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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

29
Out22

Histórias de A a Z para aprender a ler e a escrever - Livro I - Os socos da Sónia

Zé Onofre

Os socos da Sónia

SÒNIA E OS SOCOS.jpg

 

 

 

Sónia,

Por motivos de necessidade,

Passou uns dias com os avós

Bem longe da cidade.

 

Sónia conhece

A aldeia dos pais

Apenas de dia de festa

E, claro, pelos natais.

 

Estranhava

Os caminhos.

Arrastavam-se sós

Até às casas,

Plantadas em tapetes verdes,

Ou suspensas dos ramos das árvores

E do azul do céu.

   

Da janela

Observava espantada

O que lá fora se passava.

Nos caminhos solitários,

Nem um chiar de travões.

 

Ouvia-se

Um chiar de carro de bois ao longe

Um raro som de tractor,

Ou uma voz

Que subia da rua

E os avós como estão?

 

Coisa estranha,

As pessoas iam e vinham

Pelos caminhos

Centradas no ontem,

Ou no amanhã,

E os pés levavam-nas,

Sem engano,

Aos seus destinos.

    

Via a vida acontecer

E ela a vê-la da bancada.

Um dia saltou da cama,

Passou a correr

Pelos avós.

Vou fazer uma caminhada

E foi.

 

Nem ouviu o aviso do avô.

Toma atenção por onde vais,

Para não te perderes

Por esses campos ou montes.

Olha por onde vais,

Para saberes voltar.

 

Já ia longe

Pisava a erva verde,

Saltava os fios de água,

Corria pelos carreiros dos montes

Atirava-se para um penedo

Estendido no meio do pinhal.

 

Deu-se conta

Que certamente estaria perdida,

Ou pelo menos louca de certeza.

Não sabia por onde regressar,

O que também não sabia

Era que o vento podia

Segredar aos ouvidos

Palavras tontas

Calça os socos certos.

 

Doidinha e perdida

Estou.

Agora socos,

Socos que não vira

E agora ali estão eles.

Uns, amarelos de sol poente,

Outros vermelhos, sangue ardente.

 

Calço uns e logo se vê.

Apenas diferem na cor,

Ambos servem para caminhar

Irei ter a algum lugar.

 

Calçou um soco amarelo

Apenas luz

De dia a acabar.

Calçou um soco vermelho

Viu-se

Como quem se mira ao espelho.

 

São os socos vermelhos

Pois então.

Não hesitou mais

E já tem os dois calçados

E num zás-trás

Ouviu o avô

Então, ainda aí estás?

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