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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

30
Ago21

Penafiel 9

Zé Onofre

             9

 15/05/978

Quando as coisas não são

O que são,

Mas o que eu sinto.

 

As flores,

As cores

Não são a Primavera.

Primavera

É o longe do medo

Nas veredas da vida.

 

As flores,

As cores

Nascem sempre

Com a alegria de viver.

E se houver amores?

Então,

É Primavera plena,

Nos caminhos longos,

Longos, da conquista do pão.

 

Longe do medo

Perto da vida

É primavera sempre.

Zé Onofre

30
Ago21

Penafiel 8

Zé Onofre

          8

 07/11/977

 O silêncio encolhe tanto as pessoas que chega a encolher o pensamento

A pedagogia do ovo estrelado? Nem isso, caro director, é a pedagogia do come e calas.

Responsabilizar o aluno pelo trabalho, pressupõe uma escola em que o aluno é sujeito activo e não um agente passivo.

O que hoje é bom, amanhã será diferente – Só a verdade é revolucionária (Lenine) – Penso que não há boa, nem má moralidade. Há uma percepção do real e que expondo-a corre-se sempre o risco de amanhã não ser verdadeira. Porém dizer hoje, a percepção de hoje é amor à vida.

“Quem não trabalha, não come” – Vitória (suposto) professor de metodologia. – Ó Vitória, ainda um dia, vais morrer de fome.

“O homem distingue-se da animalidade pela fantasia.” Ó Vitória, tu não és homem.

Condenar a formiga, ou a cigarra, é continuar com a oposição trabalho manual/intelectual.

Alegria é uma dádiva que recebemos de uns e devemos dar aos outros.

Escreve-se para… mas, principalmente porque …

29
Ago21

Penafiel 7

Zé Onofre

                    7

 08/07/977

Todo o texto é uma abertura

O veiculado moral pode trazer um falso humanismo.

Atribuir os feitos “aos grandes” “faz com que se esqueça do esforço e da dor do povo.

Bocage foi uma cigarra massacrada pelas formigas exploradoras de então.

A formiga representa a faceta desumanizada do trabalho.

Não há qualquer literatura inocente e muito menos a Infantil, pois pode trazer a morte de um olhar crítico de amor.

Abaixo a alegria, viva o trabalho escravo. Sem alegria morre-se de fome.

  Zé Onofre

28
Ago21

Penafiel 6

Zé Onofre

            6

08/02/977

Era uma noite longa, longa,

Longa de escuros e sombras.

Nessa noite uma criança caminhava

Contra o vento sibilante

Do deserto em fogo.

 

Era uma noite longa, longa,

De escuros e sombras.

Nessa noite uma criança caminhava

Contra a chuva pesada

Do deserto em cinzas.

 

Era uma noite longa, longa,

Longa de escuros e sombras.

Nessa noite uma criança caminhava

Contra a calmaria

Do deserto em lama.

 

A madrugada rompeu,

Em gritos de cores.

Nesse alvorecer

A criança era morta.

 

O deserto

É selva de cimento e aço,

É a cidade.

 

Cidade de indiferença,

Trucidadora

Inconsciente

Da Humanidade

Que cada um porta em si.

  Zé Onofre

27
Ago21

Penafiel 5

Zé Onofre

              5

02/02/977

O racismo

Não se julga por frases juramentadas,

Mil vezes juramentadas.

- Eu não sou racista. –

Até podemos fazer uma declaração,

Testemunhada,

Registada,

Carimbada,

Assinatura reconhecida

No notário.

Isso nada prova,

Nada diz do racismo

Que trazemos dentro de nós.

É na prática

Que mostramos o que somos,

E não nas nossas profissões de fé.

 

Era uma manhã fria de Fevereiro.

Numa mesa,

Um grupo de amigos,

Abriga-se com um café

Bem longe do frio

Que a porta amável

Deixa entrar, de vez em quando.

Uma amiga,

Habitual do grupo,

Apressadamente chega,

Dá os dois beijinhos da praxe,

Senta-se junto do último.

Prepara-se para o cumprimentar,

Mas é interrompida por uma voz,

Que se faz ouvir nas outras mesas

- Não lhe dê os beijinhos

Que ele beijou uma preta.

  Zé Onofre

25
Ago21

Penafiel 1-2-3

Zé Onofre

        1

16/03/976

 Português,

Povo.

Grito Vermelho,

Liberdade.

2

23/03/976

 O homem das cavernas.

A caverna dos homens.

O homem

E a caverna,

Princípio.

3

14/06/76

 Português

Grito de sol

Num mar de trevas.

Grito,

Uivo,

Gemido,

Lamúria.

Português,

Terra,

Sangue,

Fertilidade,

Vida,

Mar,

Sol,

De angústias,

Mitos

E vitórias.

  Zé Onofre

24
Ago21

Souto 39 (A brincar aos poemas de Amor)

Zé Onofre

                     III  

Tudo na vida começa

No acaso de um momento.

Mesmo que para mal aconteça,

Ninguém pára o movimento.

 

Está errado quem não creia

Que o acaso é o primeiro elo

De uma enorme cadeia

Que nos ata sem apelo.

 

Por isso o que vem depois,

É um caminho desconhecido

Para se caminhar dois a dois

Até ficar com paixão concluído.

 

Os elos cuidadosamente enlaçados

Com todo o amor e carinho

E a nosso modo entrançados,

Venceremos cada curva do caminho.

                   IV

Se a estrada ouvisse e falasse,

As palavras que gemidas saem

Desta boca, talvez calasses,

E não dissesses que não te quero bem.

                  V

Encontramo-nos por acaso

Num dia fim de Verão.

O sol já passara o ocaso

Mas não o meu coração.

 

Chisparam os olhos de volúpia

Ao ver tua boca vermelha risonha.

Partiste. De lamúria em lamúria

Cada noite fica mais tristonha.

 

Recordo aquele tempo

Em que os teus cabelos sedosos

Se agitavam como ameno vento

Às carícias dos meus dedos vaidosos.

 

Sem os teus olhos sorrindo,

Sem as tuas palavras meigas,

Sem o teu corpo se abrindo

Sou árvore só numa veiga

 

Que fazer agora, então

Com esta saudade sem fim.

Esperar que venha outro verão,

E viver com o que de ti há em mim.

 

Pergunto à saudade com o coração,

Se voltarão as noites de alegria,

Se os nossos corpos se unirão,

Em algum outro novo dia.

 

A saudade recorda o que perdi,

Diz-me que o que foi não voltará.

Contento-me com o que vivi,

E com o que o tempo futuro trará.

 

                         VI

Olhei-te um dia por olhar,

E vi que para mim sorriste.

Não soube bem analisar,

As palavras que pestanejaste.

 

Fico sem saber o que dizer

Nem explicar o que faço.

Como te farei entender

Que o amor se faz passo a passo.

 

Não é vivendo no passado,

Nem temendo o que trará o futuro.

Construi-lo-ei contigo ao lado,

Ou tudo será muito prematuro.

                       VII

Pensa bem que o amor

Não são palavras bonitas

Que possa dizer com fervor,

E só para te agradar serão ditas

 

O amor são os factos

Que com sinceridade

Pratico em todos actos

Com ternura e lealdade.

 

Ouve, nunca me peças,

Que te diga “eu amo-te”

Pode ser que te impeça

De ouvires o “eu engano-te”.

 

Àqueles que em simples actos,

Mostram todo o seu interior

Pensa bem se naqueles factos

Não estará o meu amor.

 

Nunca retribuas como pagamento

O que te dou desinteressadamente.

E com todo e inteiro sentimento

Mostra que te amo inteiramente.

 

Eu, que penso que sei o que é amar,

Sei também certamente compreender

Que quem tem verdadeiro amor para dar,

Alimenta-se do amor que receber.

 

Quero amar-te, sem fingimento,

Sem palavras falsas que nos firam.

Quero amar-te a qualquer momento,

Em todas as horas que nos esperam.

 

Não peças que te ame eternamente

É um pedido a que não sei responder.

Se sim, ou se não, errarei certamente,

Não sei o que o futuro nos vai trazer.

 

Supondo que em algum momento

O amor que te tenho vier a morrer,

Dir-to-ei com todo comedimento

Que amares sem ser amada é só sofrer.

 

As circunstâncias, que ditam a verdade,

Alteram-se e modificam tudo não é?

Não te esqueças que sem liberdade,

Não há amor que se mantenha de pé.

 

A liberdade é imprescindível no amor.  

Sem liberdade ele morre, torna-se prisão.

Restam muitas lágrimas, amargura e dor.

A rasgar como faca afiada um coração.

 

Neste momento que me abro aqui

Peço-te que não te deixes escolher.

Não permitas que olhem para ti

Uma flor de florista que todos vão ver.

 

Não distribuas ao desbarato o teu amor,

Dá-o apenas a quem amares realmente.

Procura saber, seja a pessoa que for,

Se é o que é, ou se é outra diferente.

 

Então sim, entrega-te e ama plenamente.

Não penses que vais viver o amor ideal,

Se ele existir, como dizem, realmente.

Zé Onofre

 

 

 

 

 

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