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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

05
Fev23

Rebusco 17-18

Zé Onofre

               17

 

091/05/15

 

Do Mundo

Eu observo.

Eu registo.

Eu comunico.

Eu critico.

Eles criticam.

Eu observo.

Eu critico.

Eu transformo.

Eu comunico.

Eu deduzo.

Eu recrio.

Eu conceptualizo.

 

                 18

 

091/05/16

 

Falamos, falamos,

Palavra atrás de palavra,

Folhas no vento

Que ninguém trava.

 

Vivemos num mundo de ruídos

Sublinhados por pausas

De silêncios.

   Zé Onofre

09
Jan23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - Aurélio na Terra do avô

Zé Onofre

Aurélio na terra do avô

 

 

AURÉLIO NA ALDEIA DO AVÔ.jpg

 

Aurélio viajava, e não era pela primeira vez,

Para a aldeia onde viviam o avô e a avó.

Lembrava-se que os visitava, talvez, umas três

Alturas por ano. Esta não era uma visita só.

 

Hoje dirigia-se para a Terra natal do pai,

Não para fazer mais uma visita familiar

Como as que fazia nas festas e férias. Vai

Porque está doente para tentar repousar.

 

Uma dessas ocasiões ocorria no Verão.

As estradas que tinham, sem exagerar,

Mais curvas que quilómetros, eram então

Espiche, buracos e terra, pareciam não acabar.

 

Saíam de manhã cedo antes de nascer o sol.

A viagem começava com o carro voando

Porém, depressa rolavam a passo de caracol.

Quando chegavam já a noite ia entrando.

 

A ida por velhos caminhos será menos demorada.

Ainda será, mesmo assim, longa para recordar

Os primos, as primas e os amigos. A tratantada

Começava de manhã cedo e ia até o dia acabar.

 

As tardes de verão no rio eram de encantar.

Nadar, saltar de pontos altos para a água, subir

E descer o rio no barco a remar e a cantar.

A última automotora dizia a hora de partir.

 

O monte tinha sempre algo para ofertar.

Na primavera o rosmaninho, o tapete pascal.

Pela senhora da Graça as pinhas para queimar.

No inverno, o musgo para o presépio de Natal.

 

Nestas andanças com os primos desde a aurora

À noite, de qualquer lugar fosse ele alto ou fundo,

Estava a linha por onde serpenteava a automotora.

Na automotora, sonhava Aurélio, correria o mundo.

 

Parecia que o pai tinha o dom de adivinhar

Os mais loucos sonhos que Aurélio tinha.

Um dia foram todos para a estação esperar

A automotora para viajarem até ao fim da linha.

 

O pai, na viagem de volta, levou-o ao motorista

Que o convidou a entrar e permitiu-lhe tocar

A buzina. Aurélio mostrou-se um hábil artista.

A automotora veio em festa até a viagem acabar.

  Zé Onofre

10
Dez22

Dia de hoje 80

Zé Onofre

        80

 

022/12/09

 

Decidiu partir.

Nada justificava ficar na aldeia

A que nada o prendia.

A mãe,

Que ali o segurava,

Falecera.

Os irmãos espalhados.

Os amigos, 

Perdidos pelo mundo.

 

Que deixava para trás?

Uma vida vivida entre trabalho e casa

A leitura apressada do jornal

No canto do café.

A arrogância dos senhores da Terra,

Que vinham passar setembro na aldeia,

Receber as rendas dos caseiros,

Acompanhar as vindimas,

Enquanto os filhos se exibiam no Largo.

 

Chegou ao fim da viagem.

Olhava as paredes da estação

De olhos esbugalhados.

Agora que iria fazer,

Perdido que estava?

 

Certamente fora um erro

Partir "à cega seja eu".

Talvez fosse melhor

Regressar no mesmo comboio.  

 

Uma mão pousou-lhe no ombro

Coisas da sorte,

Ou do destino.

Era uma velha mão amiga

Que o levou até à sua residência,

Uma casa numa ilha,

Onde conseguiu alugar

Uma cozinha,

Um quarto/sala.

Dava até arranjar coisa melhor.

 

A rotina continuava a mesma,

Apenas numa Terra diferente.

Trabalho, casa e café.

O que seria provisório

Tornava-se definitivo.

Aqui a miséria não vai de porta em porta

Vive de mãos esticadas

Nos umbrais das portas 

Ao lado dos seus colchões de cartão.

Os donos da Terra viviam em palacetes

A renda que cobravam aos trabalhadores,

Eram os salários baixos que pagavam.

 

Resolveu transpor fronteiras,

Apesar de não ser propriamente jovem.

Parecia que a miséria perseguia

Os seus passos.

Agora a miséria vivia nos túneis dos metros.

A pobreza em bidonville        

Nos muitos bafejados

Com a mesma sorte macaca.

 

A diferença entre o patronato

E o povo trabalhador

Tornava-se mais visível.

Ali os Senhores

Da Terra e do Dinheiro

Viviam em casas apalaçadas,

Em bairros elegantes,

Bem longe do suor

De quem os enriquecia.

Deixou-se ficar

Enquanto pode trabalhar.

Então resolveu voltar,

Para que a terra que lhe fora berço,

Lhe fosse também caixão.

 

Numa tarde de dezembro

Estava sentado num toco,

Num ponto alto

A observar a aldeia.

Rememorava cada pessoa.

Quantos estariam ainda vivos?

Quantas crianças seriam adultas?

 

Por ali se deixou ficar

Revivendo os passos antigos.

Quando começou a escurecer

Desceu à aldeia

Foi percorrendo veredas,

Caminhos e largos,

Acabando no maior,

O largo da igreja.

 

Dirigiu-se ao café,

À mesma mesa do canto.

Um empregado desconhecido

Atendeu o seu pedido

Não dando qualquer sinal

De o conhecer.

 

A noite fria ia-se adiantando.

O largo ganhava vida

Com pessoas a entrar na Igreja.

Só então lhe ocorreu

Que era véspera de Natal.

Pagou,

Saiu e, também ele,

Foi para a Missa do Galo.

 

Entrou pela porta do fundo,

Pareceu-lhe que alguém

Lhe guardara o lugar no banco

Encostado à parede.

 

A missa começou,

Nem se apercebeu 

Da mudança de Padre,

Perdido nas suas lembranças.

 

Voltou ao presente

Na altura do beija-menino.

Via na postura das pessoas

O cumprimento de uma tradição,

Não um ato de comoção.

As crianças iam na fila

Com um ar aborrecido

 

Já fora, no Largo,

Via as crianças agitadas

A apressar os pais.

Queriam ir para casa,

Desembrulhar as prendas,

 

Mais ricas, ou mais pobres.

Para elas eram O Natal.

 

Desesperado, desapareceu na noite.

   Zé Onofre

21
Dez21

Por aqui e por ali 26

Zé Onofre

               26  

 

985/03/28, Marco, acção de formação sobre bibliotecas

 

         I

 

Ah,

Se o mundo

Fosse apenas a solidão.

Ah,

Se fosse apenas.

 

         II

 

Palavras,

Pedras nuas

À espera de carinho.

 

Palavras,

Arestas,

Gumes,

Sequiosas de sangue

Que as reguem.

 

Palavras,

Mãos nuas estendidas

À espera da esmola,

Do bulício …

Ou do silêncio apenas.

 

                                        III

 

Aqui ou ali, ontem ou amanhã, ou mesmo hoje Ivo estará sempre só.

E não só Ivo, como todos os Ivo deste mundo. Mesmo aqueles que não foram à guerra, mas são geradores de guerras.

Mesmo aqueles que medindo a distância em metros, apenas pensam em alcances de mísseis.

Mesmo aqueles que não sendo mutilados pensam o mundo sem onténs, ou amanhãs, mas no tempo eterno de uma explosão de neutrões.

Todos se sentirão sós por não se terem interrogado, antes de agir – que direito tenho eu de premir o gatilho, ou o botão? – e, mais ainda, quando nem um hipotético pastor houver para lhes perguntarem – quem são vocês?

E os outros, nós sós estamos por não fazermos a pergunta agora, enquanto há tempo e não eternidade. 

     Zé Onofre

01
Nov21

Daqui e por ali 2

Zé Onofre

                    2

 

1979/11/14

 

Mulher

Nossa irmã

Companheira.

Fizemos-te

Objeto,

Adorno,

Enfeite,

Propriedade,

Jarra florida.

Mãe,

Esposa,

Amante.

Mulher,

Minha irmã

Companheira.

Mulher,

Cidadã.

 

Só,

Emoldurada numa casa,

Abandonada,

Retirada da vida.

Roubamos-te a vida

A ti

Que dás a vida.

Roubamos-te a existência,

Tu

Que és existência.

Proibimos-te

A vida,

O ser,

O existir.

Amarramos-te,

Tu

Que és a liberdade.

Mulher

Não és sacrifício,

És cidadã.

 

Isolada,

 Fantasma  do passado,

Medo,

Sacrifício,

Recusa,

Abandono,

Doação.

Mulher

És cidadã.

Mulher,

Minha irmã,

Companheira.

 

Lixeira,

Essa solidão em que vives.

Lixeira,

Essa distância em que ficas.

Lixeira,

Essa lonjura do mundo.

Lixeira,

Esse fundo com que te confundes.

Lixeira,

Essa jarra que maquinalmente arranjas.

Lixeira,

A espera que fazes todos os dias.

Lixeira,

Esse tempo que vives adormecida.

Lixeira,

O desinteresse com que te entregas.

Lixeira,

Essa tua voz conformada.

Lixeira,

A cabeça que manténs baixa.

Lixeira,

A tua humanidade ofendida.

Lixeira,

A humilhação a que te sujeitamos.

Lixeira,

A tua vida de sujeição.

 

Flor

Serás, um dia.

Tu mesma,

Plena,

Humanizada.

Mulher,

Flor

Serás, amanhã.

  Zé Onofre