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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

27
Nov22

Dia de hoje 76 - Natal

Zé Onofre

               76

 

Natal

 

022/11/20

 

O Natal está a chegar.

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar do mar imenso e bravo da pobreza,

Causada pela ganância do lucro, da acumulação,    

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos rios de água que correm pela mesa

Dos que à volta dela se sentam e não têm pão   

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar das crianças que sofrem a dureza

De viverem sem telhado e a incerteza de um chão,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Do “canto dos anjos” na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar das guerras geridas pela avareza

Dos que só vivem tendo tudo na sua mão,   

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Dos pastores ajoelhados na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar da velhice rejeitada com crueza, 

Abandonada em casas, ou lares de ostentação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia dos Magos na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar da ensanguentada riqueza

Que estropia, fere, mata escondendo a mão, 

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia da Estrela sobre a gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos que mergulhados na tristeza

E não sabem que o seu suor é o ouro do patrão,    

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos males feitos à Natureza

Por quem se julga dono de toda a criação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem.

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Não falarei dos que vendem, com baixeza, 

O mistério que anunciava uma nova estação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

26
Nov22

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - Isabel no reino do Sótão

Zé Onofre

Isabel no reino do sótão

ISABEL NO REINO DO SÓTÃO.jpg

Isabel está tão desolada,

Com aspecto de meter dó.

Parece que ficou abandonada

No mundo completamente só.

 

Do quarto vai à cozinha e à sala,

Nem é tentada pela televisão.

Que raios! Para o vazio fala,

Deve ser triste estar na prisão.

 

Deixa-se cair pesada na escada,

Cabeça caída apoiada na mão.

Ergue-se, como que sugada,

Escadas acima por um furacão.

 

Nas escadas, uma porta escondia

Mundos novos para desbravar.

Bastava dar asas à fantasia

Abrir os braços deixar-se levar.

 

Pega numa cana, que no momento

Deixa de o ser. Olha através dela, 

Sente no rosto a carícia do vento

Já que o sótão é agora uma caravela.

 

Pega numa roda mesmo à maneira,

Roda experimentada de tanto pilotar,

Com o verniz que o tempo dá à madeira,

Que velejou uma vida de mar em mar.

 

No canto brilha uma peça redonda,

Pendente duma guita encerada.

É uma bússola que uma onda

Não levou. Ficou presa na amurada.

 

Esquecida da casa e da solidão,

Desce pela escada da proa ao convés.

No início das escadas vê uma mão,

Assustada, deixa cair a bússola aos pés.

 

 

O pai grita com muita emoção,

Olha o ioió, que julgava perdido.

Sem saberes alegraste-me o coração.

Isabel, este ioió era o meu preferido.

17
Nov22

histórias de A a Z para aprender a ler e a escrever - Livro 1 - Hugo, o engenhocas

Zé Onofre

                                                 Hugo, o “engenhocas”

HUGO O ENGENHOCAS.jpg

                      

Era Domingo de Primavera,

Daqueles mesmos primaveris.

Um céu azul diáfano,

Uma ou outra nuvem feitas caravelas,

Uma aragem morna

Que os consolava das geadas

Que parecia partirem as janelas.

 

Era Domingo e,

Como não há Sábado sem sol,

Domingo sem missa

E segundas sem preguiça,

O Hugo e o resto da cambada,

Sobe a estrada com ar misterioso

De quem tem alguma preparada.

 

E na verdade assim acontecia.

Toda a semana Hugo os cansara

Com a mesma ladainha.

Domingo ninguém vai à missa das sete,

Vamos todos à das onze

Que o seu fim promete.

 

Naquele Domingo

O sermão parecia não ter fim.

Que raios, pensava o Hugo.

Logo hoje, que tenho pressa.

O Sr. Padre zangado,

Com palavras cortantes como facas,

Condenava uns tais de Tedy boys

E que um dia veríamos Tedy vacas.

 

Mal o padre disse

As palavras mágicas

“Ite missa est”.

Mesmo não sabendo latim,

Hugo e os seus amigos

Sabiam que a missa chegara ao fim.

 

Vão apressados atrás do Hugo

Que sobe as escadas do patronato

E desce ao poço do pára-raios.

Aparece de braços ao céu,

Nas mãos um carro de rolamentos

Como quem ergue um troféu.

 

Bolas Hugo, é essa a surpresa?

Hugo mergulha no poço de novo,

E com ar triunfante

Arranca lá do fundo um atrelado,

Que de tão comprido,

Todo amigo fica de olho arregalado.

 

Corre para a estrada.

Monta carro e atrelado.

Senta-se às guias.

Toca a sentar

Hoje vai tudo a foguete.

Estão aqui, estão em casa.

Está tudo pronto?

Vamos, lá então, na brasa.

 

As areias reduzidas a pó

Faíscam sob os rolamentos.

Nem se dão conta

Da curva logo ali.

Hugo inebriado com a emoção

Nem se apercebeu

Que a carga se esfola pelo chão.

 

Continua célere

Totalmente esquecido

Que outra curva já lá vem,

Mais apertada que a primeira,

Nada havia a fazer.

O carro já era

Lançara-se num ribeiro,

O Hugo voa no ramo de uma hera.

   Zé Onofre

14
Nov22

Dia de hoje 75 A - Canto triste XII

Zé Onofre

                 75 A

 

                   Canto triste XII

 

022/11/13

 

Neste momento duro, feroz, estéril de sentido

De rota perdida, sem norte, nem bússola

Da vida em tudo afastado;

Onde nem poeta sonha, ou voz canta,

Nem criança tem doce sorriso;

Cujo nome, das gentes conhecido,

É democracia, na verdade, ditadura.

 

A qual a propaganda

Elevou às alturas

De verdade absoluta

Onde uma dúvida à sua verdade

É sinal, de herética malvadez,

Saudade de uma experiência falhada.

 

Sendo uma amostra onde

O desejo de um regime vil se esconde;

Nele aparece o governo que se encosta

Ao regime, que vem em crescendo,

Do século dezoito, liberalismo chamado

Que conforme o tempo foi volvendo,

A sua língua de mel-veneno composta,

Outros nomes lhe têm dado.

 

Agora como vento quer apressado

Derrubar com o seu longo braço

Tudo que a luta operária obteve

Tida pelo capital como desventura.

Agora, nesta hora de retaliação pura  

O imperialismo, num momento breve,

Quer que a luta operária fique sem espaço,

Que para sempre a exploração  

Mantenha, em todo o mundo, dominação. 

 

Aqui chegamos, vivendo tristes os dias,

Que enganados fizemos maus, solitários,

De desprezo e de humilhações cheios,

Trabalho forçado indigno de operários,

Depois de lutas duras terem tido direitos e regalias.

 

O capital com vãs promessas de cofres cheios

Põem os operários sozinhos com os seus meios,

A lutarem contra a sua própria natureza.

Não reparam que quem assim os ilude,

Quer que percam, da união, a memória  

De lutas duras em que lhes sorriu a vitória.

Que esqueçam a gente que na união viram a virtude,

Para acabar com o capital com toda a certeza,

Que, apesar de à exploração e ignorância sujeita, sabia

Que um mundo sem exploradores haver poderia

   Zé Onofre

 

13
Nov22

Dia de hoje 75 - Canto triste XI

Zé Onofre

                  75  

Canto triste XI

 022/11/12

 Amigo e companheiro

Escrevo-te um apelo

Que lerás por inteiro

Se tiveres algum zelo.

 

Leio com indignação 

Que pedem um “colaborador”.

Ultrajam a tua condição

De orgulhoso trabalhador.

 

Amigo e companheiro

Não te deixes enlevar

Nesse canto matreiro

Modo doce de enganar.

 

Não é por aperreação,

É obrigação de dizer. 

Que agora é revolução,

Ou de vergonha, morrer.

11
Nov22

Canto triste V

Zé Onofre

69

 

                Canto triste V

 

022/10/16

 

Caminhamos sob um manto cinzento,

Cada um de nós vai só, surdo e mudo

Distraído da vida que vai sem alento

Como se só viver por viver fosse tudo.

 

Agora, caminhamos tristes cabisbaixos

Sujeitos a viver sem passado, nem futuro.

 

Se alguém nos olha com seu ar perdido,

Coisa mais natural nos tempos que correm

Engana-se. Parece-lhe um ser decidido,

Por baixo da pose vê um ser que nada tem.

 

A toda a parte chegamos como se nada

Fosse terem-nos tirado todo os direitos.

Sentamo-nos lado a lado pensando, cada

Um que tem que se amanhar a seu jeito.

 

Somos homens presos na cadeia do medo,

Com temor até de com os outros partilhar

O trabalho que esperamos logo mais cedo

Receosos que se suspeitam o vão roubar.

 

Agora, caminhamos tristes cabisbaixos

Sujeitos a viver sem passado, nem futuro.

 

Eles assustam todos com palavras mansas,

Calaram-nos com dois patacos e a ameaça

De monstros, como se fossemos crianças,

Se não queres assim, não falta quem o faça.

 

Jazemos como mendigos às portas da vida,

Pedindo, olhar baixo, por favor esmola

De um trabalho. Prescindimos da devida

Paga e aceitamos como se fosse o totobola.  

 

Agora, caminhamos tristes cabisbaixos

Sujeitos a viver sem passado, nem futuro.

Agora, caminhamos tristes cabisbaixos

Sujeitos a viver sem passado, nem futuro.

   Zé Onofre

10
Nov22

Histórias de A a Z para aprender a ler e a escrever - Livro 1 - O xaile da avó

Zé Onofre

                                                                 O xaile da avó

OO XAILE DA AVÓ.jpg

Para o meu amigo Xavier,

Inventar acontecimentos

É-lhe tão necessário e natural

Como para todos nós respirar.

Não se pode dizer que mente,

Conta-os com uma seriedade tal

Que se não fosse mostrar, 

De forma tão evidente

O que ali ia de fantasia

O mais incrédulo acreditaria.

 

A última que contou,  

Era um dia de Maio chuvoso e frio

Diz, quando tal lhe aconteceu

Quando chegou da escola.

Diz que a avó o embrulhou

No xaile, ao vê-lo cheio de arrepios,

Assim e ao colo o aqueceu

Depois de lhe arrumar a sacola.

Viu-se então na lareira em pé

Sentar-se no fumo, sair pela chaminé.

 

“Voava no velho xaile da avó.

Pela chaminé, via a avó ao lume

Como se nada estivesse a acontecer.

Na torre da igreja, como em prece

O sino tocava forte num tom só.

Agora sobre o monte, lá no cume,

Observava o que estavas a fazer

Sem que nenhum de vós me visse.”

Diz que chamou Carlos, Amadeu.

     Nós não vimos o Xavier no céu.

10
Nov22

Dia de hoje 74 - Canto triste X

Zé Onofre

                   74

 

Canto triste X

 

022/11/10

 

Porque é que vais por esta vida

Entorpecido sem pensar

Que a escravatura não é vencida

Ainda temos muito para lutar.

 

Quem te vê ir de crista caída

És pessoa já derrotada,

Mesmo antes de ser vivida

A luta ainda não começada.

 

Por escritórios e fábricas,

Arrastas os passos doridos,

Com velhos enganos abdicas

De tempos mais coloridos.

 

Evitas ver nos outros rostos

Uma dor tamanha como a tua,

Temes que teus olhos neles postos

Bem unidos consigais até a lua.  

 

A luta é difícil, não percas a fé

Se tiveres que a luta recomeçar.

Mais vale viver um dia de pé,

Do que uma vida longa a rastejar.

 

Ver-te assim tão conformado

Com o teu viver tão cinzento

Fingires que não vives frustrado,

Para a revolta te faltar atrevimento.

   Zé Onofre

09
Nov22

Dia de hoje - 73 - Canto triste IX

Zé Onofre

           73

Canto triste IX

 

022/11/08

 

A primavera de Abril foi bonita de viver

Tão depressa avançava como estava a retroceder.

Para mim acabou a arte de se sonhar

Parece que Fascismo se disfarçou para a matar.

 

Não há cantores na rua a alegrar a caminhada

Por mais gente que vá na rua sinto-a muito acomodada.

De que vale haver um motivo para o povo se revoltar

Ter vontade de o fazer e não ter com quem a partilhar?

 

Passo horas à escuta, à espera de ouvir.

Tudo à volta é silêncio não sei para onde ir.

Vejo agora aqueles dias que não soubemos usar,

De manhã ouço um sábio – Nada há para mudar.

 

 

Vou por aí abaixo a chamar a todas as janelas

Pelas avenidas, ruas, veredas e vielas.

Companheiro, a primeira tentativa morreu de sede

Vem daí, vamos juntos escaqueirar esta parede.

 

Não vês que ser escravo em lei alguma está disposto,

Tens de lutar por um futuro que raie com novo rosto.

Porque não é, por ser como é, que tenha de ser assim

Há ainda uma revolução para mudar o mundo, sim.  

   Zé Onofre

 

 

 

03
Nov22

Das eras VI - Fascismo com os corninhos ao sol 32

Zé Onofre

                  32

022/11/03

 

Fascismo 1 (2).jpg

Ai,

Se os Partidos Democratas,

Ainda que burgueses,

Cumprissem o que prometem

Nada disto acontecia.

Se os governos

Não tivessem medo,

Preferissem demitir-se

A não cumprirem o prometido  

Nada disto acontecia

Se os deputados  

Não cuidassem tanto

Dos seus interesses,

Mas apenas dos interesses

Dos cidadãos que os elegeram

Nada disto acontecia.

Se os Partidos Democratas,

Embora burgueses,

Tivessem uma ideologia sólida,

Onde enraizassem os governos

Nada disto acontecia.

Enquanto os Partidos Democratas,

Embora burgueses,

Quiserem exercer o poder pelo poder

Para servir clientelas,

Irremediavelmente a Ditadura

Estará à nossa espera.

Agora,

Falta-me saber  

Se os Partidos Democratas,

Embora burgueses,

Agem assim

Para melhor servirem os seus $enhores?

Também

Não duvido que neste momento,

Aos $enhores deste mundo,

Lhes convém mais uma Ditadura,

Do que a farsa Democrata.

   Zé Onofre 

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