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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

03
Abr22

Por aqui e por ali 83

Zé Onofre

                83

 994/10/16

                 I

Que é

Do fogo ardente

Que iluminava o nosso caminho?

Que é

Da fúria

De fazer o futuro ontem?

Que tempo é este

Que levanta barreiras

Onde deveria haver, apenas, sonho e magia?

Que tempo é este

Que tudo macula?

Que tempo é este?

Que tempo,

Sem tempo

Para sonhar mais longe.

                II

Que bom,

Poder olhar o céu

Sem sonhos no olhar.

Que bom,

Poder apreciar a paz

Sem lágrimas nas palavras.

Que bom,

Pisar serenamente

As pedras da calçada.

                III

Quanto mais bom seria,

Incendiar de sonhos

O futuro,

Iluminar de pureza

O caminho,

Semear de flores

A gravidade dos dias.

  Zé Onofre

11
Out21

Penafiel 60

Zé Onofre

                  60

 

27/01/978

 

Atenção,

Atenção!

Há fogo na floresta!

Há fogo na floresta!

Grita a máquina

Devoradora do sentido

Das palavras.

Uiva a máquina

Devoradora de homens.

Viva o maquinismo

Que grita

«Há fogo na floresta»

Enquanto os homens

Vivem em festa,

A festa da Vida

 

À noite

Sombria.

Prefiro

A clareza

Das trevas da noite

À escuridão

Das evidências

Dos dias claros.

   Zé Onofre

28
Ago21

Penafiel 6

Zé Onofre

            6

08/02/977

Era uma noite longa, longa,

Longa de escuros e sombras.

Nessa noite uma criança caminhava

Contra o vento sibilante

Do deserto em fogo.

 

Era uma noite longa, longa,

De escuros e sombras.

Nessa noite uma criança caminhava

Contra a chuva pesada

Do deserto em cinzas.

 

Era uma noite longa, longa,

Longa de escuros e sombras.

Nessa noite uma criança caminhava

Contra a calmaria

Do deserto em lama.

 

A madrugada rompeu,

Em gritos de cores.

Nesse alvorecer

A criança era morta.

 

O deserto

É selva de cimento e aço,

É a cidade.

 

Cidade de indiferença,

Trucidadora

Inconsciente

Da Humanidade

Que cada um porta em si.

  Zé Onofre

19
Ago21

Souto 38 (Encontros, fantasias, ilusões e enganos)

Zé Onofre

SET/975

                2

Que morra nosso coração,

Que morra a fantasia!

Morreu o fogo que acendia

A nossa imaginação.

 

Se por entre a luz da recordação

Lembramos aqueles poucos dias

E pensamos naquelas alegrias

Mais triste se torna a separação.

 

E, então, ao acaso na rua

Por entre tristezas, ralação

O nosso olhar procura,

 

Em cada sombra, a bênção

Das vossas esbeltas figuras

Adoráveis, Zé, Céu e São.

    Zé Onofre

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