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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

29
Abr21

Formiga 48

Zé Onofre

                        48

22/05/970

I

Não entendo este local,

Não entendo este tempo.

Um jogo de espelhos

Que nos troca o entendimento

E os sentidos.

Que mostram que sou

O que não sou

Apesar de ser o que sou.

II

Não entendo este local,

Nem este tempo.

Um jogo de espelhos

Onde o que sinto,

Não é sentido como é,

É sentido como o seu contrário,

Apesar de ser sentido como é.

III

Sinto,

Sim, sei que sinto,

Um vazio.

Contudo é tão estranho este sentir

Que não me faz sentido,

Senti-lo

É um vazio

De que não tenho certeza de ser vazio,

E contudo é um vazio que me corrói o sentir.

IV

Hoje.

Sim, sei que hoje

O sol brilha.

Que triste sol é este,

Que se chama sol,

É radioso como o sol,

Porém não vejo o sol,

Parece que se esconde,

Atrás daquela bola brilhante

Que sorri pela janela

E que eu sei que é o sol.

V

Pelas vidraças

Saltam, para a minha mesa,

Imagens 

De verdadeiros campos

Estendidos ao sol.

Fixo os olhos nas janelas

E as janelas escondem os campos.

Quero rebolar nos campos

E os campos lá tão longe,

Tão longe de serem campos,

Que pelas vidraças saltam para a minha mesa.

VI

De olhos estendidos para lá do horizonte,

Não sei se vejo árvores,

Ou se quero ver árvores até ao horizonte.

São árvores.

Ouço o vento segredar às folhas.

Será que vejo folhas,

Ou quero ouvir o vento nas folhas?

E as árvores esfumam-se.

Lá longe,

Onde as árvores estão,

Ando eu de ramo em ramo,

De ouvido encostado às folhas,

Que me contam os segredos do vento,

Enquanto o vento me leva suspenso pelo cabelo.

VII

De cabeça à roda,

Que tento firmar nestas mãos trémulas,

Sinto-me pleno.

Tão pleno que dos poros,

Solto golfadas de alegria.

As mãos ficam firmes,

A cabeça para,

E aquele pleno que sinto

Não o sinto como pleno

E, contudo, é pleno.

VIII

Que local é este,

Que tempo é este?

É um caleidoscópio

Destes dias sem sentido,

Em que me encontro perdido

Neste movimento giratório,

Entre o ser e o não ser.

Vejo-me livre.

A cada volta que dá,

Nasce um novo horizonte.

Sinto-me livre,

Livre,

Criador de mundos mágicos.

Liberdade, Liberdade,

Ecoam os horizontes presos nos espelhos.

E esta liberdade que sinto

Fechado no caleidoscópio,

Não é liberdade,

Contudo é assim a liberdade.

IX

Num dia deste tempo,

Sentado à mesa neste local,

Uma pauta de música em branco,

Caiu desmaiada nas minhas mãos.

E os dedos frenéticos

Correndo pela pauta em branco,

Tocam uma música tão sublime

Como os meus ouvidos jamais ouviram.

Sei, de certeza certa,

Que não há ali qualquer música,

Mas que a música que lá está

Estou seguro que foi a que ouvi.

X

Exausto

Do ser e não ser

Deste local e tempo,

Desabo nesta cama solitária.

Olho o teto,

Ouço uma flor,

Só pelo perfume que exala.

Levanto-me,

Abro a janela e debruço-me.

Lá está ela refletindo o luar,

Que se eleva pela ramagem.

É flor,

Sempre flor.

A flor é flor,

Quer, eu esteja presente, ou não.

Quer, eu esteja ausente, ou não.

Só a flor

Será sempre flor

E para sempre flor.

        Zé Onofre

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