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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

23
Out21

Penafiel 69

Zé Onofre

                  69

 

___/04/978

 

Uma das criaturas

Está

Lá ao fundo

Sentado na cátedra

Bispo da ignorância

E da flatulência.

 

Está

Lá ao fundo

Com ar inteligente

De quem tudo sabe,

Tudo entende

Macaco da sabedoria.

 

Está

Lá no fundo

Sentado

Com seu ar estudado

Pide da inteligência.

 

A outra das criaturas

Falou.

Das baboseiras que disse

Palavras plenas de bafio salazarento

Destilou veneno.

 

A repressão,

Velho bolorento,

É sempre a repressão

Que chicoteias

Em cada palavra silabada.

 

A repressão

Que sibilas

É a tua essência,

Não é vento esporádico

Que sopras por acaso.

 

Olho-vos e oiço-vos.

Desespero da vida

Na dor da morte.

Só a loucura

Na aurora da noite

Me mantém Lúcido.

Vós sois a morte

No jardim dos vivos.

Zé Onofre

05
Out21

Penafiel 54

Zé Onofre

                 54

 

09/01/978

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te

Ó mulher prostituída

Dos verdes anos sem viço.

 

Aproxima-te

Ó velho reformado

Dos bancos do jardim.

 

Aproxima-te

Ó criança trapo

Do bairro de lata.

 

Aproximai-vos e gritai.

Grita,

Mulher prostituída

O teu sexo frio.

 

Grita,

Velho reformado,

Os teus anos gastos

De miséria pura.

 

Grita,

Criança,

A tua fome milenar.

 

Vinde,

Saí da penumbra.

 

Sai,

Mulher prostituída,

Da sombra do teu viver obscuro.

 

Sai,

Velho reformado,

Do banco gasto do jardim público.

 

Sai,

Criança trapo,

Dos farrapos do teu já cansado viver.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Senhora dona Fulana

Dos salões de chá,

Dos bailes de Caridade.

 

Aproxima-te,

Velho ricaço,

Ajoelhado (em cuecas)

Em frente à jovem criada.

 

Aproxima-te

Criança farta, birrenta e aborrecida,

Abonecada pelos caprichos da Mamã.

 

Grita,

Senhora dona Fulana,

A tua inutilidade

Feita caridade em tempos de Natal.

 

Grita,

Velho Ricaço,

O teu moralismo em discursos de altar.

 

Grita,

Criança aborrecidamente farta,

A meninice mimada com a pobreza de outros.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Ó mulher domesticada,

Mãe dos teus filhos.

 

Aproxima-te,

Ó homem libertino,

Corno e corneador dos teus amigos.

 

Aproxima-te,

Ó criança maltratada,

Filha do acaso ou das conveniências.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher domesticada,

A tua vida roubada.

 

Grita,

Ó homem libertino,

Os teus cornos florescidos.

 

Grita,

Ó criança maltratada,

A tua inocência pura.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

 

 

Aproxima-te,

Ó mulher operária,

Construtora e transformadora da vida.

 

Aproxima-te,

Ó homem operário,

Construtor e transformador da vida.

 

Aproxima-te,

Ó criança,

Nascida do amor,

Doado e criado mão na mão.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher operária,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó homem operário,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó criança nascida da alegria,

A felicidade de seres filha do amor.

02
Jul21

Souto 4

Zé Onofre

4

04/07/972

É noite.

Noite e solidão.

Nada de novo,

Sem movimento

Tudo estagnado.

Quero ritmo,

De loucura,

De amor,

Ou de paz.

Quero ritmo

Sem angústias,

Ou lamentações,

Sem tristezas.

Cansado de escrever palavras

Que vão,

Que veem,

Que em círculo fechado rodam.

Palavras

Que vão,

Que veem

Condenadas a carregar

Uma carga,

Eternamente

À procura

Da estabilidade.

Criar ritmos novos

Que me levem

Desta solidão,

Das recordações

Que me impedem de criar futuros impossíveis,

De fugir deste inferno,

De “quem não encontra a vida,

Achará apenas a morte”.

Estou cansado

De curtos circuitos,

Círculos de fogo,

Que me encurralam

Nas prisões do passado,

Queimam

As passagens, para o futuro.

Quero novos ritmos,

Que sejam de indiferença,

De hinos execráveis,

De palavras sem sentido,

Mas que levem a caminhos diferentes.

Quero novos ritmos,

Que só na aparência

Sejam de alegria,

Que de amor

Sejam só palavras,

De amor,

Apenas gritos ao vento.

E se voltasse aos meus castelos,

São de cartas,

Sejam de cartas.

São de areia,

Sejam de areia.

Desfazem-se à mais fina aragem,

Pois que se desfaçam,

Em aves de papel

Em figuras de pó.

Quero regressar ao meu jardim

De onde tudo

Me roubaram,

Onde me perdi.

Num caminho longo,

Num caminho curto,

Ou por veredas desconhecidas.

Percursos vividos sem norte,

Em passos desatinados,

À deriva do tempo,

À deriva no espaço.

Quero partir esta solidão,

Cortar os laços com que amarrei,

O meu próprio rumo.

Quero despedaçar

A rede que teci

Em que me enredei.

Fugir.

Mais uma vez fugir?

  Zé Onofre

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