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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

28
Abr22

Por aqui e por ali 107

Zé Onofre

               127

 

__/07/__, Penafiel, festa de fim de curso do Magistério de Penafiel

 

Hoje estais em festa.

Pensais que chegastes ao fim

E apenas iniciais o caminho.

 

Amanhã tereis a alegria

Que construirdes.

E parece tão fácil construir a alegria.

 

Encontrareis o perigo

Em cada esquina.

A cada passo tropeçareis

Com o futuro sem saberdes.

Tentareis o equilíbrio e avançareis

Sem terdes coragem de o enfrentardes.

 

Se tiverdes ainda coragem de parar,

De atrás voltardes

E vos restar força para recomeçar,

A alegria será vossa

E em cada dia inaugurareis

Um novo caminho.

  Zé Onofre

13
Abr22

Por aqui e por ali 92

Zé Onofre

              92

 

996/02/12, encontro do SPN, CMA, Amarante

 

Está na hora

De olhar o horizonte

E descobrir mais além.

 

Está na hora

De deixarmos de ser comparsas activos

Na destruição do nosso melhor,

A Utopia.

 

Está na hora

De acabar com as negociações,

O futuro não se negoceia,

Cumpre-se

 

Está na hora

De mudar o rumo,

Não de remendar caminhos,

Que está visto não é o caminho.

 

Está na hora

De exigirmos mais e melhor.

De gritarmos bem alto –

Esta não é a escola que respeita os alunos.

Esta não é a escola que satisfaz os pais.

Esta não é a escola que dignifica os professores.

Esta não é a escola que constrói futuros.

Esta é a escola dos sonhos desperdiçados.

 

Está na hora

De edificarmos uma escola nova

E não de nos acomodarmos –

Em opiadas discussões de estatutos e escalões.

E não de negociar os escombros

Da escola que resta.

 

Está na hora

De pensar, escutar e olhar,

De não mais sermos tratados como regateiros

A discutir o preço do linguado.

 

Está na hora

De assumir a nossa dignidade.

Dignidade que não se conquista

Com discussões estéreis

Que nos roubam argumentos

E destroem o orgulho que ainda nos resta,

 

A dignidade conquista-se

Com a exigência de uma escola,

Crítica, experimental e não seguidista

Dos ditames de uma sociedade

Que tudo reduz ao sucesso dos cifrões,

E principalmente aos bens consumidos.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa da escola armazéns de matéria-prima

De meninos com que se fazem chouriços.

Os que não são perfeitos são excluídos

Lançados à máquina do lixo,

Farinha para engorda dos barões da droga.

 

A dignidade conquista-se

Exigindo-se condições

Onde cada um seja cada um

E não a redução ao tipo médio.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa das condições desumanas

De ritmos arbitrários que tudo reduzem

Ao Máximo Divisor Comum.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa da escola sardinha em lata.

Com a recusa da escola-cidade

Onde os professores não conhecem o vizinho do lado,

Quanto mais os habitantes da rua, os alunos.

 

A dignidade conquista-se

Exigindo uma escola que não mais seja

Quatro paredes recheadas de mobiliário

Do mais sofisticado que haja,

Ao mais antiquado e artesanal,

Quadro preto, giz e cuspe.

 

A dignidade conquista-se

Ajudando a construir uma escola,

Onde todos os que lá trabalham

Se despeçam “até amanhã”

Como quem espera o beijo da mãe,

O encontro ansiado com o amigo,

O abraço apertado dos enamorados,

Ou apenas a terra onde “corre o leite e o mel.”

 

A dignidade conquista-se

Vendo “claramente visto” que o rei vai nu.

 

A escola vai nua porque diz –

Sou para todos –

Mas só se o for na rejeição dos inadaptados.

 – Sou obrigatória durante nove anos –

E limita-se a burocratizar pessoas,

A reduzir a estatísticas os alunos.

 

Está na hora

De termos coragem de enfrentar os alunos,

Dizer-lhes, como quem pede perdão,

Tendes razão, abrimos os olhos tarde.

De termos coragem de enfrentar os pais,

Dizer-lhe como quem reconhece uma culpa,

Tendes razão em não confiardes totalmente na escola.

De termos coragem de enfrentar o ministro

E dizer-lhes com toda a clareza necessária,

Este não é o momento para esta discussão.

O problema está para além de estatutos.

O problema está para além das carreiras.

O problema está para além dos escalões.

O problema está para além de mais ou menos tostões.

 

Está na hora

De encararmos os alunos, olhos nos olhos,

E pedir perdão por cada vez que gritaram,

Como quem pede socorro, e nós os calamos.

E pedir-lhes perdão por cada vez que nos chamaram,

E altivamente nem para eles, olhamos.

Perdão por todas as vezes que se atravessaram,

De propósito nos nossos caminhos, e prosseguimos

Altivamente em frente e com a nossa pressa

Vos Arredámos não sabemos para onde.

 

Por favor,

Não mos julgueis com muita severidade.

Tal como vós chamamos e ninguém nos responde,

Apenas um eco repete e distorce até o infinito

O nosso repetido e sentido apelo.

Tal como vós nos sentimos esmagados e trucidados

Por esta escola cega, surda e muda.

 

Vamos então fazer um pacto –

Vamos ajudar-nos mutuamente.

Olhai para nós, não como carrascos,

Mas como amigos.

Olhai para nós, não como iluminados,

Mas tateantes a fazer o caminho.

Olhai para nós não como carcereiros,

Das vossas alegrias e angústias,

Mas como uma janela

Onde vos podeis debruçar

À procura do horizonte.

Olhai para nós

Como seres que entre o medo de errar,

E as certezas de não nos enganarmos,

Vivemos entre horrores e alegrias.

Finalmente, olhai para nós e vede

Que somos pessoas, apenas pessoas,

Como todas as pessoas sujeitas a erro.

 

Pais, também convosco, queremos fazer um pacto.

Antes, porém, julgai-nos com benevolência.

É certo que nem sempre nos entendemos,

E ajudemo-nos na jornada dos vossos filhos.

Ajudai os vossos filhos a descobrir a felicidade

Da descoberta e da conquista.

Não tenhais pressa que os vossos filhos

Tenham tudo, deixai algo, o mais importante,

Para ser a conquista deles.

Deixai que sejam eles a chegar mais longe,

Nem que apenas o mais longe seja ali,

Sim, ali no fim da rua, ao virar da esquina.

 

Senhor ministro,

Por agora prometemos exigir, apenas, esta escola.

 – Pequena,

Onde todos se conheçam pelo nome próprio,

E não pelo terror do quinto E,

Ou pelo filho do João da Esquina,

Ou a s’tora, a fera da matemática.

– Espaçosa,

Onde cada um tenha direito à sua privacidade,

Não se sentir invadido pelos outros.

 – Rica,

Em espaços diferenciados,

Em actividades alternativas,

Que proporcionem a cada um

A realização do ser humano

Em busca da felicidade.

– Exigente

Na crítica e autocrítica,

Nos comportamentos e atitudes,

De cada uma das pessoas que lhe dão corpo.

 

Depois, então, falaremos de remunerações. 

Zé Onofre

15
Mar22

Por aqui e por ali 69

Zé Onofre

              69

 

990/11/21

                      

         I

 

Caminho na cidade

À procura de sonhos e ilusões.

Caminho na cidade

À procura de ser seduzido.

Percorro clandestino

Silêncios impensáveis.

Procuro autómato

Nada.

Olho infinitamente o longe

Como quem espera uma sedução.

Ser seduzido

Perseguido pelo olhar de alguém.

Saber

Que, de dentro da desconhecida multidão,

Um-alguém repara nesta sombra

Que devagar olha o longe

Sem nada ver,

Que apenas espera o milagre

De uma palavra desconhecida e inesperada,

Que o traga, de uma vez só,

Do infinitamente ausente

Para o finitamente aqui,

De um tempo-lugar,

De apenas uma carícia

Que não se implorou.

Lembro-me, então,

Daquele ano em que as mãos inconscientes 

Os longos cabelos afagavam

Em longa ausência.

À espera caminho na cidade,

Sem ver, sem sentir,

Apenas ansiosamente à escuta

De um “abre-te sésamo”

Que me traga do longe para onde viajei,

Aqui ao presente de um carinho inesperado.

Como gostaria que, de repente,

Uma voz desconhecida e terna

Me parasse na rua, onde invisível caminho,

E me trouxesse do lá onde não estou

Para o cá onde ando perdido.

Como gostaria de um olhar,

Mesmo que fosse fugidio o olhar,

Me percorresse o corpo como labareda,

Que num instante se apaga.

Como seria bom

Um olhar líquido de ternura,

Surgido de um canto, de uma esquina, da multidão,

Me envolvesse num mar de carícias

Sem sentido, nem medida.

 

                      II

 

No entanto continuo a apreciar

O verde-próximo,

O azul-longe dos horizontes,

Como quem se lava

Da melancolia há muito sofrida.

Como engano com o meu ar distante,

O meu discurso de certezas feito,

- Dúvidas muito bem estudadas –

Apenas defesas conscientemente premeditadas,

Para bem envernizar a superfície

Quando o âmago se rasga

Com gumes de revolta.

Como engano,

Com o ar aparentemente sonhador.

Como engano

Com o calmo olhar de satisfação atingida.

Tudo.

Podem-me dizer tudo,

Que permanecerei calmo, sereno.

Talvez,

Alguém mais atento perceba uma leve sombra

Que mancha o meu olhar.

Tudo,

Pode-se-me dizer tudo

Que calmamente, como quem toma um doce licor,

Emborcarei

Apenas queria ter coragem para gritar

- Basta.

Dizer bem alto

Também tenho sentimentos,

Também sofro.

Calmamente

Continuo o meu viver quotidiano

De idas e vindas automatizadas.

Quando o que me apetece é desnudar-me

Na praça.

Mostrar o meu ser sedento de carinhos,

De mimos e de ternura.

Estar nu na praça onde cada um escreva,

Cruamente, na pele exposta,

O que de mim, sinceramente, pensa.

Que também com a minha nudez provocante

Ser gume afiado e mostrar as hipocrisias de cada um.

No entanto continuo pudicamente vestido,

A tentar e a conseguir esconder

As mágoas que me formam o ser.

Continuo com ar estudadamente distraído

A afastar os outros vestindo-me de silêncios,

Ensurdecedores silêncios.

Emudeço dia-a-dia a minha necessidade

De carícias concretizadas, não apenas sonhadas.

 

III

 

De silêncio me vesti.

De palavras me enfeitei.

De tudo quanto disse

Tudo, no fundo, calei.

 

Falei do céu azul,

Do verde dos montes,

Das ondas do mar,

Do vento calmo,

Das tardes de Verão.

 

Falei de sofrimentos sociais,

Das feridas na minha pele

Feitas no rastejar lento dos dias.

 

Falei de belos sol-poente,

Das frescas manhãs da aurora

Da chuva fria e calmante do Inverno,

De primaveras claras a florir.

 

Falei de crianças felizes nos jardins,

Das mães orgulhosas que as seguem,

Ou que com apreensão as olham

Esperando a vinda de melhores dias.

 

Falei de pertos e de longes,

De rios serenos ao entardecer.

De ondas revoltas acesas

Em noites espantosas de tempestades.

 

Falei das mulheres, flores solitárias,

Feitas prisioneiras em jarras de estimação,

Subtilmente colocadas em envidraçadas janelas

Para que, a outras mais atrevidas, sirvam de lição.

 

Falei longamente

Dos meus dias rotineiros,

Dos meus passos atinados

Dados em caminhos certinhos.

 

Falei do meu vagabundear

Pelas ruas solitárias da cidade

Da minha longa e inútil espera

Da carícia de uma voz,

Do gesto de um olhar.

      Zé Onofre