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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

08
Out21

Penafiel 57

Zé Onofre

                 57

 

11/01/978

 

Ó criança

Perdida

Nos meandros de teias

Em que te metemos.

 

És

Lampejo gritado

Nos sons da noite.

 

És relâmpago

Deslumbrante

De sons em cântico.

 

És

Presente

Espraiado

Nas margens do futuro.

 

Canto-te

Cor florescida

No chão

Semeado de pedras.

 

Canto-te

Som sofrido

No pântano

Semeado de medo.

 

Canto-te

Bem alto

Alegria que te quero

Das minhas mãos.

 

Elevamos-te

Bem alto

Alegria das nossas mãos.

  Zé Onofre               

10
Set21

Penafiel 23

Zé Onofre

                 23

 14/07/977

Cinco,

Gosto de ti,

Ó cinco.

Gosto da tua forma,

Do teu som,

Da tua cor.

 

Gosto de dizer

Assim mansinho

- Cinco –

Aos ouvidos das pessoas.

 

Cinco

De ti dirão

Que és um

Algarismo,

Um número

Abstracto.

 

Cinco,

O número de carros

Que fulano tem.

O número de quilómetros

Que um operário caminha a pé

Pelo alto da madrugada.

 

Cinco,

O número de quartos de banho

Forrados a ouro

Que um palácio tem.

 

O número de pessoas

Que vivem num quarto

De um bairro operário.

 

Cinco, 

Os cinco mil contos

De lucro diário

De um patrão.

O cinco centos de escudos,

Salário mensal do operário.

 

Cinco,

As garrafas de Wiskhy,

De mil escudos a garrafa

Na garrafeira do senhor da Terra.

Cinco,

Os cinco tostões

Na algibeira do mendigo.

 

Cinco,

Cinco dias de exploração semanal,

A que o patrão chama

Semana de trabalho.