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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

13
Ago21

Souto 32

Zé Onofre

32

 29/04/975

 Os dias cinzentos e chuvosos

Ficaram ternos e saudosos,

Melancólicos.

As recordações entram de mansinho.

De repente os olhos

Enchem-se de vida, de brilhos

Que iluminam o presente.

 

Aqui, sentado a esta janela,

Ténue fronteira

Entre o ontem e o hoje.

Escorre dela os belos dias de criança.

Dias sempre azuis,

Nem que o céu cinzento negro,

Despejasse águas a cântaros,

Ou enchesse a vida

Com raios e trovões,

Eram sempre azuis.

 

Eram azuis quando rolávamos

Verdes nos campos.

Eram azuis, quando rindo,

Tentávamos um beijo do nosso amor.

Eram azuis

As caras dos amigos

Os brinquedos que inventávamos.

 

Eram azuis

As tardes longas de sol

Era azul,

O sol que se derramava em nós.

Eram azuis

As águas corredias nos regos e riachos.

Era azul

O ralho da mãe

- Se adoeceres

Nem um copo de água te levo à cama. –

 

Azul,

Aquela nossa vida

Saltar de rego em rego,

Construir enormes barragens,

Lagoas como mares,

Pontes, as maiores do mundo

(Três pedras,

Varas caídas da poda

E o cimento, lama)

Obra-prima da engenharia.

Azul

Era o tempo, em que enleados,

Admirávamos a obra feita.

 

Azuis

Eram os sorrisos felizes

Estampados no rosto,

E desfaziam em pó

Os ralhos ternos da mãe.

 

Azul,

Embora esbatido,

É esta melancolia

De espreitar a infância

Pela frincha do tempo.

Azul,

Embora esbatido,

É espreitar os campos,

Ainda cheios de vida,

Agora abandonados

À incúria dos tempos.

 

Vieram os anos,

Olho para dentro de mim

Onde ontem,

Vejo azuis ossos encharcados.

Hoje,

Apenas ossos pesados.

Vieram os anos,

Olho para dentro de mim.

Onde ontem,

Há sombras azuis de amores,

Olhos azuis que eram azuis,

E azuis continuam,

Apesar das lágrimas

Que hoje

Teimam em diluí-los.

 

Nesse azul claro

Uma nova onda nascerá

Sem angústia,

Sem desespero da loucura

Da vã procura.

Nas ruas da solidão

Estará o azul

À minha espera.

   Zé Onofre

13
Jul21

Souto 8

Zé Onofre

                         8

 ___/___/972

 Dias loucos sem tempo

Que esta casa comtempla.

Vida em apodrecimento

Ao longo do tempo.

Alguns momentos,

Poucos,

De alegria

Que não iluminam

O tempo aqui.

Vida

Vivida

Perseguindo o tempo

Que se esvai

Atrás do tempo.

Sinto-me parasita do tempo

Que passa,

Que passou

Do que virá?

Esbanjador do que fui

Parasita

Do que poderia ser.

Maus raios me levem.

Risos,

Gargalhadas,

Palavras entusiasmadas,

Fingimento de felicidade

Há muito jogada no vento

Originado nesta cabeça desnorteada.

Atirei-me para este quarto.

De mãos nuas vim

À procura de sentido

E apenas

Ecos gelados sem vida,

Da minha própria voz,

Dos meus próprios gestos.

Ouço de volta.

Risos,

Choros,

Alegrias,

Tristezas

Só ao longe,

Lá muito longe de mim.

De mim,

Da fingida liberdade que mostro,

Gelo,

Tanto gelo

Que até as pedras das paredes

Esfriam.

Campos verdes

Se espraiam na minha janela.

Regos,

Riachos,

Lagunas de água,

Refletem esta sombra

Que espia pela janela.

Este mesmo ser sombrio

Olha pelo canto da vidraça

Aves em voos artísticos,

Sob o céu azul,

Do nascer ao por do sol.

Vulto escondido,

Atrás da janela aberta,

Escuto conversas

Alegres,

Sublinhadas por risadas,

Palavras tristes

Ditas com lágrimas.

Meu viver

Feito de palavras enganadoras,

De risos postiços.

Tantos “eu”

Escondidos

Nas palavras sentidamente ditas,

Que me perco na sua rede

A descortinar qual deles sou,

Ou se nenhum.

Tanta imagem,

Tanto nada

Que encontro entre os espaços,

Nos sonhos,

Nos ventos,

Nos montes,

Nas fontes,

E quem procuro não está lá.

Não quero acreditar

Na inutilidade da vida que invento,

Na inutilidade em que me transformei.

Em tudo que intento

Está a prova

De quem nada pode,

Nem mudar o rumo da vida.

Sinto-me caído,

Destruído

Por todos e por ninguém

Mas com ajuda minha, sem dúvida.

Eliminado

Por descuido, ou arrogância,

Por engano, ou indiferença,

Ou se por recusa de continuar

Devido ao medo de errar,

Ou só de ouvir um não.

Tento levantar-me do chão

Voar em sonhos

Em que quero acreditar,

Mas sei que deles caírei

À primeira brisa contrária.

Gostava de ter a certeza

Para poder dizer

- Sou o que sou

Porque vós sois o que sois –

E seria nova fuga de mim

Para outro “eu”

Tão inútil, certamente,

Como daquele de que fujo.

De fuga em fuga,

De vai,

Vem,

E volta a ir

Vou-me construindo um nada.

Embrulho-me em mim próprio,

Imaginação do impossível,

No mundo do não sensível,

Na irrealidade.

Pára

Eu enosilhado,

De enunciar palavras loucas,

Que inocentes nascem

Das profundezas da loucura

Que sou.

Que pesadelo este,

Que por palavras incoerentes,

Tenta levar-me ao normal

Quando detesto a normalidade

Que tento fintar

Com palavras loucas.

Raios e trovões,

Aragens e vendavais,

Tempestades e tormentas,

Levai-me

Para onde não tenho coragem

De meter os pés a caminho

Até à fuga final.

Não deixeis de mim,

Nem uma lembrança,

Nem uma impressão digital,

Nem uma pegada,

Nem fotografia, nem som,

Nem registo de nascimento,

Que nem uma sensação   

Que diga falta aqui qualquer coisa.

Que pessoas que aqui entrem

Não sintam os calafrios das paredes.

Não sintam o peso de uma ausência.

Não sintam o calor de alguém que ali tenha vivido.

Intempéries

Se não conseguirdes satisfazer este pedido

De me fazer regressar ao ovo

De que nunca deveria ter saído,

Escrevei num rectângulo desenhado na parede,

Sob esta frase

- Ó incrédulos, o que procurais não existe. –

DEVERIA TER NASCIDO A TANTOS.

EVAPOROU-SE ANTES DOS TANTOS.

NUNCA VIVEU.

 

Zé Onofre

 

 

 

 

 

13
Jul21

Souto 8

Zé Onofre

                         8

 

___/___/972

 

Dias loucos sem tempo

Que esta casa comtempla.

Vida em apodrecimento

Ao longo do tempo.

Alguns momentos,

Poucos,

De alegria

Que não iluminam

O tempo aqui.

Vida

Vivida

Perseguindo o tempo

Que se esvai

Atrás do tempo.

Sinto-me parasita do tempo

Que passa,

Que passou

Do que virá?

Esbanjador do que fui

Parasita

Do que poderia ser.

Maus raios me levem.

Risos,

Gargalhadas,

Palavras entusiasmadas,

Fingimento de felicidade

Há muito jogada no vento

Originado nesta cabeça desnorteada.

Atirei-me para este quarto.

De mãos nuas vim

À procura de sentido

E apenas

Ecos gelados sem vida,

Da minha própria voz,

Dos meus próprios gestos.

Ouço de volta.

Risos,

Choros,

Alegrias,

Tristezas

Só ao longe,

Lá muito longe de mim.

De mim,

Da fingida liberdade que mostro,

Gelo,

Tanto gelo

Que até as pedras das paredes

Esfriam.

Campos verdes

Se espraiam na minha janela.

Regos,

Riachos,

Lagunas de água,

Refletem esta sombra

Que espia pela janela.

Este mesmo ser sombrio

Olha pelo canto da vidraça

Aves em voos artísticos,

Sob o céu azul,

Do nascer ao por do sol.

Vulto escondido,

Atrás da janela aberta,

Escuto conversas

Alegres,

Sublinhadas por risadas,

Palavras tristes

Ditas com lágrimas.

Meu viver

Feito de palavras enganadoras,

De risos postiços.

Tantos “eu”

Escondidos

Nas palavras sentidamente ditas,

Que me perco na sua rede

A descortinar qual deles sou,

Ou se nenhum.

Tanta imagem,

Tanto nada

Que encontro entre os espaços,

Nos sonhos,

Nos ventos,

Nos montes,

Nas fontes,

E quem procuro não está lá.

Não quero acreditar

Na inutilidade da vida que invento,

Na inutilidade em que me transformei.

Em tudo que intento

Está a prova

De quem nada pode,

Nem mudar o rumo da vida.

Sinto-me caído,

Destruído

Por todos e por ninguém

Mas com ajuda minha, sem dúvida.

Eliminado

Por descuido, ou arrogância,

Por engano, ou indiferença,

Ou se por recusa de continuar

Devido ao medo de errar,

Ou só de ouvir um não.

Tento levantar-me do chão

Voar em sonhos

Em que quero acreditar,

Mas sei que deles caírei

À primeira brisa contrária.

Gostava de ter a certeza

Para poder dizer

- Sou o que sou

Porque vós sois o que sois –

E seria nova fuga de mim

Para outro “eu”

Tão inútil, certamente,

Como daquele de que fujo.

De fuga em fuga,

De vai,

Vem,

E volta a ir

Vou-me construindo um nada.

Embrulho-me em mim próprio,

Imaginação do impossível,

No mundo do não sensível,

Na irrealidade.

Pára

Eu enosilhado,

De enunciar palavras loucas,

Que inocentes nascem

Das profundezas da loucura

Que sou.

Que pesadelo este,

Que por palavras incoerentes,

Tenta levar-me ao normal

Quando detesto a normalidade

Que tento fintar

Com palavras loucas.

Raios e trovões,

Aragens e vendavais,

Tempestades e tormentas,

Levai-me

Para onde não tenho coragem

De meter os pés a caminho

Até à fuga final.

Não deixeis de mim,

Nem uma lembrança,

Nem uma impressão digital,

Nem uma pegada,

Nem fotografia, nem som,

Nem registo de nascimento,

Que nem uma sensação   

Que diga falta aqui qualquer coisa.

Que pessoas que aqui entrem

Não sintam os calafrios das paredes.

Não sintam o peso de uma ausência.

Não sintam o calor de alguém que ali tenha vivido.

Intempéries

Se não conseguirdes satisfazer este pedido

De me fazer regressar ao ovo

De que nunca deveria ter saído,

Escrevei num rectângulo desenhado na parede,

Sob esta frase

- Ó incrédulos, o que procurais não existe. –

DEVERIA TER NASCIDO A TANTOS.

EVAPOROU-SE ANTES DOS TANTOS.

NUNCA VIVEU.

 

Zé Onofre

 

 

 

 

 

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