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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

29
Out21

Penafiel 73

Zé Onofre

                     73

 

___/___/978

 

O método científico na análise da Batata

 

Iª Fase – a preparação.

 

Verificar se é boa a batata.

Esterilizá-la bem esterilizada.

Ter cuidado com a bata

Não vá estar conspurcada.

 

Ter muito cuidado com as mãos.

É necessário que estejam desinfetadas.

Chama-se também atenção

Para as ferramentas a serem usadas.

 

 

A tina, o bisturi, a lamela,

O microscópio, o próprio laboratório

Será mesmo conveniente fechar a janela

Não se vá introduzir algum micróbio.

 

Continuemos o nosso trabalho, então.

Com muito cuidado e leveza,

Rapidez e bom golpe de mão

Descasquemos a batata com destreza.

 

Na tina, em água esterilizada,

Introduzimos a batata a demolhar.

Entretanto na mesa preparada

Meditamos em hipóteses a verificar.

 

IIª fase – a hipótese

 

Que será que a batata tem?

Terá açúcares, sais minerais?

Ou será algo em que ninguém

Pensou ainda jamais?

 

Não! Já sei. Eureka. Descobri.

Começo a ver, então, imagens

Penso aquilo que nunca vi.

Enche-se-me a cabeça de miragens.

 

Será certo o que vejo de repente?

Uma enorme gota de suor

Que cresce constantemente

E se torna cada vez maior?

 

Penso de maneira diferente.

Tento outro , com outro olhar

Já não é só o suor que se pressente,

É também um povo a trabalhar.

 

Vejo Trás-os-Montes. Num relance

Todas as courelas do meu país a correr.

Enche-se-me o peito de ar, fico em transe,

Sinto-me sufocar, nem sei que fazer.

 

IIIª Fase – a verificação

 

Mas não quero crer ainda. Não quero crer.

Corro para a tina, preparo o material.

Pego no microscópio, sempre a correr.

Acalmo os nervos, não vá ver mal.

 

Vi. Vi claramente visto

Sem dúvidas com toda a clareza

Naquele pequeno, minúsculo interstício

Toda a nossa miséria e grandeza.

 

Vi sangue – sangue senhores de escravos.

Vi azorragues, naus e caravelas.

Vi pimenta, canela, noz-moscada, cravo.

Muito mais vi naquela pequena lamela.

  Zé Onofre

19
Jul21

SOUTO 14

Zé Onofre

               14

___/01/974

 No meu laboratório

Onde soam

E ressoam palavras

Ininteligíveis,

Conhecidas,

Significantes,

Desconhecidas,

Insignificantes

Que gélidas ressuam pelas paredes

Deste quarto só.

No meu laboratório,

Invento palavras

Para descrever uma outra realidade,

Por onde flutuo.

Quando me retiro

Para o meu laboratório

Solto as palavras

Dos seus significados

Moldo-as a meu gosto,

Ora violentando-as,

Ora acariciando-as,

Ora matando-as,

Ora fazendo-as ressuscitar

Em odes,

Ou odres.

No meu laboratório,

A vida

Transforma-se,

Morre e renasce,

Ao ritmo de palavras

Que torço e retorço

A meu bel-prazer.

    Zé Onofre    

 

 

 

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