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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

16
Jan23

Que viva Spartacus 35

Zé Onofre

              35

 

023/01/16

 

O maior crime contra a humanidade

É não se ser humano.

Não se ser humano

É olhar outro ser humano

Do alto da nossa importância

E superioridade.

 

É elevarmo-nos sobre os outros

Devido à cor da pele,

Devido ao nascimento,

Devido às crenças religiosas,

Devido ao envolvimento cultural,

Devido às faculdades intelectuais,

Devido ao conhecimento.

 

Nenhuma destas,

E de outras qualidades

Nos habilitam a considerarmo-nos superiores

A qualquer ser humano.

Todas elas

São qualidades que derivam do nascimento.

 

O que não é de nascimento

É rebaixar os outros.

O que não é de nascimento

É escravizar outros seres humanos.

O que não é de nascimento

É querer ser dono dos recursos naturais.

 

Homens,

Que ainda não perdestes a humanidade,

São horas de nos unirmos

Contra o pai e a mãe

De todos os crimes,

De todas as guerras,

De todos os genocídios,

De todos medos,

De todos os atropelos à natureza,

 

Homens,

Que ainda não perdestes a humanidade,

São horas de nos unirmos

Contra a exploração do homem pelo homem.

Não adianta combater os efeitos desta.

Continuaremos a lutar contra fantasmas.

14
Nov22

Dia de hoje 75 A - Canto triste XII

Zé Onofre

                 75 A

 

                   Canto triste XII

 

022/11/13

 

Neste momento duro, feroz, estéril de sentido

De rota perdida, sem norte, nem bússola

Da vida em tudo afastado;

Onde nem poeta sonha, ou voz canta,

Nem criança tem doce sorriso;

Cujo nome, das gentes conhecido,

É democracia, na verdade, ditadura.

 

A qual a propaganda

Elevou às alturas

De verdade absoluta

Onde uma dúvida à sua verdade

É sinal, de herética malvadez,

Saudade de uma experiência falhada.

 

Sendo uma amostra onde

O desejo de um regime vil se esconde;

Nele aparece o governo que se encosta

Ao regime, que vem em crescendo,

Do século dezoito, liberalismo chamado

Que conforme o tempo foi volvendo,

A sua língua de mel-veneno composta,

Outros nomes lhe têm dado.

 

Agora como vento quer apressado

Derrubar com o seu longo braço

Tudo que a luta operária obteve

Tida pelo capital como desventura.

Agora, nesta hora de retaliação pura  

O imperialismo, num momento breve,

Quer que a luta operária fique sem espaço,

Que para sempre a exploração  

Mantenha, em todo o mundo, dominação. 

 

Aqui chegamos, vivendo tristes os dias,

Que enganados fizemos maus, solitários,

De desprezo e de humilhações cheios,

Trabalho forçado indigno de operários,

Depois de lutas duras terem tido direitos e regalias.

 

O capital com vãs promessas de cofres cheios

Põem os operários sozinhos com os seus meios,

A lutarem contra a sua própria natureza.

Não reparam que quem assim os ilude,

Quer que percam, da união, a memória  

De lutas duras em que lhes sorriu a vitória.

Que esqueçam a gente que na união viram a virtude,

Para acabar com o capital com toda a certeza,

Que, apesar de à exploração e ignorância sujeita, sabia

Que um mundo sem exploradores haver poderia

   Zé Onofre

 

10
Set21

Penafiel 23

Zé Onofre

                 23

 14/07/977

Cinco,

Gosto de ti,

Ó cinco.

Gosto da tua forma,

Do teu som,

Da tua cor.

 

Gosto de dizer

Assim mansinho

- Cinco –

Aos ouvidos das pessoas.

 

Cinco

De ti dirão

Que és um

Algarismo,

Um número

Abstracto.

 

Cinco,

O número de carros

Que fulano tem.

O número de quilómetros

Que um operário caminha a pé

Pelo alto da madrugada.

 

Cinco,

O número de quartos de banho

Forrados a ouro

Que um palácio tem.

 

O número de pessoas

Que vivem num quarto

De um bairro operário.

 

Cinco, 

Os cinco mil contos

De lucro diário

De um patrão.

O cinco centos de escudos,

Salário mensal do operário.

 

Cinco,

As garrafas de Wiskhy,

De mil escudos a garrafa

Na garrafeira do senhor da Terra.

Cinco,

Os cinco tostões

Na algibeira do mendigo.

 

Cinco,

Cinco dias de exploração semanal,

A que o patrão chama

Semana de trabalho.

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