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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

12
Dez21

Por aqui e por ali 17

Zé Onofre

               17

 

982/04/01

 

Se me permite,

Minha senhora.

Eu

Falo-lhe em cães,

Gatos e coelhos,

Milho e centeio,

Vindimas e desfolhadas

Porque, raios

E carga de água,

A senhora me fala

De meninos bem comportados?

Porque me fala

Em príncipes encantados,

Ou não.

A mim, pobre criança,

Que palmilho

Descalço

Nunca as lonjuras do sonho,

Sempre as pedras ásperas do caminho?

Fala-me

Do que não entendo

E nunca dos montes e dos ninhos

Dos campos verdes onde me rebolo

Nas tardes amenas da Primavera,

Enquanto a vaca,

Pachorrenta vaca pasta.

 

Fala-me de casas,

De janelas

E não da lonjura dos horizontes

Lá,

Onde o verde dos pinheiros,

E o azul do céu, se misturam.

Onde o vento sopra forte

Em Agosto.

Lá onde os passarinhos voam

Em asas de sonho!

Lá,

A beleza,

O sonho

Voam

Em planuras de Liberdade.

 

Porque me fala

De grades,

Paredes,

Prisões,

A mim que sou livre,

Travesso,

(Assim o diz)

E gosto de movimento!

 

Porquê?

 

A srª professora fala-me,

Fala-me,

De letras, e sílabas e palavras,

Ou de palavras, sílabas e letras.

Srª professora

Ajude-me a falar,

A falar,

Sobre o meu porco morto.

      Zé Onofre

01
Nov21

Daqui e por ali 2

Zé Onofre

                    2

 

1979/11/14

 

Mulher

Nossa irmã

Companheira.

Fizemos-te

Objeto,

Adorno,

Enfeite,

Propriedade,

Jarra florida.

Mãe,

Esposa,

Amante.

Mulher,

Minha irmã

Companheira.

Mulher,

Cidadã.

 

Só,

Emoldurada numa casa,

Abandonada,

Retirada da vida.

Roubamos-te a vida

A ti

Que dás a vida.

Roubamos-te a existência,

Tu

Que és existência.

Proibimos-te

A vida,

O ser,

O existir.

Amarramos-te,

Tu

Que és a liberdade.

Mulher

Não és sacrifício,

És cidadã.

 

Isolada,

 Fantasma  do passado,

Medo,

Sacrifício,

Recusa,

Abandono,

Doação.

Mulher

És cidadã.

Mulher,

Minha irmã,

Companheira.

 

Lixeira,

Essa solidão em que vives.

Lixeira,

Essa distância em que ficas.

Lixeira,

Essa lonjura do mundo.

Lixeira,

Esse fundo com que te confundes.

Lixeira,

Essa jarra que maquinalmente arranjas.

Lixeira,

A espera que fazes todos os dias.

Lixeira,

Esse tempo que vives adormecida.

Lixeira,

O desinteresse com que te entregas.

Lixeira,

Essa tua voz conformada.

Lixeira,

A cabeça que manténs baixa.

Lixeira,

A tua humanidade ofendida.

Lixeira,

A humilhação a que te sujeitamos.

Lixeira,

A tua vida de sujeição.

 

Flor

Serás, um dia.

Tu mesma,

Plena,

Humanizada.

Mulher,

Flor

Serás, amanhã.

  Zé Onofre

 

25
Ago21

Penafiel 1-2-3

Zé Onofre

        1

16/03/976

 Português,

Povo.

Grito Vermelho,

Liberdade.

2

23/03/976

 O homem das cavernas.

A caverna dos homens.

O homem

E a caverna,

Princípio.

3

14/06/76

 Português

Grito de sol

Num mar de trevas.

Grito,

Uivo,

Gemido,

Lamúria.

Português,

Terra,

Sangue,

Fertilidade,

Vida,

Mar,

Sol,

De angústias,

Mitos

E vitórias.

  Zé Onofre

22
Ago21

Souto 39 (A brincar aos poemas de Amor)

Zé Onofre

39

                SET/975

                     I

Quando encontrei os teus olhos,

O teu corpo,

E a tua vida,

Antevi um novo dia.

Nunca esquecerei o momento             

Em que te encontrei.

Para sempre ao vento

De paixão cantarei.

Quando encontrei os teus olhos,

Antevi um novo dia.

Contarei do teu olhar,

Da tua boca a sorrir,

Dos teus cabelos doirados,

Loiro sol a sorrir.

Quando encontrei os teus olhos

Antevi um novo dia

                   II

Lembro com saudade

A tua presença serena

Que nos dias de liberdade

Vivíamos em comunhão plena.

 

Lembro com saudade,

Única coisa que ficou,

Dos dias de felicidade

De quem tanto amou.

 

Lembro com saudade

O que ficou por te dizer.

Perdi a oportunidade

Não sei o que fazer,

 

Lembro com saudade

Teus lábios, o teu sorriso

O teu olhar de lealdade.

Até penso que perdi o siso.

  Zé Onofre

06
Ago21

Souto 23

Zé Onofre

            23

11/02/975

 São eternos os dias?

São longos os minutos?

São instantes vividos.

São momentos vividos

Em tempos desiguais.

São momentos

De perguntas banais,

De respostas inesperadas,

Bons ou maus,

Os instantes que me imortalizarem,

Ou não,

Têm a minha assinatura,

Ninguém poderá usurpá-los.

Com estes momentos plenamente vividos,

Gravados com os gestos,

Com as palavras

Que dirão ao tempo e ao mundo

- Foram vividos por mim,

Com a minha liberdade

Por minha vontade

Livre de peias e amarras,

Sem censura que os tenham impedido.

   Zé Onofre

13
Jul21

Souto 8

Zé Onofre

                         8

 ___/___/972

 Dias loucos sem tempo

Que esta casa comtempla.

Vida em apodrecimento

Ao longo do tempo.

Alguns momentos,

Poucos,

De alegria

Que não iluminam

O tempo aqui.

Vida

Vivida

Perseguindo o tempo

Que se esvai

Atrás do tempo.

Sinto-me parasita do tempo

Que passa,

Que passou

Do que virá?

Esbanjador do que fui

Parasita

Do que poderia ser.

Maus raios me levem.

Risos,

Gargalhadas,

Palavras entusiasmadas,

Fingimento de felicidade

Há muito jogada no vento

Originado nesta cabeça desnorteada.

Atirei-me para este quarto.

De mãos nuas vim

À procura de sentido

E apenas

Ecos gelados sem vida,

Da minha própria voz,

Dos meus próprios gestos.

Ouço de volta.

Risos,

Choros,

Alegrias,

Tristezas

Só ao longe,

Lá muito longe de mim.

De mim,

Da fingida liberdade que mostro,

Gelo,

Tanto gelo

Que até as pedras das paredes

Esfriam.

Campos verdes

Se espraiam na minha janela.

Regos,

Riachos,

Lagunas de água,

Refletem esta sombra

Que espia pela janela.

Este mesmo ser sombrio

Olha pelo canto da vidraça

Aves em voos artísticos,

Sob o céu azul,

Do nascer ao por do sol.

Vulto escondido,

Atrás da janela aberta,

Escuto conversas

Alegres,

Sublinhadas por risadas,

Palavras tristes

Ditas com lágrimas.

Meu viver

Feito de palavras enganadoras,

De risos postiços.

Tantos “eu”

Escondidos

Nas palavras sentidamente ditas,

Que me perco na sua rede

A descortinar qual deles sou,

Ou se nenhum.

Tanta imagem,

Tanto nada

Que encontro entre os espaços,

Nos sonhos,

Nos ventos,

Nos montes,

Nas fontes,

E quem procuro não está lá.

Não quero acreditar

Na inutilidade da vida que invento,

Na inutilidade em que me transformei.

Em tudo que intento

Está a prova

De quem nada pode,

Nem mudar o rumo da vida.

Sinto-me caído,

Destruído

Por todos e por ninguém

Mas com ajuda minha, sem dúvida.

Eliminado

Por descuido, ou arrogância,

Por engano, ou indiferença,

Ou se por recusa de continuar

Devido ao medo de errar,

Ou só de ouvir um não.

Tento levantar-me do chão

Voar em sonhos

Em que quero acreditar,

Mas sei que deles caírei

À primeira brisa contrária.

Gostava de ter a certeza

Para poder dizer

- Sou o que sou

Porque vós sois o que sois –

E seria nova fuga de mim

Para outro “eu”

Tão inútil, certamente,

Como daquele de que fujo.

De fuga em fuga,

De vai,

Vem,

E volta a ir

Vou-me construindo um nada.

Embrulho-me em mim próprio,

Imaginação do impossível,

No mundo do não sensível,

Na irrealidade.

Pára

Eu enosilhado,

De enunciar palavras loucas,

Que inocentes nascem

Das profundezas da loucura

Que sou.

Que pesadelo este,

Que por palavras incoerentes,

Tenta levar-me ao normal

Quando detesto a normalidade

Que tento fintar

Com palavras loucas.

Raios e trovões,

Aragens e vendavais,

Tempestades e tormentas,

Levai-me

Para onde não tenho coragem

De meter os pés a caminho

Até à fuga final.

Não deixeis de mim,

Nem uma lembrança,

Nem uma impressão digital,

Nem uma pegada,

Nem fotografia, nem som,

Nem registo de nascimento,

Que nem uma sensação   

Que diga falta aqui qualquer coisa.

Que pessoas que aqui entrem

Não sintam os calafrios das paredes.

Não sintam o peso de uma ausência.

Não sintam o calor de alguém que ali tenha vivido.

Intempéries

Se não conseguirdes satisfazer este pedido

De me fazer regressar ao ovo

De que nunca deveria ter saído,

Escrevei num rectângulo desenhado na parede,

Sob esta frase

- Ó incrédulos, o que procurais não existe. –

DEVERIA TER NASCIDO A TANTOS.

EVAPOROU-SE ANTES DOS TANTOS.

NUNCA VIVEU.

 

Zé Onofre

 

 

 

 

 

13
Jul21

Souto 8

Zé Onofre

                         8

 

___/___/972

 

Dias loucos sem tempo

Que esta casa comtempla.

Vida em apodrecimento

Ao longo do tempo.

Alguns momentos,

Poucos,

De alegria

Que não iluminam

O tempo aqui.

Vida

Vivida

Perseguindo o tempo

Que se esvai

Atrás do tempo.

Sinto-me parasita do tempo

Que passa,

Que passou

Do que virá?

Esbanjador do que fui

Parasita

Do que poderia ser.

Maus raios me levem.

Risos,

Gargalhadas,

Palavras entusiasmadas,

Fingimento de felicidade

Há muito jogada no vento

Originado nesta cabeça desnorteada.

Atirei-me para este quarto.

De mãos nuas vim

À procura de sentido

E apenas

Ecos gelados sem vida,

Da minha própria voz,

Dos meus próprios gestos.

Ouço de volta.

Risos,

Choros,

Alegrias,

Tristezas

Só ao longe,

Lá muito longe de mim.

De mim,

Da fingida liberdade que mostro,

Gelo,

Tanto gelo

Que até as pedras das paredes

Esfriam.

Campos verdes

Se espraiam na minha janela.

Regos,

Riachos,

Lagunas de água,

Refletem esta sombra

Que espia pela janela.

Este mesmo ser sombrio

Olha pelo canto da vidraça

Aves em voos artísticos,

Sob o céu azul,

Do nascer ao por do sol.

Vulto escondido,

Atrás da janela aberta,

Escuto conversas

Alegres,

Sublinhadas por risadas,

Palavras tristes

Ditas com lágrimas.

Meu viver

Feito de palavras enganadoras,

De risos postiços.

Tantos “eu”

Escondidos

Nas palavras sentidamente ditas,

Que me perco na sua rede

A descortinar qual deles sou,

Ou se nenhum.

Tanta imagem,

Tanto nada

Que encontro entre os espaços,

Nos sonhos,

Nos ventos,

Nos montes,

Nas fontes,

E quem procuro não está lá.

Não quero acreditar

Na inutilidade da vida que invento,

Na inutilidade em que me transformei.

Em tudo que intento

Está a prova

De quem nada pode,

Nem mudar o rumo da vida.

Sinto-me caído,

Destruído

Por todos e por ninguém

Mas com ajuda minha, sem dúvida.

Eliminado

Por descuido, ou arrogância,

Por engano, ou indiferença,

Ou se por recusa de continuar

Devido ao medo de errar,

Ou só de ouvir um não.

Tento levantar-me do chão

Voar em sonhos

Em que quero acreditar,

Mas sei que deles caírei

À primeira brisa contrária.

Gostava de ter a certeza

Para poder dizer

- Sou o que sou

Porque vós sois o que sois –

E seria nova fuga de mim

Para outro “eu”

Tão inútil, certamente,

Como daquele de que fujo.

De fuga em fuga,

De vai,

Vem,

E volta a ir

Vou-me construindo um nada.

Embrulho-me em mim próprio,

Imaginação do impossível,

No mundo do não sensível,

Na irrealidade.

Pára

Eu enosilhado,

De enunciar palavras loucas,

Que inocentes nascem

Das profundezas da loucura

Que sou.

Que pesadelo este,

Que por palavras incoerentes,

Tenta levar-me ao normal

Quando detesto a normalidade

Que tento fintar

Com palavras loucas.

Raios e trovões,

Aragens e vendavais,

Tempestades e tormentas,

Levai-me

Para onde não tenho coragem

De meter os pés a caminho

Até à fuga final.

Não deixeis de mim,

Nem uma lembrança,

Nem uma impressão digital,

Nem uma pegada,

Nem fotografia, nem som,

Nem registo de nascimento,

Que nem uma sensação   

Que diga falta aqui qualquer coisa.

Que pessoas que aqui entrem

Não sintam os calafrios das paredes.

Não sintam o peso de uma ausência.

Não sintam o calor de alguém que ali tenha vivido.

Intempéries

Se não conseguirdes satisfazer este pedido

De me fazer regressar ao ovo

De que nunca deveria ter saído,

Escrevei num rectângulo desenhado na parede,

Sob esta frase

- Ó incrédulos, o que procurais não existe. –

DEVERIA TER NASCIDO A TANTOS.

EVAPOROU-SE ANTES DOS TANTOS.

NUNCA VIVEU.

 

Zé Onofre

 

 

 

 

 

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