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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

19
Abr22

Por aqui e por ali 97

Zé Onofre

              97

 

996/05/12

 

                I

 

Quando, de repente,

O último gesto for feito,

Apenas se ouvirá o silêncio.

Um silêncio nosso,

Que o vento há de soprar,

O mar bramir,

E as estrelas continuarem.

Seremos, então,

Poeira cósmica,

Frio interestelar,

Pó no vento,

Gota de água no mar.

Que o vento há de soprar,

Depois do último gesto se executar.

 

                II

 

Quando a loucura

Se desatar em chamas

E a razão for vencida pelo medo,

Apenas teremos tempo de abrir

E já não voltar a fechar os olhos.

Quando a loucura chegar

Diremos apenas o som do ar.

Zé Onofre

01
Nov21

Daqui e por ali 2

Zé Onofre

                    2

 

1979/11/14

 

Mulher

Nossa irmã

Companheira.

Fizemos-te

Objeto,

Adorno,

Enfeite,

Propriedade,

Jarra florida.

Mãe,

Esposa,

Amante.

Mulher,

Minha irmã

Companheira.

Mulher,

Cidadã.

 

Só,

Emoldurada numa casa,

Abandonada,

Retirada da vida.

Roubamos-te a vida

A ti

Que dás a vida.

Roubamos-te a existência,

Tu

Que és existência.

Proibimos-te

A vida,

O ser,

O existir.

Amarramos-te,

Tu

Que és a liberdade.

Mulher

Não és sacrifício,

És cidadã.

 

Isolada,

 Fantasma  do passado,

Medo,

Sacrifício,

Recusa,

Abandono,

Doação.

Mulher

És cidadã.

Mulher,

Minha irmã,

Companheira.

 

Lixeira,

Essa solidão em que vives.

Lixeira,

Essa distância em que ficas.

Lixeira,

Essa lonjura do mundo.

Lixeira,

Esse fundo com que te confundes.

Lixeira,

Essa jarra que maquinalmente arranjas.

Lixeira,

A espera que fazes todos os dias.

Lixeira,

Esse tempo que vives adormecida.

Lixeira,

O desinteresse com que te entregas.

Lixeira,

Essa tua voz conformada.

Lixeira,

A cabeça que manténs baixa.

Lixeira,

A tua humanidade ofendida.

Lixeira,

A humilhação a que te sujeitamos.

Lixeira,

A tua vida de sujeição.

 

Flor

Serás, um dia.

Tu mesma,

Plena,

Humanizada.

Mulher,

Flor

Serás, amanhã.

  Zé Onofre

 

08
Out21

Penafiel 57

Zé Onofre

                 57

 

11/01/978

 

Ó criança

Perdida

Nos meandros de teias

Em que te metemos.

 

És

Lampejo gritado

Nos sons da noite.

 

És relâmpago

Deslumbrante

De sons em cântico.

 

És

Presente

Espraiado

Nas margens do futuro.

 

Canto-te

Cor florescida

No chão

Semeado de pedras.

 

Canto-te

Som sofrido

No pântano

Semeado de medo.

 

Canto-te

Bem alto

Alegria que te quero

Das minhas mãos.

 

Elevamos-te

Bem alto

Alegria das nossas mãos.

  Zé Onofre               

17
Jul21

Souto 13

Zé Onofre

13

 23/01/974

Vontade de me mostrar

Um ser eu diferente.

Possesso de uma vontade

De viver ao longo das horas mortas,

Flutuar ao saber de correntes inimagináveis.

Deixar as quatro paredes,

Sempre quatro paredes,

Ainda que no alto do monte,

Encarrapitado no mais alto penedo,

Sob um céu cinzento pronto a desabar em água,

Rodeado de horizontes

Sem limites.

Sentir o vento Norte

Na manhã gélida clara de sol,

Que me rodopia e enrola,

Fazendo-me viver distâncias,

Ancorado no meu quarto,

Mostrando-me infinitos,

Inalcançáveis,

Montado no seu dorso 

Anunciando liberdades infinitas,

Galopando por vales e planícies.

Lembrar o vento primaveril,

Nas manhãs frescas ao amanhecer,

Ondular nas searas verdes do centeio,

Onde o sol nascente refratado no orvalho,

Faz pinturas abstratas de rara tonalidade.

Voltar a ver-me refletido

Nas águas paradas de lagoa do rio,

Viver sonhos turbulentos  

Capazes de romper o desespero de ser este, eu,

Que se amarra neste quarto,

Com medo de viver.

  Zé Onofre

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