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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

14
Set21

Penafiel 28

Zé Onofre

                  28         

 

DEZ/976

 

Era uma vez um homem e uma mulher.

Ele era um operário.

Ela era uma operária.

Tiveram que ir à cidade.

Foram a pé.

Levavam nas suas mãos a magra comida de uma ceia.

Partiram.

A mulher estava para parir.

Ia amparada no braço do homem.

Sozinhos caminham pela tarde de um dia sereno.

Era noite quando chegaram, derreados e cansados, à cidade.

Era longe a cidade e as pernas curtas.

Procuraram onde passar a noite.

Bateram a todas as portas, em vão, não encontraram.

A mulher, cada vez mais cansada, caía aqui, acolá, ali e mais além.

O homem, desesperado, ganha ânimo e caminha. Tinha que haver uma porta, uma única, que se lhes abrisse.

E apareceu.

O cansaço fez-se descanso numa obra em construção.

Como ladrões entraram.

Como invasores abriram o seu saquitel de onde tiraram o seu magro sustento – pão, queijo e figos.

O cansaço encostou-os às paredes húmidas em construção e logo adormeceram.

Já dormiam na noite escura quando a mulher sentiu que o seu bebé, sangue do seu sangue, iria nascer ali.

Ali, naquele prédio em construção, tendo como luz, apenas, a luz das estrelas distantes.

O bebé nasceu, deu um grito, estava vivo.

Uma criaturinha filha de um operário e de uma operária, de um homem e de uma mulher.

Embalada num carrinho, sacos de cimento por colchão e o manto do pai e da mãe por agasalho.

É uma criatura humana, como outra nascida de um homem e de uma mulher.

Que virará ser humano como um outro qualquer.

E a noite fazia-se dia.

O homem, a mulher, e a criança já partiram.

Já caminhavam pela cidade à fazer a sua vida.

Anoitecia quando chegavam a casa.

E os dias e as noites sucediam-se, até que a criança se fez adulta.

Adulta que sabia qual iria ser o seu futuro.

Adulta que conhecia a vida dos outros.

Adulta que se juntou a outras pessoas adultas.

Pessoas adultas que unidas que acreditam que até as pedras darão pão para que todos o tenham.

Incrédulas, muitas pessoas insultavam-nos de ofenderem a lei dos homens e a lei de Deus.

Aquelas pessoas adultas teimavam, e teimavam chamando por todas as pessoas.

Muitas foram as que as seguiram.

E começaram a acreditar.

Os dias, as semanas, os meses e os anos iam passando, e o número de pessoas aumentava.

Já eram tantas que os poderosos de várias nações, de diversas religiões, de diferentes culturas se sentiram ameaçados.

Todos eles se uniam para destruir aquela força nascente.

Inventaram calúnias.

Diziam que falavam em nome das forças do mal. Que pretendiam acabar com os privilégios dos seus superiores.

Que queriam roubar o pão para o repartirem por todos.

As calúnias, os discursos mentirosos, tantas vezes repetidas levaram algumas pessoas a debandarem. Muitas delas traíram a nova esperança que se erguia.

Um dia, covardemente, mataram numa cruz, aquela criança que um dia nascera num colchão de sacos de cimento.

Hoje, esperamos o dia em que aquele nascimento, igual a tantos outros, não passe de uma memória. Em que as crianças, e os homens e as mulheres não acreditem que houve dias assim.

Então, nesses tempos que virão um dia, será Natal.

14
Ago21

Souto 33

Zé Onofre

           33

 30/04/975

 Horas límpidas,

Serenas, suaves,

Fazem desta vida,

Vida calma.

 

Tempo espelhado

Reflexo sem sentido

Insondável.

Entre o sol e o vento,

As árvores e o céu,

Nestas horas sem tempo,

Levantam-se figuras irreais.

 

Nestas horas,

Inúmeros cadáveres de tempo,

No negrume das sombras,

Ainda uma réstia de luz,

Desperta o movimento,

Que agigantará o sol e vento,

Espelhará no céu e as nuvens

O ideal de um novo Homem.

       Zé Onofre

11
Ago21

Souto 30

Zé Onofre

30

 20/03/975

 Hoje,

Não é hoje,

São mil dias contidos

Numa vontade de quererem ser hoje.

 

Hoje, são milhões de anos

A nós trazidos, a nós agarrados

Por outros hoje, que não foram hoje,

Mas milhões de dias contidos

Numa vontade de quererem ser hoje.

 

Hoje, é uma eternidade

De milhões de hoje.

Hoje que foram milhões de anos

Todos aqui trazidos, a nós colados,

Com outros hoje que não foram hoje,

Que foram milhares de hoje contidos,

Numa vontade de querer ser hoje.

 

Hoje, é o grito da humanidade

Que ao longo de milhões de séculos

Tem evoluído de hoje em hoje,

Que têm sido uma eternidade

De milhões de hoje

Que foram milhões de anos

Aqui trazidos e acorrentados

Nos outros hoje

Que não foram hoje

Que foram mil dias contidos

Numa vontade de quererem ser hoje.

 

Hoje

É o som dum cristal,

Que, sem espaço para cristalizar,

Resolveu nascer amiba,

E iniciar a vida

Que por caminhos imprevisíveis,

Com uma infinidade de contradições

Viu surgir o bicho Homem

Que hoje

Se tenta libertar,

Que tem vindo a descobrir

Que num hoje qualquer

Na plenitude do tempo,

Na largueza do espaço,

Acabará por cristalizar.

  Zé Onofre

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