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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

02
Fev23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - O tio brasileiro

Zé Onofre

O tio do Brasil

 O TIO DO BRASIL.jpg

 

Às vezes o Toninho,

Pai dos meus amigos

De brincadeira e asneira,

Falava do irmão que partira,

Jovem, para terra brasileira.

 

Um dia, há hora do jantar,

Ou talvez da ceia,

Um vulto à porta parou.

À luz ténue da candeia,

António olhe quem chegou.

 

Irmão há tanto tempo partido,

Senta-te à mesa, pega um prato,

Sempre chega para mais um.

Não repares no fraco trato

Chegaste sem aviso algum.

 

Nos primeiros dias espiávamos

O tio. Achávamos o seu falar

Doce, cantante, tão diferente.

A certa altura só sabíamos estar

Com ele. Éramos a sua gente.   

 

Conviver com ele era uma aventura

Constante. Tinha cá uma imaginação.

A quinta do Eido era uma festa.

Nunca houve tanta animação,

Com o tio sempre à testa.

 

Na aldeia, o “quinze de agosto”,

Era dia de festa à Senhora.

Na véspera a procissão de velas

Era a atividade iniciadora

De uma noite sem cancelas.

 

Pois naquele ano seria único.

A noite daquele ano será

Lembrada como a do balão

Que da eira do Eido ao céu subirá

Para iluminar a procissão.

 

Já vem, gritam os sobrinhos.

O tio vê o balão começar a ceder

O vento faz a palha a arder incerta.

O balão eleva-se já com a boca a arder.

O tio desolado a cabeça aperta.

   

Andou arredado alguns dias,

Sentia-se mesmo envergonhado.

Um dia acordou com um sorriso

A brilhar na boca de lado a lado,

Era a que se pode chamar de aviso.

 

Onde guarda os frutos do meloal?

Não guarda? Isso é forte asneira

Eu e os mininos faremos um palheiro

Ali, num cantinho perto da sua eira.

Vai ficar com meloal o ano inteiro.

 

Melões e melancias iam lá amadurecer,

Porém os sobrinhos, à luz do luar,

Anteciparam-se, estragaram e comeram.

Tremeram quando viram o cinto no ar.

O tio, ”qui adianta, eles já não voltam.”  

 

Não se deu por vencido o tio brasileiro.

Um dia acordou a perguntar,

O trabuco de carregar pelo cano?

Mininos! Não teve de novo chamar.

Já sabíamos, há aventura sem engano.

 

Vamos mininos, vamos aos pombos.

Na eira, numa tábua espalhamos milho.

Num dos topos fixamos a arma bem,

Com um fio longo atado ao gatilho.

Era esperar que os pombos poisassem

 

Escondidos em silêncio no beiral.

Os pombos lá do alto veem a mesa

Farta na eira do Eido. Mudam de rumo.

O tio puxa o gatilho, pum, ao ver a presa,

Na eira do Eido ficou uma nuvem de fumo.

 

A partida do tio para o Brasil,

Foi de nos partir o coração.

Na eira da quinta do Eido pairou,

Uma sombra. Sabíamos que um verão

Como aquele foi um sonho que acabou.    

   Zé Onofre

 

 

28
Set22

Histórias para aprender a ler e a escrevrer - Livro I - Passeio na mata

Zé Onofre

Passeio na mata

PASSEIO NA MATA.jpg

 

Numa certa tarde de primavera,

Já mais parecido com um verdadeiro verão,

Do que com a primavera,

A mãe da Carolina,

Saudosa dos tempos

Em que tinha a idade que a Carolina tem,

Até porque o tempo convidava,

Disse à filha

Vamos passear.

 

Lá vão dois chapéus coloridos

A caminho do fresco das sombras do monte.

Carolina curiosa com a novidade

Não se cansa de falar.

Mãe que é isto?

Mãe e aquilo?

Olha era ali que fazias …

A mãe plena de melancolia,

Respondia com paciência mal disfarçada.

 

A Carolina, atenta e observadora

Foi avançando,

Enquanto a mãe se perdia nos seus pensamentos,

À descoberta dos lugares do monte

Que conhecia muito bem de ouvir contar.

Olha as ruínas do pombal.

Aqui é a eira do magusto da catequese.

Ali é a velha cabina elétrica,

Mesmo junto ao campo de centeio

Onde um caçador zangado,

Depois de ter falhado um coelho a dois passos,

Lhe atirou com a espingarda.

 

De vez em quando espreitava a mãe.

Lá vinha a mãe ausente do agora,

Presente no passado.

Agora apanhava munha para o magusto.
Já estava a rapar musgo com os dedos para o presépio.

Com a foicinha, que aparecera não sabe de onde,

Está a cortar rosmaninho para o tapete da Páscoa.

Está mesmo a avançar para o laranjal do Dr.
 

Cada uma caminhava os mesmos caminhos

Que eram paralelos, uma no passado, outra agora.
Nisto a Carolina ouviu

cu-cu.

Vai buscar a mãe às brumas do ontem

Chamaste mãe?

Não, continua que está tudo bem,

Regressando de imediato ao outrora.

 

Carolina encolheu os ombros.

Recomeçou a sua viagem de descoberta.

De novo, do nada

cu-cu.

Mãe está alguém a seguir-nos.

Não ouviste, cu-cu?

Ah isso.

Olha bem para o alto daquele pinheiro.

Que vês?

    Um passaroco, não é?

    Não, tolinha, é um cuco.

    Um cuco?

    Sim filhota um cuco.

Quando tinha a tua idade

O cuco ouvia-se muitas vezes,

Hoje já se ouve menos.

Quando o ouvíamos perguntávamos-lhe

“Cuco da beira,

Cuco da beira-mar,

Quantos anos faltam

Para eu me casar?” –     

 

O cuco resolveu responder

cu-cu cu-cu cu-cu cu-cu…

Contaste, filha?

Oh, não!

Então ficaste sem saber.

O quê?

Quantos faltam para te casares.  

   Zé Onofre

17
Ago22

história para aprender a ler er eswcrever - Livro I - A eira da quinta do Eixo

Zé Onofre

Na eira da quinta do Eixo

NA EIRA DA QUINTA DO EIXO - Cópia.jpg

Embora não fosse essa a sua graça

Todos lhe chamavam Teixeira.

O certo é que duma chalaça,

Ficou nome para a vida inteira.

 

No verão, nas tardes quentes e sem fim,

Ia até à quinta do Eixo, evitando a soalheira,

Sentar-se com os amigos Zindo e Quim

À sombra duma frondosa parreira.

 

Depois de gozarem a sesta

Levantaram-se para irem emedar

O centeio. Para ele era uma festa,

Para os amigos era só trabalhar.

 

Quase caíram se não fora a parreira.

Numa corrida louca o boi Amarelo,

O dócil Amarelo, correu para a eira,

Tomou conta dela como seu castelo.

 

Que ninguém se aproxime dizia

O Toninho. É só uma loucura

Breve. Lá para o fim do dia

Já passou. É coisa de pouca dura.

 

Ora o nosso amigo Teixeira

Não era paciente para esperar.

Devagar, com trejeitos à maneira,

Com uma panada de erva vai-lha dar.

 

O amarelo mantem-se espantosamente

Quieto. Cheio de vaidade vai o Teixeira,

Cheio de confiança, convincente,

Chega-se perto do boi no meio da eira.

 

Os caseiros do Eixo estavam espantados

Pelo que, pela primeira vez ali aconteceria

O Teixeira virava-se com o peito inchado

Pelo que fez e a que ninguém se atreveria.

 

Em má hora, virar costas ao boi, resolveu.

De raiva, com uma cornada, atira o rapaz pelo ar.

Subiu, subiu parecia que a meta seria o céu.

Um momento suspenso e todos começam a gritar.

 

Lá vem o rapazito com uma bala direto ao chão.

As pessoas calam-se. O traquina caiu na meda.

Deixa-se escorregar como se fosse um avião,

Que o centeio espalhado na eira aparou na queda.

 

O Teixeira, como se fosse uma coisa banal

Vira-se para as pessoas e diz com ar fanfarrão.

– Que grande coisa a dos astronautas, afinal.

Com uma cornada fui ao ar, eles vão de foguetão.

Zé Onofre

Desenvolvimento

Frase - Ex,: O Amarelo fugiu para a eira da quinta do Eixo

Proceder como nos textos anteriores