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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

30
Dez22

Rebusco 6

Zé Onofre

               6

 

989/11/30

 

            I

 

Se eu fosse um pássaro

Era pequenino

Estava no quente

Do meu ninho

 

             II

Entra uma criança na escola

Com vontade de falar

Da sua vida.

 

Logo no primeiro dia

O silêncio fez-se.

Nada mais houve,

Para além de palavras sem sentido.

 

              III

 

De exercício em exercício

Matamos

A criatividade.

 

De exercício em exercício

Geramos

A monotonia.

   Zé Onofre

25
Dez22

Comentário 303

Zé Onofre

                   303  

 

022/12/24

 

Sobre, Tons neutros de Mim, Maria Soares em Silêncios sapo.pt,29.11.22,

 

Um manto cinzento 

Cobre tudo de humidade

Misturando a terra e a água.

 

Um manto cinzento e húmido

Funde os limites de tudo

Diluindo-o num só.

 

Um manto cinzento e húmido

Convida à melancolia

Ou a sonhar aventuras irreais.

 

Um manto cinzento e húmido,

Cortina translúcida

De um teatro de sombras.

 

Um manto cinzento e húmido

Que surpresa reserva para mostrar

Quando o sol o tornar transparente?

   Zé Onofre

24
Dez22

Dia de hoje 83

Zé Onofre

               83

 

022/12/19

 

Natal,

Orar ao Sol

Que regresse

Para nos tirar do Hades

O reino das trevas

Onde caímos no equinócio do Outono.

 

Natal,

A memória de um novo Sol

Que nasceu num curral escuro de Belém

Para dar uma nova Luz ao Mundo.

 

Natal,

Um novo olhar sobre a vida,

Uma nova visão dos homens,

Todos nascidos do ventre escuro da mãe,

Nus,

Sem coroas, nem mordomias,

Sem riquezas,

Todos nascidos de mãos nuas e puras.

 

Memória do nascimento de um menino,

Não por ter nascido um menino,

Igual a todos os outros meninos

E como outros tantos

Nascidos nas margens da vida,

Na margem da humanidade.

 

Natal, celebração de um Menino

No dia do seu Nascimento.

Porque esse Menino

Além de passar pelas fases de crescimento

- Criança e adolescente,

Jovem e adulto –

Cresceu também em Sabedoria

E Inteligência.

 

Aquele Menino, nascido num curral,

À luz das estrelas,

Entre animais e pastores,

No seu trabalho do dia-a-dia,

Na frequência da sua Igreja

Usando o saber que lhe transmitiam,

Usando a sua inteligência

Para ver a realidade

Confrontando-a com os ensinamentos.

 

Havia uma diferença abismal

Entre a vida e o ensinamento.

A sua aguçada inteligência

Não aceitava a distância

Que ia da palavra ao acto.

 

Principiou por confrontar

Os Mestres da sua igreja.

Denunciar,

Não a lei,

Mas a sua Manipulação

Pela hierarquia sacerdotal,

Pela hierarquia política,

Pela elite económica.

 

Há quem celebre o Natal

Como apenas o Nascimento de um menino.

É o Natal da minha infância.

Apanhar musgo,

Arbustos,

Para fazer o presépio na Igreja.

Era a alegria da brincadeira no Largo,

O entrar na Igreja para a Missa do Galo,

Ver o presépio iluminar-se

Ao som das badaladas da meia-noite

E de “o Gloria in excelsis Deo”.

Tudo isto depois da Ceia de Natal em família.

 

Como lembrar todos os nascimentos,

De tantas crianças

Que, como aquele menino,

Nasceram desamparados e abandonados por todos.

 

Como falar da miséria

Que fica para lá das janelas coloridas

Que expõem ao mundo o excesso

Enquanto, deitada em lençóis de neve,

Uma menina morre aquecida

Por fósforos não vendidos.

 

Como revolta

Contra aqueles que transformaram o Natal

Num Centro Comercial,

Que relegaram outra vez para um canto escuro

O aniversariante,

Substituindo-o por um velho barrigudo,

Barbas e cabelos brancos,

Vestido de vermelho,

O homem da Coca-cola.

 

Como apenas tendo sentido

Comemorar o Natal daquele menino,

Não pelo fato de ter nascido,

Mas pelo que fez

Até ser crucificado como um criminoso

Porque ousou enfrentar

Os poderes instituídos

Que manipulavam a lei em seu proveito.

 

Espero no próximo 24 de Dezembro

Comemorar com saudade o Natal da minha infância,

Sabendo, contudo, que o Natal

É muito mais que isso.

Zé Onofre

20
Dez22

Rebusco 3

Zé Onofre

               3

 

989/10/12

 

Caminhamos

Um caminho,

Como quem vai à descoberta.

 

Caminhamos

Por um jardim,

Talvez o mais florido.

 

Caminhamos

Um caminho,

Talvez encantado.

 

Caminhamos

Por um jardim,

Talvez o mais belo arco-íris.

 

Caminhamos

Um caminho

Tortuoso à procura da felicidade.

 

Caminhamos

Um caminho

Que não é apenas de um sentido

 

Caminhamos

Um caminho

Lucidamente cegos.

 

Caminhamos

Um caminho

Apesar das nossas fraquezas.

 

Caminhamos

Um caminho

Assombrado pelas nossas incertezas.

 

Caminhamos

Um caminho

Certos de fazer melhor todos os dias.

 

Caminhamos

Um caminho

Tropeçando em angústia, raiva e alegria.

 

Caminhamos

Um caminho

Apesar de todos as quedas, com amor.

  Zé Onofre

18
Dez22

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - Egas e o eco

Zé Onofre

                                                    Egas e o eco

EGAS E O ECO.jpg

Já com a porta quase fechada,

Egas gritou,

Mãe,

Vou dar uma volta.

 

Foi pela estrada,

Seguindo os seus passos

Que o levaram por caminhos de carros de bois,

Caminhos de cabras.

 

Passou

Por pinheiros e eucaliptos,

Carvalhos e sobreiros

Para parar numa clareira de erva verde.

 

Ali sentado

Prestou atenção aos sons.

Por entre o canto da passarada

Erguia-se um canto mais agudo.

 

Ah! Bem me parecia.

A tua casa está aqui, meu lindinho

De asas pretas douradas,

E tu estás aí dentro?

 

“Grilinho sai, sai

                       Que aí vem o teu pai

                       Com uma faca de aguilhão

                       Para te espetar o coração.”

 

Mais tarde estava sentado

Numa pedreira via lá em baixo

O verde manchado de telhas,

O rio que parecia parado no tempo.

 

Agora, destemido

Subia o fragão.

Sorte a sua não chegou alto

Pois caiu com um profundo Ai!

 

Lá longe,

Uma voz gozava com ele

Repetindo o seu grito

Ai… ai… ai… a…i.

 

Egas deu um salto

Prontinho para fugir,

Parou e disse alto

Que palerma é o eco.

 

A voz de longe,

Que palerma é o eco…

…Palerma é o eco…

…O e…c…o…

 

Egas apercebeu-se que a tarde acabava.

Levantou-se dizendo,

Até amanhã eco!

E o eco

Até amanhã eco

…Amanhã eco

…Manhã e…c…o…

  Zé Onofre

17
Dez22

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - Ana e a ave

Zé Onofre

Ana e a ave

ANA E A AVE.jpg

 

Da janela do seu quarto,

Ana

Olha a paisagem

Com colinas e encostas,

Vales e ribeiros,

Que certamente irão até ao mar,

Que fica para lá do horizonte,

No qual se impõe na maior montanha,

Coberta de neve

Que reflete o sol,

O luar e as estrelas.

 

Não,

A Ana não vive numa aldeia.

Da janela do seu quarto

Vê prédios, atrás de prédios,

Uns mais altos, outros mais baixos,

Presos entre ruas, ruelas,

Praças e avenidas,

Para acabar  

Num prédio todo envidraçado

Do solo de onde se ergue

Até roçar as nuvens.

 

Uma tarde,

Como noutras tantas tardes,

Ana olhava o longe.

Naquela tarde o seu olhar

Encontrou um ponto de interesse.

Era um pequeno ponto

Que se desprendeu lá longe,

Do alto do prédio envidraçado,

E se dirigia para a sua janela.

   

Agora que estava mais próximo

Identificou aquele ponto

Como uma ave.

Era uma ave para ela desconhecida

Tão diferente das avezinhas

Que conhecia dos parques e jardins da cidade.

A sua cabeça,

Ora branca, ora prateada,

Desprendia-se um arco-íris

Que coloria as suas penas.

 

Dos olhos fundos e negros

Formaram-se duas lagoas

Que refletiam a ave,

Que se aproximava velozmente,

Ignorante do perigo

Que representava o vidro da janela.

 

A ave

Chocou violentamente contra o vidro

Caiu como morta no parapeito.  

Com cuidado abriu um pouquinho a janela,

Pegou na ave

E as lagoas dos olhos de Ana

Transbordaram sobre a ave

Que recuperou do choque.

Ana bateu palmas,

A ave bateu as asas.

Ana pegou na ave com jeitinho,

Abriu-lhe a janela,

Deu-lhe um beijo na cabeça,

Deixou-a partir.

 

Agora todas as tardinhas

A ave vinha visitar a Ana.

  Zé Onofre

16
Dez22

Dia de hoje 82

Zé Onofre

82

 

022/12/16

 

Alguém disse um dia

Que o Natal será apenas memória

Um dia.

 

Alguém disse um dia

Que a grande memória do Natal

Será quando não se festejar o Natal.

 

Alguém disse um dia

Que a grande Festa do Natal

Será cumprir o Natal.

 

Alguém disse um dia

Que o Natal não é memória de um Menino,

Mas o trajeto de vida desse menino.

 

Alguém disse um dia

Que cumprido esse Trajeto de Vida

Deixará de haver memória de Natal.

 

Porque, então, nesse dia, será Natal.

Zé Onofre

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