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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

01
Set22

Histórias para aprender a ler e a escrever - Livro I - A princesa Eunice

Zé Onofre

A princesa Eunice

APRINCESA EUNICE.jpg

Manuel, jovem príncipe.

Divertia-se e entristecia-se

Com seus irmãos e companheiros.

 

Num dia,

Sem nada de interessante para fazer

Saiu de passeio a cavalo.

Ia com os seus amigos,

Mas na verdade ia só.

 

Se de repente o caminho acabasse?

Se de repente o cavalo ganhasse asas?

Se de repente aparecesse um dragão?

De pergunta em pergunta

Entrava no mais profundo de uma floresta.

A floresta das bruxas.

A floresta dos lobisomens.

A floresta dos magos.

A floresta dos feiticeiros,

Ora sapos, ou águias,

Ora penedos, ou falcões.

Era a floresta mete medos às crianças.

 

Enquanto sonha com aventuras

De dragões a vomitarem fogo,

Passou o eucalipto da maldição.

Nem se apercebeu que estava só

Mesmo em frente ao belo castelo

Da Terrível feiticeira.

 

Numa das varandas

Uma bela jovem, que olhava o sem fim,

Viu-o e acenou-lhe.

 

Ainda bem que passei o eucalipto da maldição.

Só pode ser a bela Eunice,

Princesa desaparecida,

Que me pede socorro.

Avança num galope furioso

Contra o Castelo.

 

A fúria é paixão breve.

Quando chega aos portões do Castelo,
De onde Eunice lhe acenara,

Já a fúria o abandonara.

Educadamente

Puxa pela corda da sineta.

Abrem-se os portões de par em par.

 

Meio desconfiado,

Meio confiante,

Sobe lanço de escada,

Após lanço de escada,

0nde as portas se abrem e fecham

Misteriosamente.

 

 Está agora frente a uma porta chapeada,

Encerrada com correntes e cadeias.

Pensa arrombar a porta,

Porém, suavemente bate à porta.

 

A voz suave de Eunice.

– Entre a porta está aberta.

_ Estás salva, Eunice!

_ Salva?

O meu gesto foi só um “olá, vem”.

Conta me o que se diz deste castelo?

 

Deve ser tudo mentira.

Os muros não têm espigões.

Os portões não estão armadilhados.

Das janelas não caem azeite a ferver de caldeirões em brasa.

O chão não se abre em fornalhas ardentes.
 

Minha tia desiludida com o mundo,

Recolheu-se no seu castelo.

Deixou-o fechar-se entre as árvores,

Para seu melhor repouso.

Pediu-me que a acompanhasse.

Quando me apetece saio,

Passeio,

E volto.

Aqui sinto-me bem.

 

Então …

 

Tudo mentira

Inventada por cavaleiros

Que ainda vivem na idade média

Que ainda acreditam em dragões

Lança chamas,

Que pensam que as jovens

São frágeis bonecas de porcelana.

 

O jovem Manuel

Foi valentemente delicado,

Fortemente esclarecido,

Decididamente meigo.

Conquistou a princesa Eunice.

 

Desenvolvimento

Frase – Ex.: O jovem Manuel passou o eucalipto da maldição para ver a princesa Eunice.

Proceder como nos textos anteriores

11
Out21

Penafiel 60

Zé Onofre

                  60

 

27/01/978

 

Atenção,

Atenção!

Há fogo na floresta!

Há fogo na floresta!

Grita a máquina

Devoradora do sentido

Das palavras.

Uiva a máquina

Devoradora de homens.

Viva o maquinismo

Que grita

«Há fogo na floresta»

Enquanto os homens

Vivem em festa,

A festa da Vida

 

À noite

Sombria.

Prefiro

A clareza

Das trevas da noite

À escuridão

Das evidências

Dos dias claros.

   Zé Onofre

08
Set21

Penafiel 20

Zé Onofre

               20

 02/06/76

 Era uma vez,

Como tantas vezes,

Na floresta de cimento-aço,

De bichos selvagens

Metálicos e reluzentes,

Andava uma criança.

 

Na rua,

Sem lugar

Sem tempo para brincar,

Andava

Na apanha do trapo

Ferro velho.

Passou por muitos,

Muitos bichos,

E muitíssimos,

Muitíssimos lobos

Que sem ameaças,

Sem escrúpulos,

Sem canções

Comem a criancinha aos pouquinhos.

É esta a história do Capuchinho

Que todos os dias se passas

Na floresta de cimento.

Cidade

Onde os homens

São lobos.

Zé Onofre