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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

15
Mar22

Por aqui e por ali 69

Zé Onofre

              69

 

990/11/21

                      

         I

 

Caminho na cidade

À procura de sonhos e ilusões.

Caminho na cidade

À procura de ser seduzido.

Percorro clandestino

Silêncios impensáveis.

Procuro autómato

Nada.

Olho infinitamente o longe

Como quem espera uma sedução.

Ser seduzido

Perseguido pelo olhar de alguém.

Saber

Que, de dentro da desconhecida multidão,

Um-alguém repara nesta sombra

Que devagar olha o longe

Sem nada ver,

Que apenas espera o milagre

De uma palavra desconhecida e inesperada,

Que o traga, de uma vez só,

Do infinitamente ausente

Para o finitamente aqui,

De um tempo-lugar,

De apenas uma carícia

Que não se implorou.

Lembro-me, então,

Daquele ano em que as mãos inconscientes 

Os longos cabelos afagavam

Em longa ausência.

À espera caminho na cidade,

Sem ver, sem sentir,

Apenas ansiosamente à escuta

De um “abre-te sésamo”

Que me traga do longe para onde viajei,

Aqui ao presente de um carinho inesperado.

Como gostaria que, de repente,

Uma voz desconhecida e terna

Me parasse na rua, onde invisível caminho,

E me trouxesse do lá onde não estou

Para o cá onde ando perdido.

Como gostaria de um olhar,

Mesmo que fosse fugidio o olhar,

Me percorresse o corpo como labareda,

Que num instante se apaga.

Como seria bom

Um olhar líquido de ternura,

Surgido de um canto, de uma esquina, da multidão,

Me envolvesse num mar de carícias

Sem sentido, nem medida.

 

                      II

 

No entanto continuo a apreciar

O verde-próximo,

O azul-longe dos horizontes,

Como quem se lava

Da melancolia há muito sofrida.

Como engano com o meu ar distante,

O meu discurso de certezas feito,

- Dúvidas muito bem estudadas –

Apenas defesas conscientemente premeditadas,

Para bem envernizar a superfície

Quando o âmago se rasga

Com gumes de revolta.

Como engano,

Com o ar aparentemente sonhador.

Como engano

Com o calmo olhar de satisfação atingida.

Tudo.

Podem-me dizer tudo,

Que permanecerei calmo, sereno.

Talvez,

Alguém mais atento perceba uma leve sombra

Que mancha o meu olhar.

Tudo,

Pode-se-me dizer tudo

Que calmamente, como quem toma um doce licor,

Emborcarei

Apenas queria ter coragem para gritar

- Basta.

Dizer bem alto

Também tenho sentimentos,

Também sofro.

Calmamente

Continuo o meu viver quotidiano

De idas e vindas automatizadas.

Quando o que me apetece é desnudar-me

Na praça.

Mostrar o meu ser sedento de carinhos,

De mimos e de ternura.

Estar nu na praça onde cada um escreva,

Cruamente, na pele exposta,

O que de mim, sinceramente, pensa.

Que também com a minha nudez provocante

Ser gume afiado e mostrar as hipocrisias de cada um.

No entanto continuo pudicamente vestido,

A tentar e a conseguir esconder

As mágoas que me formam o ser.

Continuo com ar estudadamente distraído

A afastar os outros vestindo-me de silêncios,

Ensurdecedores silêncios.

Emudeço dia-a-dia a minha necessidade

De carícias concretizadas, não apenas sonhadas.

 

III

 

De silêncio me vesti.

De palavras me enfeitei.

De tudo quanto disse

Tudo, no fundo, calei.

 

Falei do céu azul,

Do verde dos montes,

Das ondas do mar,

Do vento calmo,

Das tardes de Verão.

 

Falei de sofrimentos sociais,

Das feridas na minha pele

Feitas no rastejar lento dos dias.

 

Falei de belos sol-poente,

Das frescas manhãs da aurora

Da chuva fria e calmante do Inverno,

De primaveras claras a florir.

 

Falei de crianças felizes nos jardins,

Das mães orgulhosas que as seguem,

Ou que com apreensão as olham

Esperando a vinda de melhores dias.

 

Falei de pertos e de longes,

De rios serenos ao entardecer.

De ondas revoltas acesas

Em noites espantosas de tempestades.

 

Falei das mulheres, flores solitárias,

Feitas prisioneiras em jarras de estimação,

Subtilmente colocadas em envidraçadas janelas

Para que, a outras mais atrevidas, sirvam de lição.

 

Falei longamente

Dos meus dias rotineiros,

Dos meus passos atinados

Dados em caminhos certinhos.

 

Falei do meu vagabundear

Pelas ruas solitárias da cidade

Da minha longa e inútil espera

Da carícia de uma voz,

Do gesto de um olhar.

      Zé Onofre

01
Out21

Penafiel 48-49

Zé Onofre

                   48

 

25/11/977

 

Hoje está um dia incaracteristico.

Será que um dia incaracterístico

Tem características?

As características

Dos dias incaracterísticas

É não terem características.

 

                 49

 

29/11/977

 

As pedras.

As palavras.

As pedras calam silêncios.

As palavras calam sulcos,

Cavam rotas,

Rios,

Riachos

Nas pedras caladas

De silêncios.

O silêncio,

Grito abafado,

Dorido,

Pleno de emoções.

As palavras,

Pedras lançadas

Ao silêncio

Granítico

Dos outros.

Os outros,

Pedras gigantes,

Gritos,

Uivos,

Raiva lancinante,

Á espera,

À espreita

De um “Abre-te Sésamo”

- Cheio de alegria,

Ou de dor -

Mas que abra,

Em cada silêncio

Um rio,

Um mar

De Palavras por nascer.

 

Há silêncios nas minhas mãos.

Há gritos incontidos nas palavras

Soltas uma a uma,

Folhas outonais

De Novembro a acabar.

Há raiva nos meus dentes.

Há fúria da razão por vencer.

Há ira ensanguentada

No estilete

Da palavra.

Há sentidos

Caídos ao amanhecer.

 

Hoje queria fugir

Dos sons,

Malditas cores

Que me trespassam

Como espadas.

Hoje queria fugir

Para a selva maldita

Dos caminhos por achar.

Hoje queria fugir

- Apenas cair,

Não me levantar -

Rastejar insensível

Pelas pedras geladas

Em silêncios gratuitos.

        Zé Onofre

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