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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

12
Jan23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - O tesouro do senhor Aires

Zé Onofre

O tesouro do senhor Aires

O TESOURO DO SENHOR AIRES.jpg

Quando era criança,

Contava o avô,

Conheci o senhor João,

Um velhinho de bengala,

Cabelo branco

A espreitar sob o chapéu preto.

Aos Domingos,

Sentava-se no banco do adro

À espera da pequenada

Que vinha para a catequese.

 

As crianças iam chegando

Uma a uma,

Outras em grupo,

E faziam roda à sua volta.

Quando estavam todos

Pediam,

Conte-nos uma história

 

A da velha, da cabaça e do lobo?

Não.

A da raposa dos três afilhados,

Iniciei-te, meei-te, acabei-te?

Não.

A da bota das sete léguas?

Já contou.

Qual?

 

Então o avô João

Começou

A verdadeira

História do tesouro do senhor Aires.

 

Aires

Era o rapaz dos sete ofícios.

Pedreiro,

Colmador,

Carpinteiro.

Porém, não era só,

O rapaz dos sete ofícios,

Era também

O rapaz das sete partidas.

 

Tanto estava aqui na aldeia,

Como andava lá por longe,

Sabe-se lá onde,

A fazer o que sabia

E o que inventava saber

E fazia

Como se o tivesse feito

Toda a vida.

 

Voltou na altura

Em que o senhor António da Quinta

Oferecia o tesouro

Que dizia haver

Num dos seus campos.

 

O Aires apressou-se logo

Para o grande achado.

Carrinho de mão,

Pá,

Enxada,

Picareta.

Assim se apresentou

Ao senhor António da Quinta,

Venho buscar o tesouro.

 

O tesouro que aqui há

Não se procura com esse material.

Aparecerá no bico da aiveca

Da pessoa que a manejar

Lá onde se esconde.

Aiveca, tenho eu  

Junta de bois também,

É começar a lavrar

Que o tesouro há de lá estar.

 

Começa por qualquer campo,

Pelo lado que mais jeito te der

E começa a lavrar.

Com o empenho que começou

Em pouco tempo estava tudo lavrado

Do tesouro

Nem recado, nem achado.

 

Ó Aires,

Já que a terra está toda lavrada,

Para não desperdiçar

Um trabalho tão bem feito,

Que me dizes a semear centeio,

Tu, eu e a cachopa?

Nada há a perder,

Para o ano recomeço

Que em algum torrão há de estar

O tesouro que mereço.

 

Ano após ano

Espiolhou a terra com a aiveca.

Assim foi ficando,

Mais tempo do que o apostado

Nas mesas da taberna.

O mais curioso

É que já nem o Aires sabia por que ficava,

Do rapaz dos sete ofícios,

Passou a homem dum ofício só.

Do rapaz das sete partidas,

Passou a homem,

O Aires da Quinta.

 

O tesouro Aires, aparece ou não?

Creio que sim sr. António.

As tulhas estão cheias de grão.

Bem vendidas

Bons cobres renderão.

Nos quintais da casa,

Há batatas, legumes,

Fruta variada

Muita coisa boa para se comer.

Um homem como eu,

Que mais pode querer.

Talvez uma mulher,

Enquanto,

Descaradamente olhava a bela mulher,

Que era agora a filha do senhor António.

 

Tens razão,

Encontraste o tesouro

E, para o completar,

Apenas te falta casar.

Se a rapariga quiser

Como tu já o deste a demonstrar,

Seria para mim grande alegria

Levar-ta ao Altar.

  Zé Onofre

09
Jan23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - Aurélio na Terra do avô

Zé Onofre

Aurélio na terra do avô

 

 

AURÉLIO NA ALDEIA DO AVÔ.jpg

 

Aurélio viajava, e não era pela primeira vez,

Para a aldeia onde viviam o avô e a avó.

Lembrava-se que os visitava, talvez, umas três

Alturas por ano. Esta não era uma visita só.

 

Hoje dirigia-se para a Terra natal do pai,

Não para fazer mais uma visita familiar

Como as que fazia nas festas e férias. Vai

Porque está doente para tentar repousar.

 

Uma dessas ocasiões ocorria no Verão.

As estradas que tinham, sem exagerar,

Mais curvas que quilómetros, eram então

Espiche, buracos e terra, pareciam não acabar.

 

Saíam de manhã cedo antes de nascer o sol.

A viagem começava com o carro voando

Porém, depressa rolavam a passo de caracol.

Quando chegavam já a noite ia entrando.

 

A ida por velhos caminhos será menos demorada.

Ainda será, mesmo assim, longa para recordar

Os primos, as primas e os amigos. A tratantada

Começava de manhã cedo e ia até o dia acabar.

 

As tardes de verão no rio eram de encantar.

Nadar, saltar de pontos altos para a água, subir

E descer o rio no barco a remar e a cantar.

A última automotora dizia a hora de partir.

 

O monte tinha sempre algo para ofertar.

Na primavera o rosmaninho, o tapete pascal.

Pela senhora da Graça as pinhas para queimar.

No inverno, o musgo para o presépio de Natal.

 

Nestas andanças com os primos desde a aurora

À noite, de qualquer lugar fosse ele alto ou fundo,

Estava a linha por onde serpenteava a automotora.

Na automotora, sonhava Aurélio, correria o mundo.

 

Parecia que o pai tinha o dom de adivinhar

Os mais loucos sonhos que Aurélio tinha.

Um dia foram todos para a estação esperar

A automotora para viajarem até ao fim da linha.

 

O pai, na viagem de volta, levou-o ao motorista

Que o convidou a entrar e permitiu-lhe tocar

A buzina. Aurélio mostrou-se um hábil artista.

A automotora veio em festa até a viagem acabar.

  Zé Onofre

29
Out22

Histórias de A a Z para aprender a ler e a escrever - Livro I - Os socos da Sónia

Zé Onofre

Os socos da Sónia

SÒNIA E OS SOCOS.jpg

 

 

 

Sónia,

Por motivos de necessidade,

Passou uns dias com os avós

Bem longe da cidade.

 

Sónia conhece

A aldeia dos pais

Apenas de dia de festa

E, claro, pelos natais.

 

Estranhava

Os caminhos.

Arrastavam-se sós

Até às casas,

Plantadas em tapetes verdes,

Ou suspensas dos ramos das árvores

E do azul do céu.

   

Da janela

Observava espantada

O que lá fora se passava.

Nos caminhos solitários,

Nem um chiar de travões.

 

Ouvia-se

Um chiar de carro de bois ao longe

Um raro som de tractor,

Ou uma voz

Que subia da rua

E os avós como estão?

 

Coisa estranha,

As pessoas iam e vinham

Pelos caminhos

Centradas no ontem,

Ou no amanhã,

E os pés levavam-nas,

Sem engano,

Aos seus destinos.

    

Via a vida acontecer

E ela a vê-la da bancada.

Um dia saltou da cama,

Passou a correr

Pelos avós.

Vou fazer uma caminhada

E foi.

 

Nem ouviu o aviso do avô.

Toma atenção por onde vais,

Para não te perderes

Por esses campos ou montes.

Olha por onde vais,

Para saberes voltar.

 

Já ia longe

Pisava a erva verde,

Saltava os fios de água,

Corria pelos carreiros dos montes

Atirava-se para um penedo

Estendido no meio do pinhal.

 

Deu-se conta

Que certamente estaria perdida,

Ou pelo menos louca de certeza.

Não sabia por onde regressar,

O que também não sabia

Era que o vento podia

Segredar aos ouvidos

Palavras tontas

Calça os socos certos.

 

Doidinha e perdida

Estou.

Agora socos,

Socos que não vira

E agora ali estão eles.

Uns, amarelos de sol poente,

Outros vermelhos, sangue ardente.

 

Calço uns e logo se vê.

Apenas diferem na cor,

Ambos servem para caminhar

Irei ter a algum lugar.

 

Calçou um soco amarelo

Apenas luz

De dia a acabar.

Calçou um soco vermelho

Viu-se

Como quem se mira ao espelho.

 

São os socos vermelhos

Pois então.

Não hesitou mais

E já tem os dois calçados

E num zás-trás

Ouviu o avô

Então, ainda aí estás?

03
Out22

Histórias para aprender a ler e a escrever - Livro I - Vitória

Zé Onofre

Vitória

Vitória.jpg

 

Era uma vez uma menina.

Era uma vez uma vaca.

Vitória era o nome da menina.

Malhada se chamava a vaca.  

 

No verão Vitória levava

A vaca para o campo pastar.

A malhada no campo ficava

Até a Vitória a ir buscar.

                  

Um dia Malhada, a vaca,

Parece estar ainda travada.

A cada momento estaca.

Vitória, a menina, fica arreliada.

 

Vamos, Malhada, vaca bela.  

Mexe-te, que moleza é essa?

Dizia a Vitória, chegando-se a ela.

Move as pernas mais depressa.

 

A Malhada parecia não ouvir,

Continuava a passos lentos.

A Vitória já cansada de pedir,

Passou a termos mais violentos.

 

Olha que barriga, vaca gulosa,

Comeste tanto, pesa-te a bandulho.

Deixas de andar vagarosa,

Ou ‘inda levas de estadulho.

 

Malhada, a vaca, olhava a menina,

Que nunca assim a maltratara,

Parecendo dizer em voz pequenina

Hoje nada comi, coisa bem rara.

 

Como era de esperar a noite crescera.

Arrasta-se mal, Malhada, a vaca,

                                Vitória, a menina, já desespera.

  Agora a vaca virou uma estaca.

 

Estavam assim as duas paradas,

E lá do fundo do uma voz acesa.

Eh rapariga, que fazeis a aí pasmadas,

Mexe-te qu’a ceia está na mesa.

 

A Vitória a culpa não é minha,

É desta barriguda que parou de repente.

Até a agora devagarinho, mas vinha.

Agora nem p’ra trás nem p’rá frente.

 

O avô, que era dele a voz manda

A neta ir indo, que depois vai lá ter.

Vitória num segundo desanda

E diz avô, espero por si ao amanhecer.

 

A espera não foi assim tanta, tanta,

Mas era noite alta quando chegou.

Chamou a neta como quem canta.

Anda cá ver que bem a vaca andou.

 

A Vitória curiosa desce a correr

Vai à corte da Malhada espreitar.

Nem acreditou no que estava a ver

Um bezerrinho na vaca a mamar.

 

Triste de lhe ter chamado gulosa,

barriguda nervosa pela noite que caía

Chega-se à vaca, que está vaidosa

Desculpa, Malhada, eu não sabia.

  Zé Onofre

02
Set22

Histórias para aprender e ler e escrever - Livro I - Iua, a boneca de Maria Rita

Zé Onofre

Iua, a boneca de Ana Rita

Xana.jpg

 

Uma tarde,

Na rua de Entre Casas,

Ia um grande alarido.

 

Debruçado numa janela,

Estava um homem

Com uma cana de pesca na mão.

 

Os vizinhos,

Que conheciam bem o avô João

 – Será que endoideceu?

 

Por detrás do avô João,

Ana Rita gritava,

A Iua Caiu!

 

Mentira, menina Rita!

Gritava Joana, a outra neta.

Foste tu que a atiraste pela Janela.

 

Entretanto, o avô João,

Alheado do alarido à sua volta

Com o anzol pescava a boneca que caiu.

 

E Joana teimosa continuava.

A boneca não caiu foi a Rita  

Que a atirou pela janela.

 

Mas porquê? – pergunta o avô.

Ana Rita quer, porque quer,

Chamar Iua à boneca.

 

Iua, ó Rita, não existe,

Nem para nome de boneca!

Disse-lhe eu e ela ficou irritada.

 

 

Então,

Furiosa atirou com a boneca

Que passou a janela e caiu.

 

O avô gargalhou com vontade.

Uma boneca chamada Iua!

Será que na China existe?

 

Foi assim que naquela tarde

A boneca que não podia ser Iua

Pela janela caiu.

Desenvolvimento

Frase – Ex.: A boneca caiu pela janela porque não podia ser Iua e a Rita atirou-a fora.

Proceder como nos textos anteriores

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