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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

25
Jan22

Por aqui e por ali 46

Zé Onofre

                46

 

988/__/__, Escola de Portela, Aboim AMT

 

Chegaram os palhaços

Pintinhas,

Rosca Mole

Cantaram,

Foram proibidos.

Riram,

Foram proibidos.

As crianças riram.

Chegaram os palhaços

Fizeram rir

Por terem piada,

Ou deles,

Mas cumpriram,

Fizeram rir.

 

E o Pintinhas.

É palhaço,

Ou é criança?

Pintinhas faz-tudo,

Faz rir,

É palhaço.

Arruma,

É arrumador.

Vende,

É vendedor.

Estica o prato…

 

Os palhaços

Vieram

Para as crianças, Pintinhas.

Só não vieram para ti.

Zé Onofre

29
Dez21

Por aqui e por ali 31

Zé Onofre

               31

 

986/01/06, confeitaria Mário, Amarante

 

Enquanto o manto cinzento

Cobre o tempo.

Enquanto as árvores nuas

Despem a terra

Vou dizendo

A minha angústia de saudades de criança.

 

Enquanto o cinzento

Cobre o arco-íris do Verão.

Enquanto as árvores nuas

Sonham a Primavera,

Construo sonhos ao entardecer.

       Zé Onofre

06
Dez21

Por aqui e ali 12

Zé Onofre

                   12, em uma acção de formação

 

982/04/01

 

  1. Relação entre comunicação oral/comunicação escrita e vice-versa.

.a) A comunicação oral não se ensina, adquire-se.

.b) Por quê ensinar a comunicação escrita?

.c) Não será que o aluno aprende, aprendendo?

 

  1. Como é difícil ser professor!

.a) É, não é?

.b) Pois é.

 

“Que bom que seria”

 

A criança chega,

Fala, fala.

Que bom que seria.

 

Que bom que seria

Se falasse, falasse

E fosse ouvida.

 

Se fosse ouvida

A sua fala fosse escrita

Que bom que seria.

 

Que bom que seria

A criança aprender

E o professor também.

 

E o professor também

Que “quilhar” é “bater”

E o “ch” também se diz “tch”.

 

O “ch” também se diz “tch”.

Tanto para se aprender

Com uma criança a falar.

  Zé Onofre

 

 

 

 

13
Nov21

Por aqui e por ali 6

Zé Onofre

                 6

 

1981/02/23, Gouveia – MCN

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se fazem os sonhos.

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se constroem mundos novos.

 

 Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se enfurece o mar.

 

Dizei-me, nem que seja em murmúrios,

A vida serena

Do sol a cantar.

 

Dizei-me por favor,

A poesia de uma noite,

Mesmo que não tenha luar, nem estrelas,

Que seja só de sombras e trevas.

 

Gritai-mas,

Dizei-mas,

Vós as sabeis.

 

Um dia não veio à escola,

Ficou em casa

A fazer bagaço.

Quem me disse que ele era criança?

 

No primeiro dia de aulas

Não veio à escola,

Ficou em casa a trabalhar.

Com que direito o avaliaremos negativamente?

 

Queria ter um laço vermelho,

Grito de alegria

Na cabeça a sorrir.

 

Queria usar palavras sinceras,

Gritos de luz

Na boca a sorrir.

 

Queria ter palavras misteriosas,

Sons e cores da vida a começar.

Zé Onofre

22
Out21

Penafiel 67

Zé Onofre

                67

 

03/04/978

 

  • A criança tem prazer em escrever se quem a lê tem prazer na sua leitura.
  • Não se pretende passar da matemática da alienação para a alienação da matemática. Pretende-se “construir” uma matemática que seja o reflexo das relações quantitativas entre  os objectos e as pessoas.
  • Generalizar o conceito de número é saber que uma determinada fórmula – 6+5 – traduz situações concretas de vida as mais variadas.
  • Uma actividade interessante será criar uma “história” à volta de uma determinada fórmula – 2x7.
  • Jogar o número “quantidade” com o símbolo “qualidade”. 
  • De mãos dadas

        Vão na procissão

         Muito alinhadas

        Passo certo ou não.

 

      Vai o filho mais velho 

      Com a sua bandeira -----------------1

      A abrir a procissão

       De uma certa maneira

 

A servirem-lhe de pajens

Duas manas donairosas

Com a sua bandeira -------------------2

Coroada com duas rosas.

 

Logo atrás vêm

Três palhaços aos tropeções.

Com a sua original bandeira -----------3

Fazem rir as multidões.

 

Cinco solteirões mal

Encarados, rezingões,

Com a sua bandeira ---------------------5

Levam tudo aos empurrões.

 

Cuidado, muito cuidado,

Gritaram quatro criancinhas

Levantando a sua bandeira. -------------4

Não gostaram das gracinhas.

 

Muito tristes,

Muito zangadas,

Saem da procissão

De caras levantadas.

       Zé Onofre

 

09
Out21

Penafiel 58

Zé Onofre

                  58

 

17/01/978

 

Para ti,

Pequena cigana,

De gelado na boca

Com uma criança ao colo,

O meu obrigado.

 

O meu obrigado

Pela luz das coisas que me dás.

 

O meu obrigado,

Pela fúria

Que me percorre.

 

Obrigado

Pelo desprezo

Com que me olhas.

 

Obrigado.

   Zé Onofre

08
Out21

Penafiel 57

Zé Onofre

                 57

 

11/01/978

 

Ó criança

Perdida

Nos meandros de teias

Em que te metemos.

 

És

Lampejo gritado

Nos sons da noite.

 

És relâmpago

Deslumbrante

De sons em cântico.

 

És

Presente

Espraiado

Nas margens do futuro.

 

Canto-te

Cor florescida

No chão

Semeado de pedras.

 

Canto-te

Som sofrido

No pântano

Semeado de medo.

 

Canto-te

Bem alto

Alegria que te quero

Das minhas mãos.

 

Elevamos-te

Bem alto

Alegria das nossas mãos.

  Zé Onofre               

05
Out21

Penafiel 54

Zé Onofre

                 54

 

09/01/978

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te

Ó mulher prostituída

Dos verdes anos sem viço.

 

Aproxima-te

Ó velho reformado

Dos bancos do jardim.

 

Aproxima-te

Ó criança trapo

Do bairro de lata.

 

Aproximai-vos e gritai.

Grita,

Mulher prostituída

O teu sexo frio.

 

Grita,

Velho reformado,

Os teus anos gastos

De miséria pura.

 

Grita,

Criança,

A tua fome milenar.

 

Vinde,

Saí da penumbra.

 

Sai,

Mulher prostituída,

Da sombra do teu viver obscuro.

 

Sai,

Velho reformado,

Do banco gasto do jardim público.

 

Sai,

Criança trapo,

Dos farrapos do teu já cansado viver.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Senhora dona Fulana

Dos salões de chá,

Dos bailes de Caridade.

 

Aproxima-te,

Velho ricaço,

Ajoelhado (em cuecas)

Em frente à jovem criada.

 

Aproxima-te

Criança farta, birrenta e aborrecida,

Abonecada pelos caprichos da Mamã.

 

Grita,

Senhora dona Fulana,

A tua inutilidade

Feita caridade em tempos de Natal.

 

Grita,

Velho Ricaço,

O teu moralismo em discursos de altar.

 

Grita,

Criança aborrecidamente farta,

A meninice mimada com a pobreza de outros.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Ó mulher domesticada,

Mãe dos teus filhos.

 

Aproxima-te,

Ó homem libertino,

Corno e corneador dos teus amigos.

 

Aproxima-te,

Ó criança maltratada,

Filha do acaso ou das conveniências.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher domesticada,

A tua vida roubada.

 

Grita,

Ó homem libertino,

Os teus cornos florescidos.

 

Grita,

Ó criança maltratada,

A tua inocência pura.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

 

 

Aproxima-te,

Ó mulher operária,

Construtora e transformadora da vida.

 

Aproxima-te,

Ó homem operário,

Construtor e transformador da vida.

 

Aproxima-te,

Ó criança,

Nascida do amor,

Doado e criado mão na mão.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher operária,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó homem operário,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó criança nascida da alegria,

A felicidade de seres filha do amor.