Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

05
Jan23

Rebusco 7

Zé Onofre

               7

 

989/11/30

O pragmático tem como bandeira,

Embora a não desfralde,

O quero, posso e mando.

 

O pragmático tem um só sonho,

Embora o esconda nas sombras,

O de poder servir um ditador.

 

O pragmático acredita,

Embora não o confesse,

No ser humano, desumanizado.

 

O pragmático sabe,

Embora não o diga,

Que o medo é o melhor veneno para o Ser.

 

O pragmático, contudo, tem receio,

Embora não o transpareça,

Que da anulação do Ser nascerá,

Mais uma vez, a Esperança.

   Zé Onofre

03
Nov22

Canto triste IV

Zé Onofre

Canto triste IV

 

022/10/14

 

Como nos deixamos derrubar?

Vínhamos tão bem seguros

Da luta, lá longe começada,

Muito longe para agora acabar,

Sem serem atingidos os futuros,

Que nossos avós iniciaram do nada.

 

Olhemos, para ver, à nossa volta 

Para ver se entendemos em que curva

Da longa caminhada nos perdemos.

Como é que a gente de esperança à solta,

Como bandeira, de repente fica turva

Desiste de ter o futuro que merece.

 

Será que acredita nos agourentos

Que dizem que está  enganada,

Que uma sociedade onde a gente é igual,

Só cabe na cabeça duns loucos violentos?

Porém, havia mais loucos entusiasmados

Com uma sociedade sem a ditadura do capital.

 

O capital, como qualquer outro poder,

Não vai desistir. Muda de estratégia.

Muda o rosto, e cria a social-democracia.

Consegue, com essa farda, não perder

O comando. Finge que recua, demagogia,

E com boa publicidade é só esperar para ver.

 

Como é que tantos se deixaram enganar?

Não sabem que ninguém dá nada de graça?

Assim iludidos tornaram-se bons aliados

De quem vive apenas para os explorar.

Nos gabinetes há quem idealiza e trace

O modo de vencer os mais desconfiados.

 

Como nos deixamos derrubar?

Vinha de longe, de tão longe a luta,

Conquistando tanto, para perder tudo,

Que custou suor e sangue a conquistar.

Talvez tenhamos perdido o dom da escuta

E o nosso discurso tivesse ficado mudo. 

 

E agora o que nos resta para fazer

Neste tempo tão difícil para lutar?

De longe, tão longe, aqui chegamos

Para arribar à praia e desfalecer?

Não meus irmãos, temos que continuar.

Se não, por que é que aqui estamos?

    Zé Onofre

30
Abr22

Por aqui e por ali 109

Zé Onofre

                    129

 

998/04/05

 

Quem?

Quem, e vindo de onde,

Nos veio roubar a esperança de sonhar?

 

Quem?

Quem, e vindo de onde,

Nos veio tirar a esperança de mudar?

 

Quem?

Quem, e vindo de que matadouro,

Decretou a morte dos sonhos?

 

Quem?

Quem, e vindo de que espécie de carcereiros

Ousou aprisionar as ilusões?

 

Quem?

Quem, e vindo de que degredo

Ousou sequestrar os sonhos,

No sótão das velharias,

No recanto dos brinquedos perdidos?

 

Quem?

Quem, e vindo de que passado obscuro

Nos enviou para este falso presente?

 

Quem?

Quem, de mente tresloucada,

Ousou dar-nos por presente,

Esta  vida de vil tristeza e solidão? 

       Zé Onofre

02
Dez21

Por aqui e por ali 8

Zé Onofre

               8

 

981/03/30, Telescola, Gouveia, MCN

 

Quem me dera já no Inverno,

Sentado nas longas noites frias,

A recordar.

 

Se fora já o Inverno,

Agora, neste momento,

Recordaria …

 

Recordaria estes sonhos

Que não foram realidade,

O passado, estas longas páginas brancas

De sonhos mortos ao nascer.

 

Quem me dera já o Inverno,

Para poder recordar

O sonho que não se fez,

A esperança vencida!

 

Quem me dera já o Inverno

Com as suas melenas brancas

E o frio,

Um frio penetrante

Que avivasse todos os sonhos

Que ficaram pelo caminho.

 

Quem me dera já o Inverno

Com a sua verdade crua

E sem esperança de vida já.

 

Quem me dera já o Inverno,

Já hoje,

Ou amanhã,

Mas queria o Inverno já!

    Zé Onofre          

23
Set21

Penafiel 40

Zé Onofre

                     40

 

15/03/977

 

É bom,

É sinal de esperança

Logo de manhã

Receber um ramo

De alecrim

Das mãos de uma criança.

 

Poderia até ter sido de tojo

Pleno de picos e veneno,

Significava o mesmo.

Vindo das mãos de um menino.

 

Não importava se fossem ortigas,

Ou cardos, sei lá.

Significa que entre nós  

Alguma relação há.

21
Set21

Penafiel 38

Zé Onofre

                     38

11/02/977

 

Discurso longo, longo,

Te fazem pobre criança.

Será que em vós o sonho

Não tem uma réstia de esperança?

Zé Onofre

 

 

 

Será que a vossa vida

É ouvir e calar,

Nunca será ouvido

O que tendes para contar?

17
Ago21

Souto 38

Zé Onofre

                        38

 DEZ/973 – JAN/974.

 NOS DIAS QUE PENSÁVAMOS SEREM ETERNOS

 [Cantada por Mary Hopkin, em 1968)

“Naquele tempo havia um BAR

Onde íamos beber um copo ou dois

Lembrar como ríamos horas seguidas

E sonhávamos as grandes coisas que faríamos

Naqueles dias meu amigo

Que pensávamos serem eternos”

[Tradução livre, por Zé Onofre]

                  I

                 1

     Janeiras, 1973

Atenção minha gente

Que nós aqui chegamos.

Cantando, alegremente,

Feliz Ano Novo, desejamos.

 

Muda o ano, muda a vida,

Sempre assim ouvimos dizer.

A esperança não é perdida

Mensagem que vimos trazer.

 

Mas um aviso apenas

Tal por si só não acontece.

É Preciso quebrar as algemas

Que o vosso ser adormece.

 

Venham vindo, venham vindo

Que estamos já a acabar

Estão sendo horas de ir abrindo

As portas de par em par.

    Zé Onofre

 

 

02
Ago21

Souto 18

Zé Onofre

               18

 05/12/974

              I

 Sinto uma dor insofrida,

Vaga,

Em parte incerta de mim.

A inconsciência,

Tortura iminente

Que nasce e vive,

Se prolonga e morre,

Em algum lugar de mim.

Todos os dias

Esta loucura perdida

Ressurge

De dias estropiados,

De factos esquecidos,

Ou de desvios da vida.

Esta tortura certa

Que me atravessa cada dia

Vinda da incerteza

De saber se alguma vez

Haverá a ressurreição da esperança,

Haverá um nascer novo

De um dia diferente dos ontens,

De um eu diferente de todos os passados.

                      II

São horas

Muitas ou poucas,

Loucas ou curtas,

Impensadas,

Vividas ao acaso

Em ruas que desconheço,

Mas conhecidas de alguém.

                    III

Imaginação fértil

Rica em derrotas

Rica em vitórias.

Já nem distingo

Derrotas de vitórias,

Ou se as invento.

Se acontecem e se sucedem

Ou apenas vivem só em mim.

                        IV

Vivo na corda bamba

Num desequilíbrio impossível,

Dinâmico, constante,

Resultante da luta

Entre a realidade frustrante

E a imaginação galopante.

De um pensamento morto,

Ou de uma realidade moribunda.

     Zé Onofre

 

 

23
Jul21

Souto 17

Zé Onofre

               17

 25/11/974

                    I

Procuro-me incansável

Por entre os factos do dia-a-dia

E encontro

Sempre a mesma imagem desamparada.

Procuro-me insistentemente

No espelho do que fiz

Derrotas e humilhações

E vejo-me pessimista.

Prendo-me ao passado,

Cadeia que me enreda

Em algumas certezas,

Muitas incertezas,

E vejo

Um ser melancólico.

               II

Cada lágrima é uma lápide

A cada glória desperdiçada.

Olho,

Vejo-me cheio de raiva

Pelos factos que me mostro

E que jamais fiz.

Entretanto

Os outros não me veem

Como imagem falsificada

De mim próprio.

Quando no meu quarto,

Tendo-me como companhia única,

Sinto em mim um desistente

Incapaz de desistir

Por inércia

E na esperança

Que novas forças

Me venham arrancar

A este torpe,

Estéril,

Inútil,

Viver

  Zé Onofre

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub