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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

01
Jan23

Dia de hoje 86 - Canto triste XV

Zé Onofre

                 86

023/01/01

Mais um ano se passou,

Neste cemitério retangular,

Onde nenhum fantasma se levantou,

Onde nenhum fantasma ousou cantar

A injustiça terrível que os sepulta

Com mentiras doces e nossa culpa.

 

Um novo ano vai começar

Neste cemitério florido

Onde os mortos-vivos vão chorar

O seu futuro há muito perdido.

Não se ouve uma única voz

A chamar à luta todos nós.

 

Um novo ano que se levanta,

Neste cemitério à beira-mar.

Feliz ano novo, a rua canta,

Como se tudo caísse do ar.

Nós, os morto-vivos, levianamente 

Festejamos como criança inocente.

   Zé Onofre

 

 

15
Fev22

Por aqui e por ali 57

Zé Onofre

                   57

 

989/06/22

              I

Assumamo-nos

Hipócritas do futuro

Cínicos do presente.

 

Assumamo-nos!

 

Sejamos o que somos

Ignorantes

(e ignorados)

Atores de uma peça

Por escrever.

 

Assumamo-nos!

 

Flores mortas

No cemitério da pedagogia

E não seres em crescimento

Nos jardins da vida.

                  II

Violência,

É o sonho nos bairros de lata.

Não são os bairros de lata.

 

Violência

É sonhar com dias melhores.

Não são os dias maus.

 

Violência

É sonhar com o impossível

Quando o possível está por fazer.

  Zé Onofre