ela é,

Não sobrevoo o mundo

Não embelezo a vida.

Se fosse ave-flor-maluco,

Sobrevoaria o mundo

Embelezaria a vida

Que inventava.

                   Zé Onofre

25
Mar21

Formiga 22

Zé Onofre

                      22

27/11/969

Sol.

Frio.

A Natureza está certamente enganada,

Ou serei eu?

Agora não é tempo de sol,

Ou sou eu que desejo a chuva?

Sinto que o sol se ri de nós, chuva!

Chuva, por favor,

Não esperes o Verão

Para, então, também tu te rires mim!

                   Zé Onofre

24
Mar21

Formiga 21

Zé Onofre

                    21

26/11/969

Campo.

Árvores, atrás de árvores e mais árvores.

Por entre a ramagem se avista ela,

Uma torre branca.

Como esta me lembra uma outra.

Por entre as árvores vejo a minha janela,

E o riacho ora manso, ora tumultuoso,

A correr pelos campos verdes.

Por entre a ramagem das árvores a torre.

A saudade da torre cinzenta da minha igreja

Escurece a brancura desta.

O som cavo e martelado do sino da minha torre

Fica mais doce do que o som do sino                                   

Da torre branca que vejo

Para além das árvores.

 

27/11/969

Sol.

Frio.

A Natureza está certamente enganada,

Ou serei eu?

Agora não é tempo de sol,

Ou sou eu que desejo a chuva?

Sinto que o sol se ri de nós, chuva!

Chuva, por favor,

Não esperes o Verão

Para, então, também tu te rires mim!

                                 Zé Onofre

23
Mar21

Formiga 20

Zé Onofre

                     20

18/11/969

Aqui, à janela, vejo o passado.

Vejo-o como ditosos dias,

E neles imagens esbatidas

De muitas e lindas raparigas.

De trás para a frente

A mais antiga é já uma borradela

E as outras que se seguiram na vida.

Veio esta de férias, como era bela!

Outra, na escola, tocou-me como um raio.

Aquela desceu do alto monte.

Aqueloutra chegou em Maio.

Esta, em Agosto, veio beber à fonte.

A correr vêm a irmã da primeira

E uma do Minho. Baixo digo

“Namorei com elas todas

Mas nenhuma soube

Que namorou comigo”.

                        2020/03/23

22
Mar21

Formiga 19

Zé Onofre

                       19

9/11/969

Era novembro, Outono.

Dia de Inverno, mais do que de Outono.

O céu, carregado de nuvens,

Connosco solidário, prometia chorar.

Nós ríamos,

De embriagada alegria

Numa festa organizada

Com sacrifício e saudades.

Saudades da terra ausente.

Saudades dos pais, irmãos, amores.

Saudades de tudo que nos é querido.

Ríamos e cantávamos

Abafando a tristeza numa nuvem de álcool.

                       Zé Onofre

22
Mar21

Formiga 18

Zé Onofre

                 18

26/10/969

Não quero mais viver.

Viver por viver não é viver.

Não quero mais pensar.

Pensar por pensar não é pensar

Não quero mais sonhar.

Sonhar por sonhar

Sonhos que não se realizam

Que nos fariam viver, sem ser por viver,

Que nos fariam pensar, sem ser por pensar.

E sem as quais não se vive.

Assim mais vale não mais viver.

                 Zé Onofre

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