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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

15
Dez22

Rebusco 2

Zé Onofre

2
989/10/11

I

José correu,
Depois voou,
Perdeu-se no azul.

Restou dele
Apenas uma réstia
De nada.
Foi feliz.

II

Passamos o tempo
A perder o tempo
A lamentar o tempo perdido.
Somamos tempo perdido
A tempo perdido.
Quando usaremos o tempo,
Que nos é dado,
Para construir
Um tempo acrescido
De felicidade?

III

Rasgamos
Com fúria,
As condições primeiras da felicidade.
(Ternura,
Ternura e mais ternura).

Depois
Recordamos metodicamente
Os sonhos perdidos
Ao amanhecer.

IV

Pegamos em crianças.
Que fazemos delas?
Macaquinhos amestrados
A Responder a estímulos?
Macaquinhos pequeninos
Muito bem ordenadinhos?
Meninos comportadinhos,
Pequenos homenzinhos?
Ai escola, escola.

V

Pura poesia
É
A vida em movimento.

O parado
É
Sofrimento.

A escola parada
É
Tristeza pura.

Secas
São as vidas torturadas
Nos bancos da escola.

Secas
São as palavras
Que, frias, escorrem
Dos lábios das crianças
Sem sentido,
Sem ardor.

    Zé Onofre

24
Abr22

Por aqui e por ali 100

Zé Onofre

                     100

 

996/12/__

 

Janeiras, escola de Vilarinho, V. Caiz, AMT

 

Meu senhor, minha senhora, então que tal,

Nós cantamos, do jeito que sabemos.

Esperamos, tenham tido um bom Natal

Qu’este ano seja melhor assim o queremos.

 

Andamos a dar vivas de porta em porta,

Desafinando assim alegremente.

Mas a nós isso pouco importa

Desde que fique feliz a nossa gente.

 

Mas falemos do que aqui nos traz,

Nesta noite de Janeiro tão fria,

Andamos para a frente e para trás

P´ra que na escola haja mais alegria.

 

Já não temos mais assunto para cantar,

De repente ficamos sem ter que dizer,

Algum dinheiro, nos venham aqui dar

Desde já estamos a agradecer.

 

Pedimos, não demorem a abrir

A vossa porta acolhedora de par em par.

Já dissemos o que vínhamos pedir

Está na hora de para outra casa abalar

Zé Onofre

13
Abr22

Por aqui e por ali 92

Zé Onofre

              92

 

996/02/12, encontro do SPN, CMA, Amarante

 

Está na hora

De olhar o horizonte

E descobrir mais além.

 

Está na hora

De deixarmos de ser comparsas activos

Na destruição do nosso melhor,

A Utopia.

 

Está na hora

De acabar com as negociações,

O futuro não se negoceia,

Cumpre-se

 

Está na hora

De mudar o rumo,

Não de remendar caminhos,

Que está visto não é o caminho.

 

Está na hora

De exigirmos mais e melhor.

De gritarmos bem alto –

Esta não é a escola que respeita os alunos.

Esta não é a escola que satisfaz os pais.

Esta não é a escola que dignifica os professores.

Esta não é a escola que constrói futuros.

Esta é a escola dos sonhos desperdiçados.

 

Está na hora

De edificarmos uma escola nova

E não de nos acomodarmos –

Em opiadas discussões de estatutos e escalões.

E não de negociar os escombros

Da escola que resta.

 

Está na hora

De pensar, escutar e olhar,

De não mais sermos tratados como regateiros

A discutir o preço do linguado.

 

Está na hora

De assumir a nossa dignidade.

Dignidade que não se conquista

Com discussões estéreis

Que nos roubam argumentos

E destroem o orgulho que ainda nos resta,

 

A dignidade conquista-se

Com a exigência de uma escola,

Crítica, experimental e não seguidista

Dos ditames de uma sociedade

Que tudo reduz ao sucesso dos cifrões,

E principalmente aos bens consumidos.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa da escola armazéns de matéria-prima

De meninos com que se fazem chouriços.

Os que não são perfeitos são excluídos

Lançados à máquina do lixo,

Farinha para engorda dos barões da droga.

 

A dignidade conquista-se

Exigindo-se condições

Onde cada um seja cada um

E não a redução ao tipo médio.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa das condições desumanas

De ritmos arbitrários que tudo reduzem

Ao Máximo Divisor Comum.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa da escola sardinha em lata.

Com a recusa da escola-cidade

Onde os professores não conhecem o vizinho do lado,

Quanto mais os habitantes da rua, os alunos.

 

A dignidade conquista-se

Exigindo uma escola que não mais seja

Quatro paredes recheadas de mobiliário

Do mais sofisticado que haja,

Ao mais antiquado e artesanal,

Quadro preto, giz e cuspe.

 

A dignidade conquista-se

Ajudando a construir uma escola,

Onde todos os que lá trabalham

Se despeçam “até amanhã”

Como quem espera o beijo da mãe,

O encontro ansiado com o amigo,

O abraço apertado dos enamorados,

Ou apenas a terra onde “corre o leite e o mel.”

 

A dignidade conquista-se

Vendo “claramente visto” que o rei vai nu.

 

A escola vai nua porque diz –

Sou para todos –

Mas só se o for na rejeição dos inadaptados.

 – Sou obrigatória durante nove anos –

E limita-se a burocratizar pessoas,

A reduzir a estatísticas os alunos.

 

Está na hora

De termos coragem de enfrentar os alunos,

Dizer-lhes, como quem pede perdão,

Tendes razão, abrimos os olhos tarde.

De termos coragem de enfrentar os pais,

Dizer-lhe como quem reconhece uma culpa,

Tendes razão em não confiardes totalmente na escola.

De termos coragem de enfrentar o ministro

E dizer-lhes com toda a clareza necessária,

Este não é o momento para esta discussão.

O problema está para além de estatutos.

O problema está para além das carreiras.

O problema está para além dos escalões.

O problema está para além de mais ou menos tostões.

 

Está na hora

De encararmos os alunos, olhos nos olhos,

E pedir perdão por cada vez que gritaram,

Como quem pede socorro, e nós os calamos.

E pedir-lhes perdão por cada vez que nos chamaram,

E altivamente nem para eles, olhamos.

Perdão por todas as vezes que se atravessaram,

De propósito nos nossos caminhos, e prosseguimos

Altivamente em frente e com a nossa pressa

Vos Arredámos não sabemos para onde.

 

Por favor,

Não mos julgueis com muita severidade.

Tal como vós chamamos e ninguém nos responde,

Apenas um eco repete e distorce até o infinito

O nosso repetido e sentido apelo.

Tal como vós nos sentimos esmagados e trucidados

Por esta escola cega, surda e muda.

 

Vamos então fazer um pacto –

Vamos ajudar-nos mutuamente.

Olhai para nós, não como carrascos,

Mas como amigos.

Olhai para nós, não como iluminados,

Mas tateantes a fazer o caminho.

Olhai para nós não como carcereiros,

Das vossas alegrias e angústias,

Mas como uma janela

Onde vos podeis debruçar

À procura do horizonte.

Olhai para nós

Como seres que entre o medo de errar,

E as certezas de não nos enganarmos,

Vivemos entre horrores e alegrias.

Finalmente, olhai para nós e vede

Que somos pessoas, apenas pessoas,

Como todas as pessoas sujeitas a erro.

 

Pais, também convosco, queremos fazer um pacto.

Antes, porém, julgai-nos com benevolência.

É certo que nem sempre nos entendemos,

E ajudemo-nos na jornada dos vossos filhos.

Ajudai os vossos filhos a descobrir a felicidade

Da descoberta e da conquista.

Não tenhais pressa que os vossos filhos

Tenham tudo, deixai algo, o mais importante,

Para ser a conquista deles.

Deixai que sejam eles a chegar mais longe,

Nem que apenas o mais longe seja ali,

Sim, ali no fim da rua, ao virar da esquina.

 

Senhor ministro,

Por agora prometemos exigir, apenas, esta escola.

 – Pequena,

Onde todos se conheçam pelo nome próprio,

E não pelo terror do quinto E,

Ou pelo filho do João da Esquina,

Ou a s’tora, a fera da matemática.

– Espaçosa,

Onde cada um tenha direito à sua privacidade,

Não se sentir invadido pelos outros.

 – Rica,

Em espaços diferenciados,

Em actividades alternativas,

Que proporcionem a cada um

A realização do ser humano

Em busca da felicidade.

– Exigente

Na crítica e autocrítica,

Nos comportamentos e atitudes,

De cada uma das pessoas que lhe dão corpo.

 

Depois, então, falaremos de remunerações. 

Zé Onofre

16
Dez21

Por aqui e por ali 21

Zé Onofre

              21

 

983/02/08

 

        I

 

Hoje, sim,

Recorda os tempos

De então,

Quando a pé ia p´ra escola.

É geada de palmo e meio,

Dizíamos.

Para as nossas mãos pequeninas

Qualquer coisa era um palmo.

                    2

Hoje,

No quente do carro

Desdenhoso digo,

Já não vale nada.

No silêncio,

Dentro de mim

Confirmo,

Eu é que não.

  Zé Onofre

13
Nov21

Por aqui e por ali 6

Zé Onofre

                 6

 

1981/02/23, Gouveia – MCN

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se fazem os sonhos.

 

Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se constroem mundos novos.

 

 Vá!

Gritai-me as palavras

Com que se enfurece o mar.

 

Dizei-me, nem que seja em murmúrios,

A vida serena

Do sol a cantar.

 

Dizei-me por favor,

A poesia de uma noite,

Mesmo que não tenha luar, nem estrelas,

Que seja só de sombras e trevas.

 

Gritai-mas,

Dizei-mas,

Vós as sabeis.

 

Um dia não veio à escola,

Ficou em casa

A fazer bagaço.

Quem me disse que ele era criança?

 

No primeiro dia de aulas

Não veio à escola,

Ficou em casa a trabalhar.

Com que direito o avaliaremos negativamente?

 

Queria ter um laço vermelho,

Grito de alegria

Na cabeça a sorrir.

 

Queria usar palavras sinceras,

Gritos de luz

Na boca a sorrir.

 

Queria ter palavras misteriosas,

Sons e cores da vida a começar.

Zé Onofre

03
Nov21

Daqui e por ali 4

Zé Onofre

4
Gouveia, 1981/01/07

A minha escola tem
Professores,
Meninos,
Meninas.
Os professores são muito bons
Muito, muito bonitos.
Os meninos e as meninas
Também são.
Eu gosto muito da minha escola.

O recreio da minha escola
Tem um muro a toda a volta,
Pedras,
Muitas pedras no alto,
Tem, também,
Lama no Inverno.
O recreio da escola
É pequeno para brincar.

Zé Onofre

17
Set21

Penafiel 32-33

Zé Onofre

                     32

 

03/02/977

 

O Jornal de Parede

Sentiu-se ofendido.

Não é que um atrevido qualquer

Sem medir as consequências nefastas

Da sua ação irrefletida

Se atreveu a colocar um escrito

Na própria parede!

 

                 33

 

04/02/977

 

A nossa escola é muito húmida.

É estranha a humidade

Que escorre no patamar médio

Das escadas.

De repente a parede

Começou a jorrar tinta

Por todos os poros

 

Quando se pensava

Que a parede tivesse esgotado

As suas reservas de tinta,

Eis que uma nova fonte

Brotou.

Zé Onofre

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