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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

29
Mai21

Coimbra 6

Zé Onofre

            6

04/11/971

        I

Noite.

Gosto da noite

Seja ela de luar,

Seja ela estrelada,

Ou pesada cor de chumbo.

Aqui é sempre igual.

As luzes da cidade

Como cortinas densas,

Escondem as estrelas,

O luar

Fazem o céu sempre sombrio.

              II

À procura da noite,

Tal qual ela é,

Entro no seu ventre,

Largo-a de madruga

Vou directo à sala de aulas.

Ah, as aulas

Não gosto delas

É a única certeza que tenho,

Não tenho dúvidas.

Definitivamente não gosto das aulas.

                           III

A noite,

Tem algo de mágico

Que me faz falar.

Falar, falar, falar

Se encontro algum amigo

Que com desconhecidos não converso.

Já com amigos

Que apanhe distraídos

Acabaremos a noite já aurora

Com um cálice de cachaça

Virgem.

Se por acaso

O amigo me vê de um lado

E finge olhar o nada

Sigo os meus próprios passos,

E discuto comigo próprio.

                      IV

Hoje vamos falar de poesia.

Aqui que todos nos ouvem,

Aviso desde já que não sou poeta,

Não vão vocês pensar coisas.

Sim,

Louco posso ser,

Até é pena não perder a razão de vez,

Agora poeta?

Arreda Satanás.

                        V

Pois a poesia é um assunto sério,

Seriíssimo.

Pois tenho toda a razão,

Não me vou contradizer a mim próprio,

Creio mesmo que é o cume

Da seriedade.

Fica desde já lavrado em acta

Esta Verdade Universal,

Eterna,

A poesia é a essência da realidade.

Até à próxima síntese axiomática.

                           VI

Meus pobres amigos.

Maltratados bancos da tasquinha.

Massacradas mesas da tasquinha.

Pacientes empregados da tasquinha.

Quando se me solta a língua,

A perorar, seja sobre o que for,

Sai palavra atrás de palavra,

Com o tom subindo, subindo.

                            VII

Desgraçadas pernas minhas.

Fugi árvores da avenida.

Aves acabou-se-vos o descanso

De um dia de trabalho

Voando sem parar do ninho,

Aos canteiros,

Catando o magro sustento.

Ides ouvir este pregador,

Silencioso,

Que faz discursos de alta filosofia

Às atentíssimas pedras da calçada.

                      VIII

Todas as noites

Sou convidado a orar

Sobre tudo e sobre nada.

O dia, ciumento,

Bem insiste para que me pronuncie

Seja sobre o que for.

Bem pode tirar o cavalinho da chuva,

Não merece que me levante

De madrugada,

Antes das dezassete.

A noite

Estou pronto para ela

Ela está desejosa de me ouvir.

                    IX

A noite ouve-me,

O Mundo é um Manicómio

Quem contesta?

Responde o silêncio total.

A virtude…

Palmas e vivas para a virtude.

A honestidade…

Viva a honestidade

 E e e e e a a a a vir virgin virgindade?     

Nem palmas.

Nem vivas.

Nem pateadas.

Um silêncio de morte.

Uma torrente de pensamentos em choque.

Pronto. Pronto.

A virgindade, masculina ou feminina,

Ficará para as calendas gregas,

                           X

Cheguem, agora, aqui

Vamos falar baixinho.

Ei, aí D. Tília

Cale as suas folhas,

Que o assunto é de suma importância.

Aí senhor de que não sei o nome.

É um candeeiro,

Peço desculpa,

Mas já agora cale um bocadinho a sua luz.

Bem, estamos prontos

Para discutir o próximo tema.

Desde já faço o seguinte aviso,

Afirmo que nada afirmarei.

Vocês falam primeiro,

Certo?

Descalcem lá a bota.

A loucura, a loucura, a loucura,…

Um vendaval de palavras.

Um borborinho que fecha os ouvidos.

Um bracejar das árvores.

Tantas intensidades diversas do lampião.

Eu?

Apreciava a loucura no seu esplendor.

                                XI

Resumindo e Concluindo,

Gosto da Noite,

Depois do pôr-do-sol,

Até ao romper da aurora.

Não gosto das aulas,

Se ainda fossem à noite…

Gosto de falar.

Os paralelos,

As árvores,

Os candeeiros

São bons ouvintes.

Um amigo louco

Não me escapa.

Nas perlengas que perlengo

Abordo qualquer assunto,

“Nada do que é humano me é estranho”,

Desde que não ofendam

A moral e os bons costumes.

Última conclusão,

O Mundo é um Manicómio,

Nós somos todos Loucos.

                      XII

Acordei alta madrugada,

Pelas dezanove horas,

A esferográfica na mão,

Folhas de papel gatafunhados.

Alguém, certamente conseguiu traduzir os rabiscos,

Acrescentou em boa letra,

Pensas que só tu adormeces

Ao sou de rabiscos de palavras loucas?

28
Mai21

Coimbra 5

Zé Onofre

               5

24/10/971

Que faço aqui sentado à mesa.

Penso ou lembro?

Ou misturo o que foi

Com o que é

Com aquilo que desejo?

Dou cada nó à cabeça

E perco-me.

Não sei se do futuro,

Tenho lembranças

Ou se saudades tenho?

É o passado

Que está a acontecer agora?

Estarei a viver o ontem?

Tudo se mistura num caldeirão.

Que necessidade tenho eu,

Interrogo-me agora

Em passadas largas,

A caminho de não sei onde,

Ou se ao redor do mesmo ponto,

De me complicar?

        Zé Onofre

24
Mai21

Coimbra 4

Zé Onofre

                        4

21/04/971

Na solidão do meu quarto

Há uma cama,

Há uma mesa,

Há duas cadeiras,

Há livros.

No meu quarto há eu também.

Em cima da mesa há um candeeiro.

Perto dele há um livro de notas.

Do outro lado há um livro.

No meu quarto não há solidão quando cá não estou.

Quando eu cá não estou talvez haja solidão.

As paredes do meu quarto são de madeira.

Duas delas são de cal.

Perto da cama há uma mala.

Perto da mala há uma mesinha de cabeceira.

Perto da mesinha de cabeceira há livros.

Há livros de estudo.

Há livros que não são de estudo.

Hoje, não gosto de uns, nem de outros.

Eu quase que não posso ver livros.

Só quando estou zangado é que gosto de ler.

Eu gosto de fazer o que a imaginação me dita.

A imaginação dita-me isto.

Contudo isto não é imaginação,

É a realidade.

Isto, está-se mesmo a ver, é uma descrição.

Em cima da mesa há um bocado de papel.

Eu poderia imaginar.

Estes bocados de papel são restos de cartas enamoradas.

São versos de um moço enamorado à sua amada.

Todavia são bocados de papel escritos por mim.

Aqueles bocados de papel têm palavras.

Quando estavam inteiros podia ler-se neles de seguida.

Agora não se pode ler porque não estão inteiros.

Quando estavam inteiros havia neles dois monólogos.

Eram duas pessoas a falar cada um para si.

Agora ainda têm lá isso.

Contudo os monólogos estão rasgados.

Agora o silêncio foi interrompido por um carro eléctrico.

Aquele eléctrico leva muita gente.

Até posso imaginar.

Leva moça namorada.

Leva rapaz enamorado.

Criança despreocupada.

Mãe aflita.

Mãe embevecida a olhar o seu bebé.

Leva soldado jovem.

Leva homem velho a pensar na vida.

Leva criada aflita a pensar no que o patrão lhe dirá.

Leva patrão a pensar no que dirá à criada.

Leva velhote a pensar no seu animal de estimação.

Leva idiota feliz sem ser por nada.

Tudo leva aquele eléctrico.

Neste quarto estou eu à espera para ir tomar banho.

Na rua que não vejo passa-se muita vida.

A verdade é que não consigo ver a vida da rua.

Por isso não posso falar dela.

24
Mai21

Coimbra 3

Zé Onofre

            3

21/04/971

Que acontece?

Está tudo calmo.

Não há nada de novo.

Tudo está nos trilhos.

Que raio de nervosismo

Que incomodo toda a gente?

Uma amiga

Fixa-me o olhar,

Muito séria,

- Que fizeste aos teus olhos verdes?

Alguma coisa foi.

Hoje tens os olhos castanhos.

         Zé Onofre

14
Mai21

Coimbra 2

Zé Onofre

             2

20/04/971

Nada de Novo,

Tudo calmo,

Tudo sereno,

O melhor é não mexer.

As tempestades fazem-se sem mais nem menos.

O bote vai no rumo

Que me agrada.

Aqui quietinho

Atrás do medo,

Esperando

O que tiver de ser.

            Zé Onofre

13
Mai21

Coimbra 1

Zé Onofre

              1

18/04/971

Dia de surpresas

Poderiam ter sido desagradáveis,

Que é que o sempre espero,

Mas não

Foram agradáveis

As surpresas de hoje.

Não me vou pôr a adivinhar

O amanhã.

Se hoje foi dia

De surpresas inacreditáveis

Para que questionar o amanhã?

          Zé Onofre

11
Mai21

Formiga 58

Zé Onofre

               58

Sem data

 

Nestas horas

Límpidas,

Serenas,

E suaves

Desta vida calma,

Neste tempo,

Vida insondável,

Espelho

Reflexo sem sentido

Da existência.

Nestas horas,

Neste tempo,

Entre as árvores e o vento,

O sol e o céu,

Imaginam-se figuras

Irreais, mas vívidas no pensamento.

Nestas horas,

Longos cadáveres do nosso tempo,

Vegeta, no fundo das sombras despertas,

Um pensamento.

Agiganta-se a ideia

E nasce o vento,

O sol, o céu,

As nuvens e as sombras

E, por fim,

O Homem

11
Mai21

Formiga 57

Zé Onofre

                  57

05/09/970

I

Ó, loucura minha,

Vida,

Serás tu um sonho?

Quem me sonhou assim?

Se sou sonhado por alguém,

Irá durar muito esse sonho?

Os sonhos

São doces, ou rosas

Quem me sonha pesadelo?

II

Quem nunca esteve a pensar,

Metido em si mesmo,

Mas eu existo?

Lá vem um Descartes

“Penso, logo existo”.

Teria sido Descartes,

Ou alguém o sonhou por ele?

Estarei errado?

Lá dos fundos dos tempos,

Agostinho, filósofo,

Garante sábia e categoricamente

“Errar é humano”.

III

Todas as evidências

Gritam,

Existimos.

Quem ou o quê existe,

Os astros,

O Universo,

Os Homens?

Seja, existimos!

IV

Neste planeta,

Neste sistema solar,

Nesta galáxia,

Neste Universo?

Não será tudo um sonho,

Sonhado por um alguém,

A morte o fim do sonho?

V

Esse alguém que,

Hipoteticamente,

Nos sonha

Será ele, também, sonho de alguém?

Seremos nós

Que sonhamos alguém,

Que supostamente nos sonha?

Resta-me a certeza de duvidar.

VI

Adormeço com aquele nó

Sem forças para o desatar.

Acordo mais cansado.

Já o pensamento,

Em desenfreada cavalgada,

Tomando o ………. nos dentes,

Me põe mais dúvidas.

Para onde vou?

De onde venho?

Mais um hoje

Para me rodopiar como um pião.

VII

Deito os pés ao caminho

Para enterrar a maldita dúvida

Do ser ou não ser sonhado.

Chega de ser barata tonta,

Não vale a pena.

Um poeta levanta-se do túmulo,

Ou filósofo poeta,

Diz do alto do seu filosofar,

Ou do cume do poetar.

“Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena”.

VIII

Se a alma for mesmo pequeno,

Não valerá mesmo a pena?

Só valerá a pena,

Se a alma for grande?

Volta a louca vertigem,

De tudo questionar.

Noite alta,

Talvez madrugada,

Última dúvida,

Adormeço fitando o teto.

             Zé Onofre

08
Mai21

Formiga 56

Zé Onofre

                                56

02/09/970

          I

A madrugada,

Atrás das vidraças,

Anunciava um dia de brumas.

Na hora de sair o cinzento fora-se,

O sol raiava anunciando um dia claro,

Caminhadas nos bosques de carvalhos.

Saídas fortuitas,

Pelas estradas de trás até à vila,

À procura daquele olhar,

Que certa vez me fixara de um café.

Porém, o olhar já não havia,

E, aquele fim de dia,

Que radioso nascera,

Aconchegou com uma colcha cinza

Um sol ensanguentado

Que se despedia.

               II

 O mar lá longe,

Atrás do muro de prédios que o esconde,

Fica ainda mais longe,

Acolheu o sol no seu seio,

E com ele as minhas recordações.

Amanhã o sol virá de novo

Subindo os montes de cara lavada,

Esquecido o dia de ontem.

Eu, depois de espreitar pela vidraça,

Indiferente ao dia que aí vem,

Seja sombrio, ou claro,

Sairei ainda mais pesado

Com as desilusões que acumulei.

III

Levanto-me sem esperança.

O dia decorrerá como o previsto.

Contarei as horas,

Por vezes os minutos,

Deliberadamente, esqueço os segundos.

O meu humor

Não dependerá mais do sol,

Da chuva, do vento,

Ou do céu cinzento.

O meu humor será o que for

De acordo com o que conseguir

Nas minhas andanças.

IV

Mais uma noite me encarcera no quarto.

No cinzento cerrado do céu,

Uma pequena fenda estalou.

Por ela uma pequena luz treme,

Alguma estrela que parou a ver-me,

Como eu a espreito a ela,

Para contar ao Mundo e às Gentes,

O meu desassossego.

V

Este dia junta-se aos outros.

O tempo passa,

Passa a dor,

Mas a dor em nós contínua.

O tempo volta a passar

Vem uma outra dor,

A dor de já nem dor ter.

VI

Dor de segredos feita.

De dor em dor

Passo pelo tempo.

O tempo que passa

De dores se faz.

VII

Não houve tempo mais feliz

Que o meu tempo de criança.

Saía, de manhã, ou à tarde,

Até à noite entrar brincava.

Sabia que dentro das portas,

Da minha velha casa tinha à espera,

Uns braços que me apertavam

Porque se acabara a sua espera

VIII

A infância tempo das alegrias,

Das certezas absolutas.

O que sonhamos,

Mesmo sonhado a dormir,

São realidades confirmadas.

Um dia sonhava que voara

Sobre os campos verdes,

Noutro empoleirava-me,

No penedo mais alto.

Reconstruía ponto por ponto,

Rego, regato ou ribeiro,

Verde, por verde.

Os ninhos nas copas das árvores,

Onde nasceriam novas companheiras da vida.

IX

Hoje, já não sei o que é hoje.

Já não há quem me espere,

Incondicionalmente lá longe, ou aqui.

Foi aqui, dentro desta casa,

Que por entre alegrias, poucas,

E tristezas, muitas, aprendi,

Que ninguém espera ninguém,

Se não se moldar co um alguém,

Com a partilha dos nossos dias.

06
Mai21

Formiga 55

Zé Onofre

                    55

21/06/970

Caminho pela cidade,

De olhos sobrevoando as cabeças,

Que parecem não saber onde vão,

Ou de olhos baixos mirando a calçada,

Decifrando as figuras do chão.

Cansado sento-me num banco,

Depois numa portada,

Ou numa pedra abandonada.

Descanso os olhos

Nos que param, nos que vêm, nos que vão.

Entre eles

Pares de mão na mão,

Fazem que vêm, que vão,

E nem vão, nem vêm,

Estão pregados ao chão,

Olhando uns para os outros,

Como que a perguntarem para onde irão.

Comigo mesmo cismo,

Por que razão não tenho uma mão na minha mão,

Para como os outros fitar enternecidamente uns olhos,

E ficássemos ali indecisos

Entre o ir, o vir e o ficar?

Quem foge com os olhos para o horizonte,

Ou sozinho mira o chão,

Ou se oculta num recanto ver a vida passar,

Bem pode ter fogo nas mãos,

Que nunca aquecerá umas outras,

Mesmo que frias a enregelar.

            Zé Onofre

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