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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

20
Abr21

Formiga 42

Zé Onofre

                                42

17/2/970

Pensar é sonhar.

Sonho acordado,

A dormir, penso.

Nunca estou acordado,

Ou não durmo nunca?

Tenho de acordar,

Ou adormecer?

Afinal serei um sonho, sonhado por alguém?

As palavras,

Serão as palavras que nos confundem?

Diz-se uma coisa, entendem outra.

As palavras deviam ser concisas,

Precisas,

Objeto definido.

        Zé Onofre

19
Abr21

Formiga 41

Zé Onofre

                                41

12/2/970

O tempo.

Ontem.

Amanhã.

Hoje.

É preciso olhar para hoje,

O ontem já foi,

E virá o amanhã?

 

Cada momento nele.

A vida para,

Se me perco entre o ontem e o amanhã.

Viver o hoje, agora,

Para amanhã termos um passado.

Não quero a vida perdida,

Retido no ontem,

Fitando o amanhã.

       Zé Onofre

16
Abr21

Formiga 40

Zé Onofre

                                 40

01/02/970

            I

Não sei se sonhei,

Se quis ouvir.

Ou se ouvi mesmo

E não quero crer que ouvi.

             II

Meu amor,

Não vás por esse caminho.

Olha,

É infinito sem volta,

É um caminho só de ida.

Por aí

Nem vida, nem amor,

Nem, talvez, a morte,

Só nada.

                   III

Estou perdido.

Tanta gente,

Poço fundo e escuro,

Que me encurrala em mim.

Será gente,

Será um deserto,

E eu grão de pó solto no vento?

Será gente,

Será nuvem,

E eu gota de água no vento?

Só,

Saudoso de um gesto,

De uma chispa de olhar,

Que não passe ao lado.

Só,

Barco perdido no mar,

Sem leme, nem vela.

                IV

Só,

Saudoso das conversas que não tive,

Do amor que sempre vi ao longe,

De estar perto de quem nunca amei,

De quem nunca me esperou.

                     V

Sinto-me morto,

Prostrado na margem das pessoas,

Que não conheço,

E não ouso conhecer,

Deixo esvair a vida.

Sinto-me a morrer,

Nas margens d’um rio,

À espera que uma cheia me leve,

Para um areal deserto.

                  VI

Candeeiro de praça,

Todo olhos,

Vejo a vida a deslizar.

Multidões ondulantes,

Jovens soltando risos alados,

Bandos de crianças cabritando,

Namorados falando com as mãos,

Rindo com os olhos,

Expressando-se com os corpos.

                   VII

Segui este caminho.

Continuo sem saber se sonhei,

Se quis ouvir,

Se ouvi mesmo,

Ou não quero crer que ouvi.

                 Zé Onofre

16
Abr21

Formiga 39

Zé Onofre

                                  39

28/01/970

Alegria,

Ou arremedo dela,

Penso no quarto triste,

Solitária prisão a minha.

A janela breve brecha na solidão,

Deixa-me entrever,

Através do Cinzentismo que me abafa,

A vida crepitante lá fora.

Essa breve visão da vida

Incendeia-me a imaginação,

Faz-me sonhar sonhos impossíveis,

Ver alfazema e rosmanino,

Em chão agreste de cardos.

Que tristeza quando a cortina da noite cai

 E olhando para ela vejo apenas um rosto

Que não reconheço.

Lá longe,

Muito para além daquela janela,

Sepultados naquela escuridão,

Há rostos e há caminhos,

Há montes e há fontes,

Há riachos e rios.

Há os amigos e as amigas,

As claras brincadeiras das noites do Verão.

15
Abr21

Formiga 38

Zé Onofre

                         38

19/01/970

Cérebro.

Tenho um cérebro, dizem.

É volátil, o meu cérebro.

Ora pensa negro,

Ora pensa branco,

Porque sim.

Ora penso tudo branco,

Logo se carrega de negrume,

Ora ilumina-se com dúvidas.

Que acontece?

É de mim,

É do que me rodeia?

Alguém me ajude!

Só o silêncio me responde.

Nenhuma resposta acalma a tormenta

Que dá nós ao meu pensamento.

Estou certo, neste momento,

Que fostes vós

Que, caridosamente, quereis poupar

As crianças da crua realidade.

Quando a topamos de frente

E o cérebro se tolda,

Abandonais-nos, perdidos,

No remoinho da vida.

                  Zé Onofre

06
Abr21

Formiga 37

Zé Onofre

                             37

30/1/970

Uma rocha.

Na rocha uma mão sob o queixo,

Um olhar vazio,

Cabelo ao vento,

Um homem.

O mar ao fundo.

Segredos sem fim

Agitam-se em ondas misteriosas.

Que mistérios

Se agitam naqueles cabelos,

Que segredos naquele olhar,

Que palavras

Cala aquela cabeça abandonada na palma da mão?

Uma rocha

Movendo-se no mar.

Um homem,

Fitando o vazio à beira mar

Com o cabelo viajante do vento.

Uma rocha,

Um mar,

Um homem,

Juntos,

Unidos por um acaso,

Na solidão de cada um.

Na loucura da enxurrada.

Amar,

Sorrir sem ser por nada,

Ir ao sol-posto,

Caminhar sem sentido,

Apenas viver a vida com o sentido de amar.

Viver no mar à deriva

“Perdido barco e vela”

Grão de areia só no deserto,

Gota de água na enxurrada,

É morrer novo

Apenas esperar a hora de ser enterrado.

Viver com rumo incerto

Com barco e vela,

Ter o amor como Estrela Polar,

Rebolar na areia,

Dançar nas cachoeiras,

Gritar de dor e alegria

Rir sem ser por nada.

Ir sem medir riscos

Ou traçar futuros,

Viver o dia

Como se fosse o último.

Zé Onofre

06
Abr21

Formiga 36

Zé Onofre

                  36

13/01/970

Ser vento,

Vento a soprar como vento,

Vento vagueando como o vento.

Ser vento,

Dizer versos nunca escritos,

Levar mensagens secretas,

Sonhos que nunca foram sonhados,

Aos poetas,

Aos amantes,

Aos sonhadores.

Ser vento como o vento,

Espalhar a esperança pelo mundo,

Comos semente da verdade.

Zé Onofre

05
Abr21

Formiga 35

Zé Onofre

                    35

01/02/970

            I

Não sei se sonhei,

Se quis ouvir.

Ou se ouvi mesmo

E não quero crer que ouvi.

             II

Meu amor,

Não vás por esse caminho.

Olha,

É infinito sem volta,

É um caminho só de ida.

Por aí

Nem vida, nem amor,

Nem, talvez, a morte,

Só nada.

                   III

Estou perdido.

Tanta gente,

Poço fundo e escuro,

Que me encurrala em mim.

Será gente,

Será um deserto,

E eu grão de pó solto no vento?

Será gente,

Será nuvem,

E eu gota de água no vento?

Só,

Saudoso de um gesto,

De uma chispa de olhar,

Que não passe ao lado.

Só,

Barco perdido no mar,

Sem leme, nem vela.

                IV

Só,

Saudoso das conversas que não tive,

Do amor que sempre vi ao longe,

De estar perto de quem nunca amei,

De quem nunca me esperou.

                     V

Sinto-me morto,

Prostrado na margem das pessoas,

Que não conheço,

E não ouso conhecer,

Deixo esvair a vida.

Sinto-me a morrer,

Nas margens d’um rio,

À espera que uma cheia me leve,

Para um areal deserto.

                  VI

Candeeiro de praça,

Todo olhos,

Vejo a vida a deslizar.

Multidões ondulantes,

Jovens soltando risos alados,

Bandos de crianças cabritando,

Namorados falando com as mãos,

Rindo com os olhos,

Expressando-se com os corpos.

                   VII

Segui este caminho.

Continuo sem saber se sonhei,

Se quis ouvir,

Se ouvi mesmo,

Ou não quero crer que ouvi.

      Zé Onofre

04
Abr21

Formiga 34

Zé Onofre

                    34

09/11/969

Chegou o aviso que o Inverno vem aí.

As árvores erguem ao céu

Os braços quase nus.

Folhas voadoras

Lançam-se no precipício,

Fazendo lindas piruetas

E outras figuras de dança.

Vaidosas reclamam

Os seus momentos de fama,

Para acabarem como as outras

Na mesma cama de lama.

     Zé Onofre

04
Abr21

Formiga 33

Zé Onofre

                    33

21/10/69

Eram longos, longos,

Os seus cabelos louros.

Não sei se eram belos

Por serem loiros, os cabelos

Ou se por serem cabelos longos.

Ou se a beleza dos cabelos

Vinha da mulher

Que ao vento os desfraldava.

Tinha uns olhos azuis

Duas lagoas

Para os meus navegarem.

A boca, pequena abertura no rosto,

Entre duas gotas de rubro orvalho,

Onde a minha sequiosa boca

Desejava a sede matar.

O peito,

Duas pequenas dunas,

Convite para a cabeça deitar.

As suas pernas,

Feitas por medida,

Pela rua não caminhavam,

Era um balançar incompleto

À espera das minhas para o completar.    

   Zé Onofre

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