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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

16
Abr22

Por aqui e por ali 95

Zé Onofre

              95

 

996/02/23, acção de formação no Colégio S. Gonçalo. Amarante

 

No princípio era a tribo

E na tribo se fazia gente.

E a tribo era o espaço todo,

E a tribo era o tempo.

Havia o tempo e o espaço.

Havia a vida e o sonho.

 

Depois foi a cidade

E foi o campo.

Na cidade o espaço foi partido,

E o tempo encurtou.

O campo foi medido

E o tempo passou de sol a sol.

 

Na cidade foi o comércio,

O tempo contado,

O espaço diminuiu.

No campo foram as várias culturas,

O espaço foi contado.

O tempo diminuiu.

 

A cidade cresceu

As ruas apertaram

Os bairros nasciam

O espaço cada vez mais despedaçado,

O tempo cada vez mais controlado.

No campo a produção aumentava,

Nasciam os armazéns das sobras,

Os homens aumentavam

O espaço foi organizado,

A água dividida,

O tempo controlado.

 

Na cidade aumentavam 

As oficinas, e as oficinas eram escolas.

Na cidade aumentava o comércio,

Nascia a palavra escrita e o número,

E o comércio era a escola.

Da cidade partiam barcos,

À cidade chegavam barcos,

Nascia o tempo mecânico,

E os portos e os barcos eram a escola

 

Lentamente

As oficinas,

O comércio,

Os portos e os barcos,

Deixaram de servir de escolas,

Pois não respondiam

Aos problemas do dia-a-dia

Cada vez mais complicado.

E nasciam as escolas

Que ensinavam com o conhecimento

De experiência feito.

 

Havia ainda espaço e tempo de, e para a vida.

 

Finalmente a escola educativa, formativa.

Sem espaço e sem tempo,

Com salas a correr por corredores,

Com tempo escasso para as apanhar.

Espaço-tempo medido

Em fracções mínimas de espaço-tempo.

Lugar de passagem sempre p’r’à frente,

Que é preciso passar velozmente sem repouso.

 

A escola tornou-se um corpo estranho à vida.

Às vezes desabrocha em pérolas

Corpo estranho à escola que as enquista e cerca.

Zé Onofre

10
Set21

Penafiel 23

Zé Onofre

                 23

 14/07/977

Cinco,

Gosto de ti,

Ó cinco.

Gosto da tua forma,

Do teu som,

Da tua cor.

 

Gosto de dizer

Assim mansinho

- Cinco –

Aos ouvidos das pessoas.

 

Cinco

De ti dirão

Que és um

Algarismo,

Um número

Abstracto.

 

Cinco,

O número de carros

Que fulano tem.

O número de quilómetros

Que um operário caminha a pé

Pelo alto da madrugada.

 

Cinco,

O número de quartos de banho

Forrados a ouro

Que um palácio tem.

 

O número de pessoas

Que vivem num quarto

De um bairro operário.

 

Cinco, 

Os cinco mil contos

De lucro diário

De um patrão.

O cinco centos de escudos,

Salário mensal do operário.

 

Cinco,

As garrafas de Wiskhy,

De mil escudos a garrafa

Na garrafeira do senhor da Terra.

Cinco,

Os cinco tostões

Na algibeira do mendigo.

 

Cinco,

Cinco dias de exploração semanal,

A que o patrão chama

Semana de trabalho.

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