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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

27
Abr22

Por aqui ed por ali 106

Zé Onofre

                  106

 

997/06/29

 

Descobri, hoje, que é maldição sonhar.

Os sonhos mais simples morrem

No desastre das nossas próprias mãos,

Ou no aperto insincero de mãos estranhas.

 

Não só é maldição sonhar,

Mas maior maldição é revelar

Os sonhos íntimos que se possam ter,

Os sonhos devem ser estrangulados

Com os primeiros raios do amanhecer.

 

Assim não haverá dias primaveris,

Nem Verões quentes em Novembro a morrer.

Assim teremos garantidos dias sem tempestades, …

Viveremos mortos sem alegrias, nem vontades.

  Zé Onofre

13
Set21

Penafiel 27

Zé Onofre

            27

 

10/06/976

 

São longos os dias.

São curtos os espaços.

Duradouras as alegrias

Forjadas no aço.

 

Os dias são longos,                 

Mas as horas curtas.

Os minutos não existem,

Os segundos são raros.

Segundos são os tempos de vida

Na vivência do Homem.

Nem dias, nem horas

Eu quero hoje.

Só segundos

Contados um a um

De menos infinito

A mais infinito.

   Zé Onofr

19
Ago21

Souto 38 (Encontros, fantasias, ilusões e enganos)

Zé Onofre

SET/975

                2

Que morra nosso coração,

Que morra a fantasia!

Morreu o fogo que acendia

A nossa imaginação.

 

Se por entre a luz da recordação

Lembramos aqueles poucos dias

E pensamos naquelas alegrias

Mais triste se torna a separação.

 

E, então, ao acaso na rua

Por entre tristezas, ralação

O nosso olhar procura,

 

Em cada sombra, a bênção

Das vossas esbeltas figuras

Adoráveis, Zé, Céu e São.

    Zé Onofre

18
Ago21

Comentário 38 (NOS DIAS QUE PENSÁVAMOS SEREM ETERNOS)

Zé Onofre

                38

                 I

                2

        Reis, 1974

Viemos por caminhos velhos

Como manda a lei antiga,

Mas são novos os desejos

Que trata a nossa cantiga.

 

Um novo ano a nascer,

Nós vimos há poucos dias.

Que a vontade e o querer

O façam em muitas alegrias.

 

Contam-se pelos dedos

Os dias que o ano tem

De alegrias. Sem medos

Sejam os outros também.

 

Em cada dia que ele tiver,

Cada um com seu rosto,

Traga ele o que trouxer

Seja bem ao vosso gosto.

 

Não podendo os desejos,

De cada um adivinhar,

Queremos benfazejos

Os dias a caminhar.

 

Cada ano, novas esperanças,

Cada mês, novas alegrias,

Sejam as horas crianças

A alegrar os vossos dias.

     Zé Onofre

15
Ago21

Souto 11

Zé Onofre

              35

20/05/975

Conto de Natal

Conto com tantos anos sem conta,

Conto de anos que vieram antes de nós.

Conto de sonhos antigos,

Conto de tantas alegrias já idas.

Conto de muitos dias, num dia.

Conto de muitas alegrias, nas alegrias de hoje.

Conto de gente a sorrir desde sempre.

Conto de um menino a nascer há dois mil anos.

Conto de um canto de presépios diferentes e iguais.

Conto de alegrias todos os anos repetidas.

Conto de uma cortina que cai e tudo esconde.

Conto de uma cortina que apaga aquele dia singelo.

Conto de uma cortina que apaga a mudança que não houve.

Conto de uma cortina que apaga aquele momento doce.

Conto de uma insistência igual, todos anos.

Conto em que vivemos um conto de fantasia.

   Zé Onofre

04
Ago21

Souto 20 e 21

Zé Onofre

          20

17/12/974

                 I

São extensas as noites.

São alegres os dias.

São frias as alegrias.

São tristes as noites.

Sempre me procuro

Nessas teias

Como um fantasma

À procura desesperado

De materialidade.

Procuro nas lonjuras,

Em lugares escuros

Sem me encontrar.

A sombra,

Projectada pela imagem

Que os outros percebem

De mim.

Entre alegria,

Tristezas

Construo-me

De um talvez distante

Futuro.

           II

Nesse dia futuro,

Portanto outrem diferente,

Vislumbro, por entre a névoa,

O que gostaria de ser.

Leve,

Flutuando nas ideias,

Que agora me pesam

Como um fardo,

Ou como um castigo,

Da ousadia

De querer ser eu em verdade.

Nas palavras,

Nos actos,

Nas incertezas,

Quero ser eu

Agora no presente,

Que ainda não é futuro,

Me prende,

Qual maldição,

Ao passado,

Longa galeria de vitórias,

Derrotas,

De incertezas.

         III

No passado

Encontro-me bisonho,

Irritável,

Irritante,

Pesada herança

Do que sou,

Do que vivo.

De lá de trás

Vem uma mágoa

Por cada segundo morto.

O ontem

Mistura-se com o hoje

Baralha-me o amanhã

E no espelho dos outros

Vejo-me fantasma.

Mas um mérito tem

É a imagem que eu,

Com loucura,

Ou com lucidez enviesada,

Pari.

Zé Onofre

         21

 10/01/975

                        I

 Por caminhos,

Velhos,

Ou novos,

Ou por inventar,

Tento viver a vida

Que agora será nova.

Se não for perdida,

As pessoas ladrar-ma-ão 

Mas vivê-la-ei

Longamente

Conforme quero

E não segundo padrões convencionais.

Hei-de vivê-la

Porque minha

E eu próprio a construo.

Que me importa que a ladrem?

Que a ladrem,

Que a achem risível,

Vou vivê-la.

Vou construí-la

De acordo com os meus projectos,

Apesar dos vossos cochichos

Que já fazem parte da minha vida,

Já me são essenciais.

Sois vós que me dais alento.

Em cada risada,

Em cada dentada 

Confirmais que é este o meu caminho.

Se o olhais com desdém

É porque é meu

E não é vosso,

E não tendes coragem de criar o vosso.

                          II

Um caminho,

Caminho velho,

Novo caminho,

Delineio-o como quero,

Vivo-o com o meu sangue,

Com lágrimas,

Com esforço,

Com alegrias.

Dizeis que é um erro.

O erro não existe,

São os marcos da caminhada,

Que apontam em frente.

Só um caminho,

Por muitos calcorreado,

Dispensa os erros,

Mas rouba a alegria

De o fazermos com a nossa vida

De o moldar com as nossas mãos.

Reconhecer o erro

Não é arrependimento,

É viver a vida

E saber que se vive.

E vós sabeis que viveis?

No dia que entrar pelo vosso caminho

Então ride perdidamente.

O louco morreu.

       Zé Onofre

 

 

 

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