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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

19
Abr22

Por aqui e por ali 97

Zé Onofre

              97

 

996/05/12

 

                I

 

Quando, de repente,

O último gesto for feito,

Apenas se ouvirá o silêncio.

Um silêncio nosso,

Que o vento há de soprar,

O mar bramir,

E as estrelas continuarem.

Seremos, então,

Poeira cósmica,

Frio interestelar,

Pó no vento,

Gota de água no mar.

Que o vento há de soprar,

Depois do último gesto se executar.

 

                II

 

Quando a loucura

Se desatar em chamas

E a razão for vencida pelo medo,

Apenas teremos tempo de abrir

E já não voltar a fechar os olhos.

Quando a loucura chegar

Diremos apenas o som do ar.

Zé Onofre

23
Out21

Penafiel 69

Zé Onofre

                  69

 

___/04/978

 

Uma das criaturas

Está

Lá ao fundo

Sentado na cátedra

Bispo da ignorância

E da flatulência.

 

Está

Lá ao fundo

Com ar inteligente

De quem tudo sabe,

Tudo entende

Macaco da sabedoria.

 

Está

Lá no fundo

Sentado

Com seu ar estudado

Pide da inteligência.

 

A outra das criaturas

Falou.

Das baboseiras que disse

Palavras plenas de bafio salazarento

Destilou veneno.

 

A repressão,

Velho bolorento,

É sempre a repressão

Que chicoteias

Em cada palavra silabada.

 

A repressão

Que sibilas

É a tua essência,

Não é vento esporádico

Que sopras por acaso.

 

Olho-vos e oiço-vos.

Desespero da vida

Na dor da morte.

Só a loucura

Na aurora da noite

Me mantém Lúcido.

Vós sois a morte

No jardim dos vivos.

Zé Onofre

16
Out21

Penafiel 65

Zé Onofre

                   65

 

06/03/978

 

Que raiva

A perpassar pelos meus dedos.

Que raiva

Nas entranhas.

Que raiva,

Que loucura,

Feito vazio

Nestas horas amargas

Dum sentido por viver.

Que raiva lancinante

Nas palavras caladas

Dentro do vazio

Das horas que passam.

Lá fora, o sol.

Lá fora, os homens.

Nós aqui

Quedos,

Hirtos,

Sem som,

Nem tom,

Em horas perdidas

Pela lonjura de paredes

Frias.

A vida está lá fora.

 Zé Onofre

08
Set21

Penafiel 18

Zé Onofre

         18

09/05/976                

 Olá!

Viva loucura

Do tempo que passa,

Viva!

Olá!

Viva a loucura

Do espaço que está.

Viva!

Olá!

Viva a loucura

Dum tempo

Dum espaço

Viva!

Olá!

      Zé Onofre

04
Ago21

Souto 20 e 21

Zé Onofre

          20

17/12/974

                 I

São extensas as noites.

São alegres os dias.

São frias as alegrias.

São tristes as noites.

Sempre me procuro

Nessas teias

Como um fantasma

À procura desesperado

De materialidade.

Procuro nas lonjuras,

Em lugares escuros

Sem me encontrar.

A sombra,

Projectada pela imagem

Que os outros percebem

De mim.

Entre alegria,

Tristezas

Construo-me

De um talvez distante

Futuro.

           II

Nesse dia futuro,

Portanto outrem diferente,

Vislumbro, por entre a névoa,

O que gostaria de ser.

Leve,

Flutuando nas ideias,

Que agora me pesam

Como um fardo,

Ou como um castigo,

Da ousadia

De querer ser eu em verdade.

Nas palavras,

Nos actos,

Nas incertezas,

Quero ser eu

Agora no presente,

Que ainda não é futuro,

Me prende,

Qual maldição,

Ao passado,

Longa galeria de vitórias,

Derrotas,

De incertezas.

         III

No passado

Encontro-me bisonho,

Irritável,

Irritante,

Pesada herança

Do que sou,

Do que vivo.

De lá de trás

Vem uma mágoa

Por cada segundo morto.

O ontem

Mistura-se com o hoje

Baralha-me o amanhã

E no espelho dos outros

Vejo-me fantasma.

Mas um mérito tem

É a imagem que eu,

Com loucura,

Ou com lucidez enviesada,

Pari.

Zé Onofre

         21

 10/01/975

                        I

 Por caminhos,

Velhos,

Ou novos,

Ou por inventar,

Tento viver a vida

Que agora será nova.

Se não for perdida,

As pessoas ladrar-ma-ão 

Mas vivê-la-ei

Longamente

Conforme quero

E não segundo padrões convencionais.

Hei-de vivê-la

Porque minha

E eu próprio a construo.

Que me importa que a ladrem?

Que a ladrem,

Que a achem risível,

Vou vivê-la.

Vou construí-la

De acordo com os meus projectos,

Apesar dos vossos cochichos

Que já fazem parte da minha vida,

Já me são essenciais.

Sois vós que me dais alento.

Em cada risada,

Em cada dentada 

Confirmais que é este o meu caminho.

Se o olhais com desdém

É porque é meu

E não é vosso,

E não tendes coragem de criar o vosso.

                          II

Um caminho,

Caminho velho,

Novo caminho,

Delineio-o como quero,

Vivo-o com o meu sangue,

Com lágrimas,

Com esforço,

Com alegrias.

Dizeis que é um erro.

O erro não existe,

São os marcos da caminhada,

Que apontam em frente.

Só um caminho,

Por muitos calcorreado,

Dispensa os erros,

Mas rouba a alegria

De o fazermos com a nossa vida

De o moldar com as nossas mãos.

Reconhecer o erro

Não é arrependimento,

É viver a vida

E saber que se vive.

E vós sabeis que viveis?

No dia que entrar pelo vosso caminho

Então ride perdidamente.

O louco morreu.

       Zé Onofre

 

 

 

02
Ago21

Souto 18

Zé Onofre

               18

 05/12/974

              I

 Sinto uma dor insofrida,

Vaga,

Em parte incerta de mim.

A inconsciência,

Tortura iminente

Que nasce e vive,

Se prolonga e morre,

Em algum lugar de mim.

Todos os dias

Esta loucura perdida

Ressurge

De dias estropiados,

De factos esquecidos,

Ou de desvios da vida.

Esta tortura certa

Que me atravessa cada dia

Vinda da incerteza

De saber se alguma vez

Haverá a ressurreição da esperança,

Haverá um nascer novo

De um dia diferente dos ontens,

De um eu diferente de todos os passados.

                      II

São horas

Muitas ou poucas,

Loucas ou curtas,

Impensadas,

Vividas ao acaso

Em ruas que desconheço,

Mas conhecidas de alguém.

                    III

Imaginação fértil

Rica em derrotas

Rica em vitórias.

Já nem distingo

Derrotas de vitórias,

Ou se as invento.

Se acontecem e se sucedem

Ou apenas vivem só em mim.

                        IV

Vivo na corda bamba

Num desequilíbrio impossível,

Dinâmico, constante,

Resultante da luta

Entre a realidade frustrante

E a imaginação galopante.

De um pensamento morto,

Ou de uma realidade moribunda.

     Zé Onofre

 

 

06
Jul21

Souto 7

Zé Onofre

7

11/07/972

                   I

Que é feito do meu poema?

(Do poema que sonhei,

Só mesmo sonhado poderia ser meu.)

Poema tão lindo,

Tão gritantemente lindo.

Lancinante

De ódio,

De morte,

De azar,

De loucura.

Que é do sonho

Do poema do sonho

Que sonhei

No meio da febre,

Breve sonho.

                    II

Perdido.

Perdido de quem?

Perdido do quê?

Perdido desde quando?

Perdido onde?

Perdido para quê?

Perdido,

Perdido de mim mesmo.

Tudo me foi roubado.

(Mas quê,

Se nada sou,

Se nada tenho.

Até mesmo o poema

Nascido num sonho de febre

Não é meu.)

                      III

Vestido de lágrimas,

Uma a uma caídas

Lenta, lentamente,

Mais lentas,

Que o passar lento dos segundos

(Segundos ou anos?)

Tudo lento,

Como um relógio parado

E sou eu esse relógio.

                IV

As lágrimas caídas,

Ping Ping Ping

Gotas de um teto calcário

Esculturando estalactites,

Seres fantasmagóricos,

Viventes no fundo de grutas,

Nuas e frias.

Grutas que as lágrimas

Caindo uma a uma, 

Dos meus olhos solitários,

Criam no fundo de mim

Onde me escondo.

                 V

As minhas lágrimas

Tristes,

Somente lágrimas

De um perdido,

Há tantos anos perdidos,

Sem encontrar

Seja o que for,

Que nem eu sei o que procuro.

                   VI

As lágrimas

Uma a uma caídas,

Caindo há tanto tempo,

Despedem-se de mim,

Correndo pelo chão,

Até um largo lago,

Um mar

De ondas revoltas,

Batendo nas rochas negras,

Cobertas de algas,

Escorrendo espumas

De sal,

De solidão. 

                     VII

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos

De Olhares indefinidos,

Fixos

Num ponto para além de todos,

Para além das palavras,

Para além dos ecos do meu peito,

Das saudades que carrego,

Nem sei desde quando.

                      VIII

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos,

Palavras repetidas, sempre repetidas

Na longa caminhada do deserto

Em que me fiz.

Dúvida.

Incerteza.

Tristeza.

Perdido.

Desnorteado.

Ontem.

Amanhã.

Amor.

Caminho.

Paz.

Longe.

Dentro.

Desencanto.

Desiludido

Loucura.

                    IX

As lágrimas

Uma a uma caídas

Dos meus olhos

Tristes,

Apagadas

Pelas curvas da vida.

Caídas,

Da longa bacia do meu olhar,

Lápide comemorativa

De cada morte que vivi,

Pela tortuosidade do ser.

Saídas do bosque

Sombrio

Dos meus pensamentos emaranhados

Que se atropelam

   Zé Onofre

01
Jul21

Souto 3

Zé Onofre

3

16/03/972

 Quis um dia

Fazer versos rimados,

Aos molhos espalhados,

De amor,

De melancolia.

Apenas vocábulos estragados,

De amores falhados,

A minha mão escrevia.

Um dia,

Num caderno esfarrapado,

Foi encontrado de amor

Uma elegia.

Que pavor!

Aquela versalhada pífia,

Tinha sido por mim desenhada

Naquelas folhas rasgadas.

Que loucura!

Amor em poesia…

Que fartura de palavras ridículas.

Porém, palavras ridículas

De amor

Que criatura,

Com o despertar dos quinze anos,

Não escreveria?

Que rimas banais,

Nada originais,

Apenas as usuais

Em poemas dos quinze anos.

Que estatura,

Que figura,

Que olhos castanhos,

Que cabelos tamanhos,

Que pernas bem torneadas,

Que braços bem desenhados!

Palavras, apenas palavras,

Que continuam a desenhar traços.

Os peitos?

Mais que perfeitos.

A boca?

Pequena e mimosa.

Os lábios?

“Cereja vermelha”.

Toda ela,

Dos longos cabelos,

Aos pequenos pés ,

Formosa

Zé Onofre

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