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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

23
Abr22

Por aqui e por ali 102

Zé Onofre

              102

 

sd

 

O céu e o vento,

Formas torcidas,

Revolta nuvem correndo veloz

Estar só, sem nada à volta.

 

Ouvir na sala em silêncio

A chuva que lá fora cai.

Ouvir o canto do vento

Que apressado canta e se vai.

 

Cheirar a terra molhada,

A folhagem que a terra destrói,

Sentir o calor das castanhas

Que queimam as mãos, mas não dói.

 

São cores mil que inebriam

Do verde austero do pinhal

Ao cinzento fugidio das nuvens

São regressos ao pecado original.

Zé Onofre

22
Abr22

Dia de hoje 101

Zé Onofre

                 101

 

sd

 

O certo é que,

E para o caso pouco importa,

O caso é, digo eu

Que Inês é morta.

 

Não foi preciso o “Bravo”,

Nem a sua sombra tutelar,

Que usou um Pacheco qualquer

Como arma mortal.

 

Apenas se o tempo foi Rei

E a rotina, que longamente se instalou,

Foi do Pacheco a mão assassina

Que o sonho ao amanhecer matou.

 

Agora resta-nos

Reconstituir em fita,

Fazer de conta que o tempo não passou

Que a rotina não se instalou.

 

O certo é,

E para o caso até importa,

Que Inês é morta.

   Zé Onofre

21
Abr22

Por aqui e por ali 99

Zé Onofre

               99

 

996/12/21

 

Exercícios dramáticos preparativos de teatro, Casa Padre Gonçalo, Amarante         

 

Eram tão lindos os seus olhos.

Castanhos,

Não, dourados,

Não, antes cor de mel.

Eram tão lindos os seus olhos.

Doces,

Líquidos

Tão transparentes,

Tão belos.

Eram tão lindos os seus olhos,

Mas tão traidores,

Fugidios,

Os seus olhos

Tão belos.

Zé Onofre

20
Abr22

Por aqui e por ali 98

Zé Onofre

                  98

 

996/11/24

 

De repente sinto que o Natal

Morreu dentro de mim.

 

Que caminhos percorri,

Que sonhos desperdicei?

 

Tudo sabe a esforço,

Voluntarismo,

Racionalidade.

Tudo é

Porque tem de ser.

 

Já nada é

Sonho ou alegria,

Revolta ou ousadia.

Tudo é razão, razão, razão.

 

Em que canto,

Em que esquina,

Em que parte de mim próprio me perdi?

  Ze Onofre

19
Abr22

comentário 247

Zé Onofre

B 247 ----- 242

 

022/04/19

 

Sobre O Muro dos Sentidos, , Maria Neves em mluciadneves.blogs.sapo.pt

 

Quando olhamos e vemos

O que nunca deveria ser visto,

Quando espetamos as orelhas e ouvimos

O que nunca deveria ser ouvido,

Quando o nariz se abre e cheiramos

O que nunca deveria ser cheirado,

Quando a língua inadvertida saboreia

O que nunca deveria ser saboreado,

Quando toda a pele sente na brisa

O que nunca deveria ser sentido,

Atónitos, mergulhamos dentro de nós

E não queremos acreditar

Que Mundo é este que ajudamos a criar.

 

Não podemos dizer simplesmente

Não vimos,

Não ouvimos,

Não cheiramos

Não saboreamos,

Não sentimos.

Estávamos vivos deveríamos ter percebido os sinais.

E contudo

Tudo se passou a nosso lado.

 

Por onde é que andávamos?

19
Abr22

Por aqui e por ali 97

Zé Onofre

              97

 

996/05/12

 

                I

 

Quando, de repente,

O último gesto for feito,

Apenas se ouvirá o silêncio.

Um silêncio nosso,

Que o vento há de soprar,

O mar bramir,

E as estrelas continuarem.

Seremos, então,

Poeira cósmica,

Frio interestelar,

Pó no vento,

Gota de água no mar.

Que o vento há de soprar,

Depois do último gesto se executar.

 

                II

 

Quando a loucura

Se desatar em chamas

E a razão for vencida pelo medo,

Apenas teremos tempo de abrir

E já não voltar a fechar os olhos.

Quando a loucura chegar

Diremos apenas o som do ar.

Zé Onofre

17
Abr22

Comentário 246

Zé Onofre

                   246 

 

022/04/13

 

Sobre – Doce Estação – por Maria, em silêncios.blogs.sapo.pt

 

Quantas sedes

Há para apagar?

Quantas sedes

Neste longo despertar?

Quantas sedes

Neste longo caminhar?

Quantas sedes?

E eu sem receita para as acalmar.

Zé Onofre

17
Abr22

Por aqui e por ali 96

Zé Onofre

                 96

 

996/05/12, visita a uma amiga instalada no asilo, Amarante

 

Aqui estão parados,

Simulando que vivem.

Aqui estão a viver um tempo

Que não existe,

A gastar um sopro 

Que está suspenso.

Aqui estão

Envoltos num passado,

Num presente suspenso

Que não terá futuro.

Aqui estão desertos de sonhos,

Suspensos do tempo,

Ausência do hoje,

Sem possíveis amanhãs.

  Zé Onofre

16
Abr22

Por aqui e por ali 95

Zé Onofre

              95

 

996/02/23, acção de formação no Colégio S. Gonçalo. Amarante

 

No princípio era a tribo

E na tribo se fazia gente.

E a tribo era o espaço todo,

E a tribo era o tempo.

Havia o tempo e o espaço.

Havia a vida e o sonho.

 

Depois foi a cidade

E foi o campo.

Na cidade o espaço foi partido,

E o tempo encurtou.

O campo foi medido

E o tempo passou de sol a sol.

 

Na cidade foi o comércio,

O tempo contado,

O espaço diminuiu.

No campo foram as várias culturas,

O espaço foi contado.

O tempo diminuiu.

 

A cidade cresceu

As ruas apertaram

Os bairros nasciam

O espaço cada vez mais despedaçado,

O tempo cada vez mais controlado.

No campo a produção aumentava,

Nasciam os armazéns das sobras,

Os homens aumentavam

O espaço foi organizado,

A água dividida,

O tempo controlado.

 

Na cidade aumentavam 

As oficinas, e as oficinas eram escolas.

Na cidade aumentava o comércio,

Nascia a palavra escrita e o número,

E o comércio era a escola.

Da cidade partiam barcos,

À cidade chegavam barcos,

Nascia o tempo mecânico,

E os portos e os barcos eram a escola

 

Lentamente

As oficinas,

O comércio,

Os portos e os barcos,

Deixaram de servir de escolas,

Pois não respondiam

Aos problemas do dia-a-dia

Cada vez mais complicado.

E nasciam as escolas

Que ensinavam com o conhecimento

De experiência feito.

 

Havia ainda espaço e tempo de, e para a vida.

 

Finalmente a escola educativa, formativa.

Sem espaço e sem tempo,

Com salas a correr por corredores,

Com tempo escasso para as apanhar.

Espaço-tempo medido

Em fracções mínimas de espaço-tempo.

Lugar de passagem sempre p’r’à frente,

Que é preciso passar velozmente sem repouso.

 

A escola tornou-se um corpo estranho à vida.

Às vezes desabrocha em pérolas

Corpo estranho à escola que as enquista e cerca.

Zé Onofre

15
Abr22

Por aqui e por ali 94

Zé Onofre

                 94

 

996/02/23, acção de formação no Colégio S. Gonçalo. Amarante

 

Águias,

Sim voamos alto.

Em círculos

Subimos além-azul

Nas asas do vento.

Às vezes

Tão mais alto, que perdemos a presa.

 

Outras vezes

Tão rasteiros

Que não vemos a caça.

 

Que importa ser águia,

Se a presa contínua,

Serena fora do nosso alcance

 

Sim somos águias,

Mas cegas,

Perdidas entre o perto e o longe.

Zé Onofre