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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

23
Abr22

Por aqui e por ali 102

Zé Onofre

              102

 

sd

 

O céu e o vento,

Formas torcidas,

Revolta nuvem correndo veloz

Estar só, sem nada à volta.

 

Ouvir na sala em silêncio

A chuva que lá fora cai.

Ouvir o canto do vento

Que apressado canta e se vai.

 

Cheirar a terra molhada,

A folhagem que a terra destrói,

Sentir o calor das castanhas

Que queimam as mãos, mas não dói.

 

São cores mil que inebriam

Do verde austero do pinhal

Ao cinzento fugidio das nuvens

São regressos ao pecado original.

Zé Onofre

07
Set21

Penafiel 14-15-16-17

Zé Onofre

                 14

17/04/976

Morte à morte,

Morra o sonho

Que cria ilusões.

Morra a vida

Que cria sonhos.

Morra a Terra,

Morra!

Viva,

A vida livre

Liberta

De sonhos

Ilusões.

Viva o sonho,

Sempre!

                 15

05/05/976

Ó alegria

De ser

Se.

Ó dor

De se

Ser

                 16

06/05/976

Em qualquer canto,

Em qualquer esquina,

Em qualquer rua,

Em qualquer mar,

Se se souber olhar

Os homens sem serem sombras,

As ilusões

Sem serem pedras.

                 17

07/05/976

Se!

Há tantos ses

Escondidos

Nos cantos

De cada um.

Se!

Tantos ses

Perdidos

Nos dias

Hoje

     Zé Onofre

10
Ago21

Souto 28

Zé Onofre

          28

 23/02/975

Queria ser vento

Correr o mundo.

Voar sobre campos de milho,

Enredar-me nos pinheiros,

Bailar com as folhas dos carvalhos,

Fazer o pino sobre os montes,

Ondular nas águas do rio,

E finalmente adormecer naquele remanso.

Ser vento,

Ouvir as dores dos poetas

Levá-las às folhas,

Levar a todo o lado

O canto das aves.

  Zé Onofre

05
Ago21

Souto 22

Zé Onofre

                  22

05/12/975

De Viagem

                       I

Se observares bem o postal

Concluirás que não há somente

Uma vista a perder-se longamente

De que a ponte é o centro por sinal.

 

Se acaso o teu olhar não for igual

Ao da atarefada e cansada gente,

Verás que os cabos são uma corrente

De muito esforço, dor, suor e sal.

 

Notarás ali naquela elegante ponte

Não há só ferro ordenado e cravado

Mas algo que desce por ela do monte

 

Até este lado do Tejo alargado.

Sob o tom vermelho se esconde,

Tinta e sangue bem misturado.

                        II

À espera

Neste canto de um café

A viver as pessoas em mim

E a ser vivido nelas,

Ou simplesmente ignorado.

Aqui neste canto, onde me escondo

Do ruído, dos gritos, do fumo e dos olhares,

Tento descobrir homens livres,

Encontro servidão.

Ali,

Naquelas paredes invadidas por cartazes.

Na imprensa escrita

Onde o pensamento se materializa

Em palavras livres,

E não canal de ressonância

Das palavras dos outros.

Aqui,

Neste canto do café

Onde continuo à espera,

Ser anónimo e sem importância,

Talvez ignorado de todos,

Ouço falar de mim.

Não de mim propriamente,

Mas daquele ser genérico e generalizado,

Nas bocas desconhecidas que me desenham,

No grito vermelho das palavras

Que escorrem pelas paredes.

Aqui,

Nesta periférica Lisboa

Onde a vida se faz,

Em ritmos monotonamente cadenciados.

Dia, após dia, após dia ainda,

Presos a uma roda que oprime

A que se chama progresso,

A que se chama civilização.

Aqui,

Onde espero encolhido neste canto,

Tentando perceber os outros,

Os seus pensamentos,

As suas esperanças,

Através dos seus gestos,

Das suas palavras.

Distraído que sou

Deixo-os escapar por entre os dedos.

     Zé Onofre

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