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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

01
Dez22

Dia de Hoje 77 - Canto triste XIII

Zé Onofre

77

 

Canto triste XIII

 

022/11/28

 

Andaremos nas ruas novamente

De olhos sorridentes, cara lavada,

De cabeça livre, mente libertada

Da dúvida que atormenta a gente.

    

Será que nos iludimos com a luz,

Que de repente apagou a escuridão,

Cadeado que nos prendia ao chão,

E vimos ali a redenção da cruz?

 

Afinal iludimo-nos e não pouco,

A revolução há tanto querida,

Acabava morta numa flor erguida

No cano de uma arma por um louco.

      

Banalizaram as nossas canções,

Repetiram-nas como divertimento

Retiraram-lhes todo o fermento

Que cantariam novas revoluções.

 

Os jovens, agora, já não usam a rua

Como o faziam seus pais, tios e avós

Convivem nas tecnologias estando sós.

Desconhecem o poder de conspirar à lua.

 

É pedir muito que as praças novamente

Se encham de revoltas canções de futuro

Que evitem que este se torne no duro

Passado dos ditadores de antigamente?

 

Partilhemos as ruas novamente

Com canções da revolução adiada,

Que tem de ser do chão levantada.

Cantemos, de novo, que a luta é urgente.

   Zé Onofre

 

27
Nov22

Dia de hoje 76 - Natal

Zé Onofre

               76

 

Natal

 

022/11/20

 

O Natal está a chegar.

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar do mar imenso e bravo da pobreza,

Causada pela ganância do lucro, da acumulação,    

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos rios de água que correm pela mesa

Dos que à volta dela se sentam e não têm pão   

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar das crianças que sofrem a dureza

De viverem sem telhado e a incerteza de um chão,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Do “canto dos anjos” na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar das guerras geridas pela avareza

Dos que só vivem tendo tudo na sua mão,   

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Dos pastores ajoelhados na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar da velhice rejeitada com crueza, 

Abandonada em casas, ou lares de ostentação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia dos Magos na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar da ensanguentada riqueza

Que estropia, fere, mata escondendo a mão, 

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia da Estrela sobre a gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos que mergulhados na tristeza

E não sabem que o seu suor é o ouro do patrão,    

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos males feitos à Natureza

Por quem se julga dono de toda a criação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem.

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Não falarei dos que vendem, com baixeza, 

O mistério que anunciava uma nova estação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

06
Jul21

Souto 7

Zé Onofre

7

11/07/972

                   I

Que é feito do meu poema?

(Do poema que sonhei,

Só mesmo sonhado poderia ser meu.)

Poema tão lindo,

Tão gritantemente lindo.

Lancinante

De ódio,

De morte,

De azar,

De loucura.

Que é do sonho

Do poema do sonho

Que sonhei

No meio da febre,

Breve sonho.

                    II

Perdido.

Perdido de quem?

Perdido do quê?

Perdido desde quando?

Perdido onde?

Perdido para quê?

Perdido,

Perdido de mim mesmo.

Tudo me foi roubado.

(Mas quê,

Se nada sou,

Se nada tenho.

Até mesmo o poema

Nascido num sonho de febre

Não é meu.)

                      III

Vestido de lágrimas,

Uma a uma caídas

Lenta, lentamente,

Mais lentas,

Que o passar lento dos segundos

(Segundos ou anos?)

Tudo lento,

Como um relógio parado

E sou eu esse relógio.

                IV

As lágrimas caídas,

Ping Ping Ping

Gotas de um teto calcário

Esculturando estalactites,

Seres fantasmagóricos,

Viventes no fundo de grutas,

Nuas e frias.

Grutas que as lágrimas

Caindo uma a uma, 

Dos meus olhos solitários,

Criam no fundo de mim

Onde me escondo.

                 V

As minhas lágrimas

Tristes,

Somente lágrimas

De um perdido,

Há tantos anos perdidos,

Sem encontrar

Seja o que for,

Que nem eu sei o que procuro.

                   VI

As lágrimas

Uma a uma caídas,

Caindo há tanto tempo,

Despedem-se de mim,

Correndo pelo chão,

Até um largo lago,

Um mar

De ondas revoltas,

Batendo nas rochas negras,

Cobertas de algas,

Escorrendo espumas

De sal,

De solidão. 

                     VII

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos

De Olhares indefinidos,

Fixos

Num ponto para além de todos,

Para além das palavras,

Para além dos ecos do meu peito,

Das saudades que carrego,

Nem sei desde quando.

                      VIII

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos,

Palavras repetidas, sempre repetidas

Na longa caminhada do deserto

Em que me fiz.

Dúvida.

Incerteza.

Tristeza.

Perdido.

Desnorteado.

Ontem.

Amanhã.

Amor.

Caminho.

Paz.

Longe.

Dentro.

Desencanto.

Desiludido

Loucura.

                    IX

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos

Tristes,

Apagadas

Pelas curvas da vida.

Caídas,

Da longa bacia do meu olhar,

Lápide comemorativa

De cada morte que vivi,

Pela tortuosidade do ser.

Saídas do bosque

Sombrio

Dos meus pensamentos emaranhados

Que se atropelam

   Zé Onofre