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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

08
Nov21

Por aqui e por ali 5

Zé Onofre

               5

 

980/12/11, Gouveia, MCN

 

Senhor professor,

Creio em si,

Gosto de si,

Mas aborrece-me tanto!

Despeja palavras,

Palavras, palavras

Sobre os meus ouvidos.

Pobres ouvidos,

Os meus.

Ontem,

Por exemplo ontem,

Falei-lhe …

Falei-lhe das minhas galinhas

Que comem milho,

Que põem ovos …

E do galo

Que canta ao amanhecer.

Falei-lhe…

Falei-lhe do meu porco 

Que engordou no Verão

E hoje está morto.

 

Não te dão o pão

Que te roubam

No dia-a-dia.

Não te cobrem o frio,

Nem te aliviam o calor

Que padeces

De sol-a-sol.

Não te ensinam

A vida

Que te sugam sem parar.

De real,

Nem o sonho

Te permitem.

Apenas,

Apenas te oferecem

Ilusões.

Mastigas,

Nas chicletes

A fome

 Por matar.

  Zé Onofre

28
Out21

Penafiel 72

Zé Onofre

                     72

 

___/___/978

 

Quando pode acontecer

A uma petiza,

Nascida para a vida,

A fome,

Ou o frio

Então

É o lixo!

 

Esta é como uma flor.

Se lhe tocam as abelhas

E o pólen cai

Germina-o sem medo

Do tempo.

Se as moscas,

Com as suas patas pernas viscosas,

A roubam,

Cedo aborta,

De corola desfolhada,

Outras flores

Nascidas para tudo

Ou para nada.

 

Que tempo

Que lança fora,

Na lixeira,

O viço da vida.

 

Que lixeira a de aqueles,

Que se gabam de serem defensores dos bons costumes

Lhe exploram tudo.

Ou serão os pais,

Que trabalham,

Que deixa atirar as suas flores

À lixeira?

  Zé Onofre

02
Out21

Penafiel 50

Zé Onofre

50

 

30/11/977

 

Natal

Natal.
Que palavra mágica
De enganar com ternura.
Há negociantes
Vendedores de Natal a metro.
Há velhos,
Roucos de silêncios
Nos bancos do jardim.
Há bairros de miséria,
Emparedados
Nas cercanias da opulência.
Há chuva,
Há vento,
Há sol,
Contratempo.
Há neve,
Algodão branco,
Nas montras.
Há casas de penhores
Em esquinas
De ruas esquecidas.
Vê-se lá,
A miséria do povo
À venda, nos mostruários,
As ilusões
Por uns míseros tostões.
Há casas decoradas
Com vermelhos,
Sangue,
Grito abafado
Nos corações,
De quem corre atrás do impossível.
Trabalhadores "apressadas"
Crianças, olhos arregalados
Bocas salivando,
Junto à montra das ilusões.
Há casas coloridas,
Cores arrancadas
À fome do dia a dia
De quem envergonhado,
Vai escondendo a fome que os alimenta.
Há risos,
Sorrisos,
Nas faces.
Há passos
apressados
Nas pedras dos caminhos
Há fúrias incontidas
No fundo das cores.
Há angústia,
Há raiva.
Há gente apressada
Levando amor,
Levando a paz,
Em embrulhos coloridos
Até às casas dos esquecidos da vida.
Bem sei,
É Natal...
Não deveria dizer,
Não deveria contar,
Não deveria expor
A realidade crua do outro lado do Natal.
Deveria guardá-la
No segredo
Do silêncio
Das grades dos sonhos perfumados,
Dos salões
Onde se projecta «este» Natal.

E, contudo,
Um dia fui criança.
Gostava de ir ao musgo,
À relva,
Aos galhos de árvores.
Gostava do presépio
No cantinho da sala,
De me levantar no Dia de manhã
Encontrar lá
Algum rebuçado deixado
Pelo Menino Jesus.
Gostava do presépio
Junto ao altar da Igreja
Que ajudara a fazer.
Gostava da noite "do par ou pernão",
No fim da Ceia,
À volta da lareira.
Gostava das brincadeiras
No largo da Igreja
À espera da Missa do Galo.
(Se me é permitido
Tenho saudades, mas muitas,
Desse Natal.)
Tenho saudades daquele Natal
Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade
- O Natal é comer!
(Por que caminhos te achaste,
Rosário?)
O que aconteceu ao "eu" rapazinho
Que tenho saudades
Das pinhas assadas no braseiro,
Do musgo fofo do monte,
Das brincadeiras na noite mágica
Da Missa do Galo,
Para agora olhar,
As gentes e as ruas,
As montras com neve de algodão,
As casas tremelicantes de luzes,
E sem ânimo,
Entre a saudade e o desespero,
Dizer
"Bem sei
É Natal.

  Zé Onofre

11
Set21

Penafiel 24

Zé Onofre

                  24

 14/07/977

 Era uma vez

Nas longas campinas,

Nos montes e planaltos

Do meu país.

 

Pés descalços

Percorriam

Caminhos desencontrados

Num desacertos de vozes,

Num acorde

Da construção do pão.

 

Rostos envelhecidos

Pela fome ancestral

Vivida na miséria

Ao longo de séculos.

 

Corpos erguidos por fora,

Por dentro dobrados

Por séculos de humilhação,

Vida de pedintes do pão,

Que fizeram brotar das pedras.

 

Era uma vez …

Era Ontem …

É hoje …

E amanhã?

  Zé Onofre

29
Ago21

Penafiel 7

Zé Onofre

                    7

 08/07/977

Todo o texto é uma abertura

O veiculado moral pode trazer um falso humanismo.

Atribuir os feitos “aos grandes” “faz com que se esqueça do esforço e da dor do povo.

Bocage foi uma cigarra massacrada pelas formigas exploradoras de então.

A formiga representa a faceta desumanizada do trabalho.

Não há qualquer literatura inocente e muito menos a Infantil, pois pode trazer a morte de um olhar crítico de amor.

Abaixo a alegria, viva o trabalho escravo. Sem alegria morre-se de fome.

  Zé Onofre

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