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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

20
Abr22

Por aqui e por ali 98

Zé Onofre

                  98

 

996/11/24

 

De repente sinto que o Natal

Morreu dentro de mim.

 

Que caminhos percorri,

Que sonhos desperdicei?

 

Tudo sabe a esforço,

Voluntarismo,

Racionalidade.

Tudo é

Porque tem de ser.

 

Já nada é

Sonho ou alegria,

Revolta ou ousadia.

Tudo é razão, razão, razão.

 

Em que canto,

Em que esquina,

Em que parte de mim próprio me perdi?

  Ze Onofre

04
Jan22

Por aqui e por ali 36

Zé Onofre

              36

 

986/08/11, Livração

 

Por caminhos desconhecidos,

Levam-me as pernas desalentadas.

Falais-me de solidão

Como um monopólio

Mas ela não é só vossa.

 

Por sonhos do passado

Caminho descompassadamente

À procura.

Só encontro solidão.

 

Falais-me do desespero da solidão,

Como se fosse um monopólio

Quando ele não é desgraça só vossa.

15
Out21

Penafiel 64

Zé Onofre

                     64

 

___/03/978

 

Às vezes,

Só às vezes

Os sons são silêncios.

Nem sempre

Os silêncios são pedras.

As pedras,

Às vezes são distâncias,

Nem sempre solidão.

De pedras são os caminhos.

De pedras é a alegria plena

Do dia-a-dia.

Às vezes a lonjura

É estar perto,

Nem que para lá chegar,

Se caminhe um infindável caminho

De pedras

Que, às vezes

São palavras amigas.

Silenciadas?

Talvez.

    Zé Onofre

06
Out21

Penafiel 55

Zé Onofre

                   55

 

09/01/978

 

Não!

Nunca aceitarei

O que me queiram dar

De mão beijada.

Não!

 

Sei!

É difícil acreditar

Nas verdades evidentes.

Sei!

 

Não!

Não creio na simplicidade

Das coisas simples.

Não!

 

Sei!

Os problemas estão

No mais íntimo de nós.

Sei!

 

Ninguém!

 

Ninguém pode afirmar absolutamente

A resposta é esta.

Ninguém!

 

Não!

Não creio em respostas únicas.

Numa só resposta certa.

Não!

 

Não!

Não há respostas erradas.

Há caminhos percorridos.

Não!

 

Direi!

Direi não à primeira resposta

Que atropele as outras.

Direi!

 

Não!

Não aceito respostas dadas.

Essas evitam o caminho para o futuro,

Não!

   Zé Onofre

11
Ago21

Souto 30

Zé Onofre

30

 20/03/975

 Hoje,

Não é hoje,

São mil dias contidos

Numa vontade de quererem ser hoje.

 

Hoje, são milhões de anos

A nós trazidos, a nós agarrados

Por outros hoje, que não foram hoje,

Mas milhões de dias contidos

Numa vontade de quererem ser hoje.

 

Hoje, é uma eternidade

De milhões de hoje.

Hoje que foram milhões de anos

Todos aqui trazidos, a nós colados,

Com outros hoje que não foram hoje,

Que foram milhares de hoje contidos,

Numa vontade de querer ser hoje.

 

Hoje, é o grito da humanidade

Que ao longo de milhões de séculos

Tem evoluído de hoje em hoje,

Que têm sido uma eternidade

De milhões de hoje

Que foram milhões de anos

Aqui trazidos e acorrentados

Nos outros hoje

Que não foram hoje

Que foram mil dias contidos

Numa vontade de quererem ser hoje.

 

Hoje

É o som dum cristal,

Que, sem espaço para cristalizar,

Resolveu nascer amiba,

E iniciar a vida

Que por caminhos imprevisíveis,

Com uma infinidade de contradições

Viu surgir o bicho Homem

Que hoje

Se tenta libertar,

Que tem vindo a descobrir

Que num hoje qualquer

Na plenitude do tempo,

Na largueza do espaço,

Acabará por cristalizar.

  Zé Onofre

04
Ago21

Souto 20 e 21

Zé Onofre

          20

17/12/974

                 I

São extensas as noites.

São alegres os dias.

São frias as alegrias.

São tristes as noites.

Sempre me procuro

Nessas teias

Como um fantasma

À procura desesperado

De materialidade.

Procuro nas lonjuras,

Em lugares escuros

Sem me encontrar.

A sombra,

Projectada pela imagem

Que os outros percebem

De mim.

Entre alegria,

Tristezas

Construo-me

De um talvez distante

Futuro.

           II

Nesse dia futuro,

Portanto outrem diferente,

Vislumbro, por entre a névoa,

O que gostaria de ser.

Leve,

Flutuando nas ideias,

Que agora me pesam

Como um fardo,

Ou como um castigo,

Da ousadia

De querer ser eu em verdade.

Nas palavras,

Nos actos,

Nas incertezas,

Quero ser eu

Agora no presente,

Que ainda não é futuro,

Me prende,

Qual maldição,

Ao passado,

Longa galeria de vitórias,

Derrotas,

De incertezas.

         III

No passado

Encontro-me bisonho,

Irritável,

Irritante,

Pesada herança

Do que sou,

Do que vivo.

De lá de trás

Vem uma mágoa

Por cada segundo morto.

O ontem

Mistura-se com o hoje

Baralha-me o amanhã

E no espelho dos outros

Vejo-me fantasma.

Mas um mérito tem

É a imagem que eu,

Com loucura,

Ou com lucidez enviesada,

Pari.

Zé Onofre

         21

 10/01/975

                        I

 Por caminhos,

Velhos,

Ou novos,

Ou por inventar,

Tento viver a vida

Que agora será nova.

Se não for perdida,

As pessoas ladrar-ma-ão 

Mas vivê-la-ei

Longamente

Conforme quero

E não segundo padrões convencionais.

Hei-de vivê-la

Porque minha

E eu próprio a construo.

Que me importa que a ladrem?

Que a ladrem,

Que a achem risível,

Vou vivê-la.

Vou construí-la

De acordo com os meus projectos,

Apesar dos vossos cochichos

Que já fazem parte da minha vida,

Já me são essenciais.

Sois vós que me dais alento.

Em cada risada,

Em cada dentada 

Confirmais que é este o meu caminho.

Se o olhais com desdém

É porque é meu

E não é vosso,

E não tendes coragem de criar o vosso.

                          II

Um caminho,

Caminho velho,

Novo caminho,

Delineio-o como quero,

Vivo-o com o meu sangue,

Com lágrimas,

Com esforço,

Com alegrias.

Dizeis que é um erro.

O erro não existe,

São os marcos da caminhada,

Que apontam em frente.

Só um caminho,

Por muitos calcorreado,

Dispensa os erros,

Mas rouba a alegria

De o fazermos com a nossa vida

De o moldar com as nossas mãos.

Reconhecer o erro

Não é arrependimento,

É viver a vida

E saber que se vive.

E vós sabeis que viveis?

No dia que entrar pelo vosso caminho

Então ride perdidamente.

O louco morreu.

       Zé Onofre

 

 

 

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