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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

20
Dez22

Rebusco 3

Zé Onofre

               3

 

989/10/12

 

Caminhamos

Um caminho,

Como quem vai à descoberta.

 

Caminhamos

Por um jardim,

Talvez o mais florido.

 

Caminhamos

Um caminho,

Talvez encantado.

 

Caminhamos

Por um jardim,

Talvez o mais belo arco-íris.

 

Caminhamos

Um caminho

Tortuoso à procura da felicidade.

 

Caminhamos

Um caminho

Que não é apenas de um sentido

 

Caminhamos

Um caminho

Lucidamente cegos.

 

Caminhamos

Um caminho

Apesar das nossas fraquezas.

 

Caminhamos

Um caminho

Assombrado pelas nossas incertezas.

 

Caminhamos

Um caminho

Certos de fazer melhor todos os dias.

 

Caminhamos

Um caminho

Tropeçando em angústia, raiva e alegria.

 

Caminhamos

Um caminho

Apesar de todos as quedas, com amor.

  Zé Onofre

25
Mai22

Por aqui e por ali 134

Zé Onofre

                   134

 

013/04/20, Escola de Igreja, Vila Caiz, AMT

 

Não sei, Amor,

Com que linhas te desenhar.

Linhas de penhasco afiado

A trepar por encostas íngremes,

Ou de planuras a fugir para o horizonte?

Linhas de árvore esquelética de ramos ressequidos,

Ou de árvore de mata luxuriante?

 

 Não sei, Amor,

Com que cores te hei de pintar.

Com as cores de horizonte longínquo,

Ou da paisagem para lá chegar?

Cores de seara primaveril,

Ou de trigo em Junho a ondular?

Cores de sol em auroras em montes,

Ou como sol a mergulhar no mar?

 

Não sei, Amor,

Com que palavras te dizer.

Com palavras trémulas de jovem a improvisar,

Ou com as palavras tristes de adulto a declinar?

Com palavras simples mas sinceras,

Ou com palavras douradas vazias de sentir?

 

Não sei, Amor,

Com que sons te acariciar.

Se com os da brisa fresca da madrugada,

Ou com o do sussurro do entardecer?

Se com o do vento quente do meio-dia,

Ou com o do vento gélido do luar?

Se com o do crepúsculo das estrelas,

Ou com o estrondo das rochas no mar?

 

Não sei, Amor,

Não sei.
       Zé Onofre

25
Abr22

Por aqui e por ali 104

Zé Onofre

              104

 

997/01/18, exercícios dramáticos preparativos de teatro, Casa Padre Gonçalo, Amarante 

 

Venho para ti de mãos nuas,

Vê.

Nem palácios, nem padrarias,

Nem ouro, nem pedrarias.

Nelas trago apenas

Amizade, carinho e amor

Com que pretendo cobrir-te.

 

Venho para ti demãos nuas,

De mãos nuas pretendo continuar.

Nelas quero, apenas, guardar de ti

A memória dos carinhos que trocamos,

A memória dos corpos cálidos que descobrimos.

Vim para ti de mãos nuas

Levo-as cheias de recordar.

        Zé Onofre

05
Out21

Penafiel 54

Zé Onofre

                 54

 

09/01/978

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te

Ó mulher prostituída

Dos verdes anos sem viço.

 

Aproxima-te

Ó velho reformado

Dos bancos do jardim.

 

Aproxima-te

Ó criança trapo

Do bairro de lata.

 

Aproximai-vos e gritai.

Grita,

Mulher prostituída

O teu sexo frio.

 

Grita,

Velho reformado,

Os teus anos gastos

De miséria pura.

 

Grita,

Criança,

A tua fome milenar.

 

Vinde,

Saí da penumbra.

 

Sai,

Mulher prostituída,

Da sombra do teu viver obscuro.

 

Sai,

Velho reformado,

Do banco gasto do jardim público.

 

Sai,

Criança trapo,

Dos farrapos do teu já cansado viver.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Senhora dona Fulana

Dos salões de chá,

Dos bailes de Caridade.

 

Aproxima-te,

Velho ricaço,

Ajoelhado (em cuecas)

Em frente à jovem criada.

 

Aproxima-te

Criança farta, birrenta e aborrecida,

Abonecada pelos caprichos da Mamã.

 

Grita,

Senhora dona Fulana,

A tua inutilidade

Feita caridade em tempos de Natal.

 

Grita,

Velho Ricaço,

O teu moralismo em discursos de altar.

 

Grita,

Criança aborrecidamente farta,

A meninice mimada com a pobreza de outros.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Ó mulher domesticada,

Mãe dos teus filhos.

 

Aproxima-te,

Ó homem libertino,

Corno e corneador dos teus amigos.

 

Aproxima-te,

Ó criança maltratada,

Filha do acaso ou das conveniências.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher domesticada,

A tua vida roubada.

 

Grita,

Ó homem libertino,

Os teus cornos florescidos.

 

Grita,

Ó criança maltratada,

A tua inocência pura.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

 

 

Aproxima-te,

Ó mulher operária,

Construtora e transformadora da vida.

 

Aproxima-te,

Ó homem operário,

Construtor e transformador da vida.

 

Aproxima-te,

Ó criança,

Nascida do amor,

Doado e criado mão na mão.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher operária,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó homem operário,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó criança nascida da alegria,

A felicidade de seres filha do amor.

15
Jul21

Souto 11

Zé Onofre

11

30/09/973

Que fazer

Da solidão e do desespero.

Da angústia e do desatino,

Do nada e da plenitude,

Um novo amor?

Que fazer

Das palavras sentidas

Longamente perdidas,

No sem fim de rumores,

No eco dos rumores,

Nos uivos e nos gritos,

Na vozearia e da gritaria,

Nas curvas da louca mente,

No troar permanente,

Nos confins do mundo,

No mar profundo,                                 

Nos areais açoitados pela ventania,

Um novo amor?

Que criar entre mim e ti, entre nós,

Com o perdido e despedido,

O trucidado e aboquejado,

O desfeito e rarefeito,

O contrafeito e imperfeito,

O desiludido e temido,

O negado e estraçalhado,

O falado e calado,

O dito e contradito

Amor?

Inventar tudo de novo?

  Zé Onofre

14
Jul21

SOUTO 10

Zé Onofre

         10

 27/07/973

Quero inventar,

Do caos e do nada,

Do deserto e da solidão,

Da tristeza e da melancolia,

Do ódio e da guerra,

Um novo amor.

Quero inventar

As palavras que faltam,

Os sons desconhecidos,

Os sentimentos não sonhados,

As regras nunca sonhadas,

Para que do fundo do infinito,

Surja um novo amor.

   Zé Onofre

Quero inventar os seres,

A vida

Que dará existência

A um novo amor.

Quero inventar…

Se tudo já foi dito,

De trás para afrente,

De cima para baixo,

Baralhado e extraído em mil frases,

Concordantes

E contraditórias,

Sobre o desterrado,

Emparedado,

Assassinado Amor.

14
Jul21

Souto 9

Zé Onofre

    9

 ___/___/972

Em viagem,

No mesmo ritmo eterno,

Recordo as palavras não ditas.

As que não disse na Livração,

Nos lugares de Coimbra,

Que me assombram

Nas longas horas de solidão.

Falar

Ou não falar,

Ter coragem,

Ou não ter coragem,

Tudo nisso se resolve.

Quantas dúvidas,

Nas longas horas

Que me apertam.

Falei as palavras todas,

Que uma pessoa calada de timidez,

Pode dizer.

Ouvistes

E calastes.

Todas as palavras de amor,

Mortas antes de nascerem.

Todas as palavras

De revoluções utópicas.

Todas as palavras frustradas

Que só eu consigo dizer. 

  Zé Onofre 

06
Jul21

Souto 7

Zé Onofre

7

11/07/972

                   I

Que é feito do meu poema?

(Do poema que sonhei,

Só mesmo sonhado poderia ser meu.)

Poema tão lindo,

Tão gritantemente lindo.

Lancinante

De ódio,

De morte,

De azar,

De loucura.

Que é do sonho

Do poema do sonho

Que sonhei

No meio da febre,

Breve sonho.

                    II

Perdido.

Perdido de quem?

Perdido do quê?

Perdido desde quando?

Perdido onde?

Perdido para quê?

Perdido,

Perdido de mim mesmo.

Tudo me foi roubado.

(Mas quê,

Se nada sou,

Se nada tenho.

Até mesmo o poema

Nascido num sonho de febre

Não é meu.)

                      III

Vestido de lágrimas,

Uma a uma caídas

Lenta, lentamente,

Mais lentas,

Que o passar lento dos segundos

(Segundos ou anos?)

Tudo lento,

Como um relógio parado

E sou eu esse relógio.

                IV

As lágrimas caídas,

Ping Ping Ping

Gotas de um teto calcário

Esculturando estalactites,

Seres fantasmagóricos,

Viventes no fundo de grutas,

Nuas e frias.

Grutas que as lágrimas

Caindo uma a uma, 

Dos meus olhos solitários,

Criam no fundo de mim

Onde me escondo.

                 V

As minhas lágrimas

Tristes,

Somente lágrimas

De um perdido,

Há tantos anos perdidos,

Sem encontrar

Seja o que for,

Que nem eu sei o que procuro.

                   VI

As lágrimas

Uma a uma caídas,

Caindo há tanto tempo,

Despedem-se de mim,

Correndo pelo chão,

Até um largo lago,

Um mar

De ondas revoltas,

Batendo nas rochas negras,

Cobertas de algas,

Escorrendo espumas

De sal,

De solidão. 

                     VII

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos

De Olhares indefinidos,

Fixos

Num ponto para além de todos,

Para além das palavras,

Para além dos ecos do meu peito,

Das saudades que carrego,

Nem sei desde quando.

                      VIII

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos,

Palavras repetidas, sempre repetidas

Na longa caminhada do deserto

Em que me fiz.

Dúvida.

Incerteza.

Tristeza.

Perdido.

Desnorteado.

Ontem.

Amanhã.

Amor.

Caminho.

Paz.

Longe.

Dentro.

Desencanto.

Desiludido

Loucura.

                    IX

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos

Tristes,

Apagadas

Pelas curvas da vida.

Caídas,

Da longa bacia do meu olhar,

Lápide comemorativa

De cada morte que vivi,

Pela tortuosidade do ser.

Saídas do bosque

Sombrio

Dos meus pensamentos emaranhados

Que se atropelam

   Zé Onofre

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