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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

28
Abr22

Por aqui e por ali 107

Zé Onofre

               127

 

__/07/__, Penafiel, festa de fim de curso do Magistério de Penafiel

 

Hoje estais em festa.

Pensais que chegastes ao fim

E apenas iniciais o caminho.

 

Amanhã tereis a alegria

Que construirdes.

E parece tão fácil construir a alegria.

 

Encontrareis o perigo

Em cada esquina.

A cada passo tropeçareis

Com o futuro sem saberdes.

Tentareis o equilíbrio e avançareis

Sem terdes coragem de o enfrentardes.

 

Se tiverdes ainda coragem de parar,

De atrás voltardes

E vos restar força para recomeçar,

A alegria será vossa

E em cada dia inaugurareis

Um novo caminho.

  Zé Onofre

17
Abr22

Por aqui e por ali 96

Zé Onofre

                 96

 

996/05/12, visita a uma amiga instalada no asilo, Amarante

 

Aqui estão parados,

Simulando que vivem.

Aqui estão a viver um tempo

Que não existe,

A gastar um sopro 

Que está suspenso.

Aqui estão

Envoltos num passado,

Num presente suspenso

Que não terá futuro.

Aqui estão desertos de sonhos,

Suspensos do tempo,

Ausência do hoje,

Sem possíveis amanhãs.

  Zé Onofre

13
Abr22

Por aqui e por ali 92

Zé Onofre

              92

 

996/02/12, encontro do SPN, CMA, Amarante

 

Está na hora

De olhar o horizonte

E descobrir mais além.

 

Está na hora

De deixarmos de ser comparsas activos

Na destruição do nosso melhor,

A Utopia.

 

Está na hora

De acabar com as negociações,

O futuro não se negoceia,

Cumpre-se

 

Está na hora

De mudar o rumo,

Não de remendar caminhos,

Que está visto não é o caminho.

 

Está na hora

De exigirmos mais e melhor.

De gritarmos bem alto –

Esta não é a escola que respeita os alunos.

Esta não é a escola que satisfaz os pais.

Esta não é a escola que dignifica os professores.

Esta não é a escola que constrói futuros.

Esta é a escola dos sonhos desperdiçados.

 

Está na hora

De edificarmos uma escola nova

E não de nos acomodarmos –

Em opiadas discussões de estatutos e escalões.

E não de negociar os escombros

Da escola que resta.

 

Está na hora

De pensar, escutar e olhar,

De não mais sermos tratados como regateiros

A discutir o preço do linguado.

 

Está na hora

De assumir a nossa dignidade.

Dignidade que não se conquista

Com discussões estéreis

Que nos roubam argumentos

E destroem o orgulho que ainda nos resta,

 

A dignidade conquista-se

Com a exigência de uma escola,

Crítica, experimental e não seguidista

Dos ditames de uma sociedade

Que tudo reduz ao sucesso dos cifrões,

E principalmente aos bens consumidos.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa da escola armazéns de matéria-prima

De meninos com que se fazem chouriços.

Os que não são perfeitos são excluídos

Lançados à máquina do lixo,

Farinha para engorda dos barões da droga.

 

A dignidade conquista-se

Exigindo-se condições

Onde cada um seja cada um

E não a redução ao tipo médio.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa das condições desumanas

De ritmos arbitrários que tudo reduzem

Ao Máximo Divisor Comum.

 

A dignidade conquista-se

Com a recusa da escola sardinha em lata.

Com a recusa da escola-cidade

Onde os professores não conhecem o vizinho do lado,

Quanto mais os habitantes da rua, os alunos.

 

A dignidade conquista-se

Exigindo uma escola que não mais seja

Quatro paredes recheadas de mobiliário

Do mais sofisticado que haja,

Ao mais antiquado e artesanal,

Quadro preto, giz e cuspe.

 

A dignidade conquista-se

Ajudando a construir uma escola,

Onde todos os que lá trabalham

Se despeçam “até amanhã”

Como quem espera o beijo da mãe,

O encontro ansiado com o amigo,

O abraço apertado dos enamorados,

Ou apenas a terra onde “corre o leite e o mel.”

 

A dignidade conquista-se

Vendo “claramente visto” que o rei vai nu.

 

A escola vai nua porque diz –

Sou para todos –

Mas só se o for na rejeição dos inadaptados.

 – Sou obrigatória durante nove anos –

E limita-se a burocratizar pessoas,

A reduzir a estatísticas os alunos.

 

Está na hora

De termos coragem de enfrentar os alunos,

Dizer-lhes, como quem pede perdão,

Tendes razão, abrimos os olhos tarde.

De termos coragem de enfrentar os pais,

Dizer-lhe como quem reconhece uma culpa,

Tendes razão em não confiardes totalmente na escola.

De termos coragem de enfrentar o ministro

E dizer-lhes com toda a clareza necessária,

Este não é o momento para esta discussão.

O problema está para além de estatutos.

O problema está para além das carreiras.

O problema está para além dos escalões.

O problema está para além de mais ou menos tostões.

 

Está na hora

De encararmos os alunos, olhos nos olhos,

E pedir perdão por cada vez que gritaram,

Como quem pede socorro, e nós os calamos.

E pedir-lhes perdão por cada vez que nos chamaram,

E altivamente nem para eles, olhamos.

Perdão por todas as vezes que se atravessaram,

De propósito nos nossos caminhos, e prosseguimos

Altivamente em frente e com a nossa pressa

Vos Arredámos não sabemos para onde.

 

Por favor,

Não mos julgueis com muita severidade.

Tal como vós chamamos e ninguém nos responde,

Apenas um eco repete e distorce até o infinito

O nosso repetido e sentido apelo.

Tal como vós nos sentimos esmagados e trucidados

Por esta escola cega, surda e muda.

 

Vamos então fazer um pacto –

Vamos ajudar-nos mutuamente.

Olhai para nós, não como carrascos,

Mas como amigos.

Olhai para nós, não como iluminados,

Mas tateantes a fazer o caminho.

Olhai para nós não como carcereiros,

Das vossas alegrias e angústias,

Mas como uma janela

Onde vos podeis debruçar

À procura do horizonte.

Olhai para nós

Como seres que entre o medo de errar,

E as certezas de não nos enganarmos,

Vivemos entre horrores e alegrias.

Finalmente, olhai para nós e vede

Que somos pessoas, apenas pessoas,

Como todas as pessoas sujeitas a erro.

 

Pais, também convosco, queremos fazer um pacto.

Antes, porém, julgai-nos com benevolência.

É certo que nem sempre nos entendemos,

E ajudemo-nos na jornada dos vossos filhos.

Ajudai os vossos filhos a descobrir a felicidade

Da descoberta e da conquista.

Não tenhais pressa que os vossos filhos

Tenham tudo, deixai algo, o mais importante,

Para ser a conquista deles.

Deixai que sejam eles a chegar mais longe,

Nem que apenas o mais longe seja ali,

Sim, ali no fim da rua, ao virar da esquina.

 

Senhor ministro,

Por agora prometemos exigir, apenas, esta escola.

 – Pequena,

Onde todos se conheçam pelo nome próprio,

E não pelo terror do quinto E,

Ou pelo filho do João da Esquina,

Ou a s’tora, a fera da matemática.

– Espaçosa,

Onde cada um tenha direito à sua privacidade,

Não se sentir invadido pelos outros.

 – Rica,

Em espaços diferenciados,

Em actividades alternativas,

Que proporcionem a cada um

A realização do ser humano

Em busca da felicidade.

– Exigente

Na crítica e autocrítica,

Nos comportamentos e atitudes,

De cada uma das pessoas que lhe dão corpo.

 

Depois, então, falaremos de remunerações. 

Zé Onofre

03
Abr22

Por aqui e por ali 83

Zé Onofre

                83

 994/10/16

                 I

Que é

Do fogo ardente

Que iluminava o nosso caminho?

Que é

Da fúria

De fazer o futuro ontem?

Que tempo é este

Que levanta barreiras

Onde deveria haver, apenas, sonho e magia?

Que tempo é este

Que tudo macula?

Que tempo é este?

Que tempo,

Sem tempo

Para sonhar mais longe.

                II

Que bom,

Poder olhar o céu

Sem sonhos no olhar.

Que bom,

Poder apreciar a paz

Sem lágrimas nas palavras.

Que bom,

Pisar serenamente

As pedras da calçada.

                III

Quanto mais bom seria,

Incendiar de sonhos

O futuro,

Iluminar de pureza

O caminho,

Semear de flores

A gravidade dos dias.

  Zé Onofre

20
Mar22

Por aqui e por ali 73

Zé Onofre

              73

 

991/04/24, Porto, Hotel Boega, Ação de Formação Ensinar é investigar

 

Toda a iniciação pressupõe os seus feiticeiros.

Os professores são os feiticeiros da escola.

 

Conhecer é dominar.

Conhecer é refletir

Sobre as coisas e as ações.

Conhecer é ir ao porquê das coisas.

 

Somos feiticeiros de uma nova religião.

Só faltam as máscaras.

Andamos à procura delas.

 

Tantas vezes se repete naturalmente.

Naturalmente as crianças falam …

 

O ritual é importante.

Na missa também.

Viva a ortodoxia.

 

Silêncio.

Som magnífico

Que as palavras prostituem

Com cores de pesadelo.

Silêncio,

Digo às paredes que me cercam

Feitas de gritos de pesadelos.

Silêncio.

Quero o silêncio

Da multidão em marcha

À procura do futuro.

 

Há gritos incontidos

No fundo de nós mesmos;

Há choros percorridos

Nas palmas das mãos;

Há raiva incontida

Nas palmas das mãos

Há amor amortalhado

Nas palmas das mãos.

O silêncio em redor

Fecha-nos em grades,

Paredes de Solidão

 

Caminha.

Procura.

Encontrarás os sons, os gritos

Da alegria da vida.

Caminha.

Procura.

Encontrarás a verdade

Da alegria da vida.

Caminha.

Procura.

Acharás sons de alegria nos caminhos

Que trilhas.

Caminha.

Procura.

A verdade

Ainda ninguém a viu.

  Zé Onofre

23
Dez21

Por aqui e por ali 28

Zé Onofre

               28

 

985/10/07, confeitaria Mário, Amarante

 

Tâmega,

Rio de sons

A lembrar o futuro.

Tâmega,

Sons de Inverno

A lembrar o Verão.

Tâmega,

Sons do presente

Lembranças da infância.

Tâmega,

Lágrimas,

Saudades de gente

Que se foi

Nos meandros da vida.

Tâmega,

Imagem do passado,

Ânimo,

Alma para continuar.

Tâmega,

Repouso do dia-a-dia.

  Zé Onofre

 

08
Out21

Penafiel 57

Zé Onofre

                 57

 

11/01/978

 

Ó criança

Perdida

Nos meandros de teias

Em que te metemos.

 

És

Lampejo gritado

Nos sons da noite.

 

És relâmpago

Deslumbrante

De sons em cântico.

 

És

Presente

Espraiado

Nas margens do futuro.

 

Canto-te

Cor florescida

No chão

Semeado de pedras.

 

Canto-te

Som sofrido

No pântano

Semeado de medo.

 

Canto-te

Bem alto

Alegria que te quero

Das minhas mãos.

 

Elevamos-te

Bem alto

Alegria das nossas mãos.

  Zé Onofre               

06
Out21

Penafiel 55

Zé Onofre

                   55

 

09/01/978

 

Não!

Nunca aceitarei

O que me queiram dar

De mão beijada.

Não!

 

Sei!

É difícil acreditar

Nas verdades evidentes.

Sei!

 

Não!

Não creio na simplicidade

Das coisas simples.

Não!

 

Sei!

Os problemas estão

No mais íntimo de nós.

Sei!

 

Ninguém!

 

Ninguém pode afirmar absolutamente

A resposta é esta.

Ninguém!

 

Não!

Não creio em respostas únicas.

Numa só resposta certa.

Não!

 

Não!

Não há respostas erradas.

Há caminhos percorridos.

Não!

 

Direi!

Direi não à primeira resposta

Que atropele as outras.

Direi!

 

Não!

Não aceito respostas dadas.

Essas evitam o caminho para o futuro,

Não!

   Zé Onofre

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