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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

02
Out21

Penafiel 50

Zé Onofre

50

 

30/11/977

 

Natal

Natal.
Que palavra mágica
De enganar com ternura.
Há negociantes
Vendedores de Natal a metro.
Há velhos,
Roucos de silêncios
Nos bancos do jardim.
Há bairros de miséria,
Emparedados
Nas cercanias da opulência.
Há chuva,
Há vento,
Há sol,
Contratempo.
Há neve,
Algodão branco,
Nas montras.
Há casas de penhores
Em esquinas
De ruas esquecidas.
Vê-se lá,
A miséria do povo
À venda, nos mostruários,
As ilusões
Por uns míseros tostões.
Há casas decoradas
Com vermelhos,
Sangue,
Grito abafado
Nos corações,
De quem corre atrás do impossível.
Trabalhadores "apressadas"
Crianças, olhos arregalados
Bocas salivando,
Junto à montra das ilusões.
Há casas coloridas,
Cores arrancadas
À fome do dia a dia
De quem envergonhado,
Vai escondendo a fome que os alimenta.
Há risos,
Sorrisos,
Nas faces.
Há passos
apressados
Nas pedras dos caminhos
Há fúrias incontidas
No fundo das cores.
Há angústia,
Há raiva.
Há gente apressada
Levando amor,
Levando a paz,
Em embrulhos coloridos
Até às casas dos esquecidos da vida.
Bem sei,
É Natal...
Não deveria dizer,
Não deveria contar,
Não deveria expor
A realidade crua do outro lado do Natal.
Deveria guardá-la
No segredo
Do silêncio
Das grades dos sonhos perfumados,
Dos salões
Onde se projecta «este» Natal.

E, contudo,
Um dia fui criança.
Gostava de ir ao musgo,
À relva,
Aos galhos de árvores.
Gostava do presépio
No cantinho da sala,
De me levantar no Dia de manhã
Encontrar lá
Algum rebuçado deixado
Pelo Menino Jesus.
Gostava do presépio
Junto ao altar da Igreja
Que ajudara a fazer.
Gostava da noite "do par ou pernão",
No fim da Ceia,
À volta da lareira.
Gostava das brincadeiras
No largo da Igreja
À espera da Missa do Galo.
(Se me é permitido
Tenho saudades, mas muitas,
Desse Natal.)
Tenho saudades daquele Natal
Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade
- O Natal é comer!
(Por que caminhos te achaste,
Rosário?)
O que aconteceu ao "eu" rapazinho
Que tenho saudades
Das pinhas assadas no braseiro,
Do musgo fofo do monte,
Das brincadeiras na noite mágica
Da Missa do Galo,
Para agora olhar,
As gentes e as ruas,
As montras com neve de algodão,
As casas tremelicantes de luzes,
E sem ânimo,
Entre a saudade e o desespero,
Dizer
"Bem sei
É Natal.

  Zé Onofre

09
Set21

Penafiel 21-22

Zé Onofre

 

                 21

 07/06/976

 Um chapéu,

Só isso?

Mais alguma coisa!

Pensa!

                 22

08/06/976

Um mercado,

Frutas

E peixe.

Uma igreja fechada,

Três colegas,

Mais dois,

Mais quatro.

Assembleia Penafidelense,

Gente nos passeios,

Sentada,

De pé,

A andar.

Uma estátua,

Um vendedor

E crianças,

Um homem num canteiro,

Um lago com peixes,

Cadeiras amontoadas.

 

Que importam as cores

Nos dias cinzentos?

Que importa a forma

Nos dias nevoentos?

Que importa o pormenor

No todo invadido

De sanguessugas

E traições?

  Zé Onofre

18
Ago21

Comentário 38 (NOS DIAS QUE PENSÁVAMOS SEREM ETERNOS)

Zé Onofre

                38

                 I

                2

        Reis, 1974

Viemos por caminhos velhos

Como manda a lei antiga,

Mas são novos os desejos

Que trata a nossa cantiga.

 

Um novo ano a nascer,

Nós vimos há poucos dias.

Que a vontade e o querer

O façam em muitas alegrias.

 

Contam-se pelos dedos

Os dias que o ano tem

De alegrias. Sem medos

Sejam os outros também.

 

Em cada dia que ele tiver,

Cada um com seu rosto,

Traga ele o que trouxer

Seja bem ao vosso gosto.

 

Não podendo os desejos,

De cada um adivinhar,

Queremos benfazejos

Os dias a caminhar.

 

Cada ano, novas esperanças,

Cada mês, novas alegrias,

Sejam as horas crianças

A alegrar os vossos dias.

     Zé Onofre

01
Jul21

...

Zé Onofre

Bem sei é Natal

Natal, cada um tem o seu Natal.

Que palavra mágica

De enganar com ternura.

Há negociantes

Vendedores de Natal a metro.

Há velhos,

Roucos de silêncios

Nos bancos do jardim.

Há bairros de miséria,

Emparedados

Nas cercanias da opulência.

Há chuva,

Há vento,

Há sol,

Contratempo.

Há neve,

Algodão branco,

Nas montras.

Há casas de penhores

Em esquinas

De ruas esquecidas.

Vê-se lá,

A miséria do povo

À venda, nos mostruários,

As ilusões

Por uns míseros tostões.

Há casas decoradas

Com vermelhos,

Sangue,

Grito abafado

Nos corações,

De quem corre atrás do impossível.

Trabalhadores/ apressadas 

Crianças, olhos arregalados

Bocas salivando,

Junto à montra das ilusões.

Há casas coloridas,

Cores arrancadas

À fome do dia a dia

De quem envergonhado,

Vai escondendo a fome que os alimenta.

Há risos,

Sorrisos,

Nas faces.

Há passos apressados

Nas pedras dos caminhos

Há fúrias incontidas

No fundo das cores.

Há angústia,

Há raiva.

Há gente apressada

Levando amor,

Levando a paz,

Em embrulhos coloridos

Até às casas dos esquecidos da vida.

Bem sei,

É Natal...

Não deveria dizer,

Não deveria contar,

Não deveria expor

A realidade crua do outro lado do Natal.

Deveria guardá-la

No segredo

Do silêncio

Das grades dos sonhos perfumados,

Dos salões

Onde se projecta «este» Natal.

Contudo,

Um dia fui criança.

Gostava de ir ao musgo,

À relva,

Aos galhos de árvores.

Gostava do presépio

No cantinho da sala,

De me levantar no dia de Natal 

Encontrar lá

Algum rebuçado deixado

Pelo Menino Jesus.

Gostava do presépio

Junto ao altar da Igreja

Que ajudara a fazer.

Gostava da noite "do par ou pernão",

No fim da Ceia,

À volta da lareira.

Gostava das brincadeiras

No largo da Igreja

À espera da Missa do Galo.

Se me é permitido

Tenho saudades, mas muitas,

Desse Natal.

Tenho saudades daquele Natal

Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade

- O Natal é comer!

(Por que caminhos te achaste,Rosário?)

O que aconteceu ao "eu" rapazinho

Que tenho saudades

Das pinhas assadas no braseiro,

Do musgo fofo do monte,

Das brincadeiras na noite mágica

Da Missa do Galo,

Para agora olhar,

As gentes e as ruas,

As montras com neve de algodão,

As casas tremelicantes de luzes,

E sem ânimo,

Entre a saudade e o desespero,

Dizer

"Bem sei

É Natal.

Zé Onofre

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