Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

03
Abr21

Formiga 32

Zé Onofre

                  32

28/01/970

Alegria,

Ou arremedo dela,

Penso no quarto triste,

Solitária prisão a minha.

A janela breve brecha na solidão,

Deixa-me entrever,

Através do Cinzentismo que me abafa,

A vida crepitante lá fora.

Essa breve visão da vida

Incendeia-me a imaginação,

Faz-me sonhar sonhos impossíveis,

Ver alfazema e rosmanino,

Em chão agreste de cardos.

Que tristeza quando a cortina da noite cai

 E olhando para ela vejo apenas um rosto

Que não reconheço.

Lá longe,

Muito para além daquela janela,

Sepultados naquela escuridão,

Há rostos e há caminhos,

Há montes e há fontes,

Há riachos e rios.

Há os amigos e as amigas,

As claras brincadeiras das noites do Verão.

Z+e Onofre

02
Abr21

Formiga 31

Zé Onofre

                               31

19/01/970

Cérebro.

Tenho um cérebro, dizem.

É volátil, o meu cérebro.

Ora pensa negro,

Ora pensa branco,

Porque sim.

Ora penso tudo branco,

Logo se carrega de negrume,

Ora ilumina-se com dúvidas.

Que acontece?

É de mim,

É do que me rodeia?

Alguém me ajude!

Só o silêncio me responde.

Nenhuma resposta acalma a tormenta

Que dá nós ao meu pensamento.

Estou certo, neste momento,

Que fostes vós

Que, caridosamente, quereis poupar

As crianças da crua realidade.

Quando a topamos de frente

E o cérebro se tolda,

Abandonais-nos, perdidos,

No remoinho da vida.

Zé Onofre

02
Abr21

Formiga 30

Zé Onofre

                  30

12/01/970

Ontem a natureza rasgou os seus véus

E mostrou-se em toda a sua plenitude.

O cinzento-escuro do céu

Encheu-se de luz de leste a oeste.

Vindos de todas as direcções

Os trovões encheram a noite de música.

As chuvas derramavam-se na terra

Enquanto dançavam e rodopiavam com o vento.

Tudo se apagou.

Tudo se calou.

Aquela noite era só da natureza,

Em toda a sua majestade.

       Zé Onofre

01
Abr21

Formiga 29

Zé Onofre

                           29

10/1/970

Em tempos era como uma ave

Enchia os pulmões de ar e lá ia eu,

Não sei como perdi esse poder

Amarrado ao solo

E saturado desta prisão.

Naqueles tempos

Bastava pensar no longe

E voava até lá.

Era tudo ilusão,

Nada era como sonhava,

E fiquei só e triste na beira do abismo.

Naquele tempo era feliz

Nem sabia que o abismo estava ali.

Gostava tanto daquela ilusão,

Sentia-me tão firme e seguro

De que nada faria ruir o castelo

Que construíra com paz e amor

Cujas portas eram compreensão.

Oh!

O meu rico castelo

Que simples palavras, ditas ao acaso,

Derrubaram sonho sobre sonho,

Deixando-me sem abrigo

Plantado na beira da vida

Sem teto, nem abrigo.

Agora os pensamentos são um caos,

Em trevas, clarões e trovões

Se agitam.

Não sei se continue,

Sabendo que o sonho é ilusão,

Ou se desisto.

Fico e mortifico-me,

Ou sigo e faço da ilusão um sonho a alcançar?

Sonhar que o mundo pode ser

Tranquilidade e paz.

Mais vale viver por um sonho

Que mude esta crua realidade

Que nos encobriam com palavras doces,

Mas que na verdade eram amargas mentiras.

Minhas tão queridas mentiras!

Minhas velhas verdades,

Belas flores,

Do meu velho jardim encantado,

Para onde fostes?

Procuro-vos conforme sois,

Ou invento-vos conforme vos sonhei?

Calo o grito

De querer ser ave e desconhecer prisões,

De querer ser rio e correr o mundo,

De querer ser flor e embelezar a vida?

Não sou rio, nem ave, nem flor,

Mas apenas um grão sem valor

Perdido no vento!

01
Abr21

Formiga 28

Zé Onofre

                             28

9/1/970

Há muito tempo, por tudo e por nada, estava a rir.

Há muito tempo, sem dar conta, estava a rir.

Ainda ontem, inopinadamente, estava a rir.

Hoje, com os mesmos olhos, não rio.

Hoje, com os mesmos ouvidos, não rio.

Hoje, vou por onde tantas vezes já fui, não rio.

Queria, a por tudo e por nada, voltar a rir,

Mas não rio, porque o mundo que me revelam,

Não é o que sobrevoei a rir.

Queria, a sem dar por isso, voltar a rir,

Mas não rio, cruamente dizem-me que a realidade,

Não é a que inventei a rir.

Queria, como ontem, inopinadamente voltar a rir,

Mas não rio, asperamente dizem-me que por onde vou,

Não são os caminhos por onde tantas vezes fui a rir.

De ontem para hoje tudo se desfaz em pó,

E, atónito, sem forças para rir, vejo-me só.

                                   Zé Onofre

Pág. 3/3

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub