Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

14
Out21

Penafiel 63

Zé Onofre

                  63

 

03/03/978

 

Solidão

É ter o direito de dizer a nossa palavra

E calá-la.

É ter espaço para a gritar

E não o aproveitar.

É ter pernas

E não querer andar.

É ter olhar

E não querer ver.

 

Solidão

É o diz-se, diz-se

Das mesas do café.

É o murmúrio

Nos recantos dos corredores.

É ter a luz acesa

E apaga-la.

 

Solidão

É ter o dever de falar

E calar.

É ter o dever de ocupar o espaço

E abandoná-lo.

É ter o dever de andar

E amarrar as pernas.

É o dever de olhar em frente

E baixar os olhos.

 

Solidão

É querer estar só.

São estas paredes cheias

Do silêncio das nossas vozes.

É vazio gritado

De murmúrios.

É o sussurro bichanado

Ao ouvido do teu amigo.

 

Solidão

É ter o dever de estar presente

E fugir.

É direito de estar

E não o usar.

    Zé Onofre

 

 

09
Out21

Penafiel 58

Zé Onofre

                  58

 

17/01/978

 

Para ti,

Pequena cigana,

De gelado na boca

Com uma criança ao colo,

O meu obrigado.

 

O meu obrigado

Pela luz das coisas que me dás.

 

O meu obrigado,

Pela fúria

Que me percorre.

 

Obrigado

Pelo desprezo

Com que me olhas.

 

Obrigado.

   Zé Onofre

12
Set21

Penafiel 26

Zé Onofre

             26

 

10/06/976

 

A vida é feita de estranhos lumes,

Claridades e negrumes,

Luz contrastes,

Lâminas e gumes.

A vida é feita de vãs quimeras,

Sonhos e pesadelos,

Adormeceres-despertares,

Invernos e Primaveras.

A vida é um sonho sonhado

Ao acaso num caminho

É criar um passarinho

Numa gaiola sem grades

É correr de águas livres

Num ribeiro sem margens.

A vida é querer ser livre

Entre grades e prisões.

É criar com carinho

O fim das cadeias.

É não ter ilusões

De individuais salvações.

A vida, somos eu e tu,

Cada qual com as suas limitações,

Presos nas mesmas cadeias,

Trazendo nas nossas mãos

A vontade e a certeza

De derrubar todas as prisões.

A vida é feita de estranhos lumes

Claridades e negrumes

Luz e contrastes

Lâminas e gumes.

 Zé Onofre