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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

01
Out21

Penafiel 48-49

Zé Onofre

                   48

 

25/11/977

 

Hoje está um dia incaracteristico.

Será que um dia incaracterístico

Tem características?

As características

Dos dias incaracterísticas

É não terem características.

 

                 49

 

29/11/977

 

As pedras.

As palavras.

As pedras calam silêncios.

As palavras calam sulcos,

Cavam rotas,

Rios,

Riachos

Nas pedras caladas

De silêncios.

O silêncio,

Grito abafado,

Dorido,

Pleno de emoções.

As palavras,

Pedras lançadas

Ao silêncio

Granítico

Dos outros.

Os outros,

Pedras gigantes,

Gritos,

Uivos,

Raiva lancinante,

Á espera,

À espreita

De um “Abre-te Sésamo”

- Cheio de alegria,

Ou de dor -

Mas que abra,

Em cada silêncio

Um rio,

Um mar

De Palavras por nascer.

 

Há silêncios nas minhas mãos.

Há gritos incontidos nas palavras

Soltas uma a uma,

Folhas outonais

De Novembro a acabar.

Há raiva nos meus dentes.

Há fúria da razão por vencer.

Há ira ensanguentada

No estilete

Da palavra.

Há sentidos

Caídos ao amanhecer.

 

Hoje queria fugir

Dos sons,

Malditas cores

Que me trespassam

Como espadas.

Hoje queria fugir

Para a selva maldita

Dos caminhos por achar.

Hoje queria fugir

- Apenas cair,

Não me levantar -

Rastejar insensível

Pelas pedras geladas

Em silêncios gratuitos.

        Zé Onofre

07
Set21

Penafiel 14-15-16-17

Zé Onofre

                 14

17/04/976

Morte à morte,

Morra o sonho

Que cria ilusões.

Morra a vida

Que cria sonhos.

Morra a Terra,

Morra!

Viva,

A vida livre

Liberta

De sonhos

Ilusões.

Viva o sonho,

Sempre!

                 15

05/05/976

Ó alegria

De ser

Se.

Ó dor

De se

Ser

                 16

06/05/976

Em qualquer canto,

Em qualquer esquina,

Em qualquer rua,

Em qualquer mar,

Se se souber olhar

Os homens sem serem sombras,

As ilusões

Sem serem pedras.

                 17

07/05/976

Se!

Há tantos ses

Escondidos

Nos cantos

De cada um.

Se!

Tantos ses

Perdidos

Nos dias

Hoje

     Zé Onofre

05
Ago21

Souto 22

Zé Onofre

                  22

05/12/975

De Viagem

                       I

Se observares bem o postal

Concluirás que não há somente

Uma vista a perder-se longamente

De que a ponte é o centro por sinal.

 

Se acaso o teu olhar não for igual

Ao da atarefada e cansada gente,

Verás que os cabos são uma corrente

De muito esforço, dor, suor e sal.

 

Notarás ali naquela elegante ponte

Não há só ferro ordenado e cravado

Mas algo que desce por ela do monte

 

Até este lado do Tejo alargado.

Sob o tom vermelho se esconde,

Tinta e sangue bem misturado.

                        II

À espera

Neste canto de um café

A viver as pessoas em mim

E a ser vivido nelas,

Ou simplesmente ignorado.

Aqui neste canto, onde me escondo

Do ruído, dos gritos, do fumo e dos olhares,

Tento descobrir homens livres,

Encontro servidão.

Ali,

Naquelas paredes invadidas por cartazes.

Na imprensa escrita

Onde o pensamento se materializa

Em palavras livres,

E não canal de ressonância

Das palavras dos outros.

Aqui,

Neste canto do café

Onde continuo à espera,

Ser anónimo e sem importância,

Talvez ignorado de todos,

Ouço falar de mim.

Não de mim propriamente,

Mas daquele ser genérico e generalizado,

Nas bocas desconhecidas que me desenham,

No grito vermelho das palavras

Que escorrem pelas paredes.

Aqui,

Nesta periférica Lisboa

Onde a vida se faz,

Em ritmos monotonamente cadenciados.

Dia, após dia, após dia ainda,

Presos a uma roda que oprime

A que se chama progresso,

A que se chama civilização.

Aqui,

Onde espero encolhido neste canto,

Tentando perceber os outros,

Os seus pensamentos,

As suas esperanças,

Através dos seus gestos,

Das suas palavras.

Distraído que sou

Deixo-os escapar por entre os dedos.

     Zé Onofre

02
Ago21

Souto 18

Zé Onofre

               18

 05/12/974

              I

 Sinto uma dor insofrida,

Vaga,

Em parte incerta de mim.

A inconsciência,

Tortura iminente

Que nasce e vive,

Se prolonga e morre,

Em algum lugar de mim.

Todos os dias

Esta loucura perdida

Ressurge

De dias estropiados,

De factos esquecidos,

Ou de desvios da vida.

Esta tortura certa

Que me atravessa cada dia

Vinda da incerteza

De saber se alguma vez

Haverá a ressurreição da esperança,

Haverá um nascer novo

De um dia diferente dos ontens,

De um eu diferente de todos os passados.

                      II

São horas

Muitas ou poucas,

Loucas ou curtas,

Impensadas,

Vividas ao acaso

Em ruas que desconheço,

Mas conhecidas de alguém.

                    III

Imaginação fértil

Rica em derrotas

Rica em vitórias.

Já nem distingo

Derrotas de vitórias,

Ou se as invento.

Se acontecem e se sucedem

Ou apenas vivem só em mim.

                        IV

Vivo na corda bamba

Num desequilíbrio impossível,

Dinâmico, constante,

Resultante da luta

Entre a realidade frustrante

E a imaginação galopante.

De um pensamento morto,

Ou de uma realidade moribunda.

     Zé Onofre

 

 

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