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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

21
Jan23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - Eugénia no penedo

Zé Onofre

Eugénia no Penedo

EUGÉNIA NO PENEDO.jpg

Como todos os anos,

Eugénia,

Marido e filhos,

Visitava os seus pais pelo Natal

Na aldeia onde nascera.

 

Vinha uns dias mais cedo

Para conviver com os irmãos,

Com os sobrinhos.

Como era reconfortante

Ver os primos correrem na brincadeira,

Pelos cantos e recantos da velha casa,

Era ver-se com os irmãos naquela idade.

 

Em uma das tardes daqueles dias

Foi-se afastando.

Encontrou-se sentada no penedo,

Onde em menina se sentava

Quando se sentia só,

Triste,

Sem saber o por quê.

 

Pôs-se a olhar para dentro.

Via

A paisagem que conhecera,

Não aquela

Que agora de olhos abertos

Via com tristeza.

 

Fechava os olhos.

Um pequeno ribeiro

Correndo forte no inverno,

Leve no verão.

No verão,

Era um cantar cristalino de pedra em pedra.

No inverno,

Era uma voz furiosa,

Imitando os grandes rios,

Subindo e alagando os campos que o marginavam.

Fosse verão, ou inverno,

Fazia caminho ladeado de verde.

 

Abre os olhos.

Uma serpente preta

Percorre o caminho do ribeirito,

Levando veículos de todas as cores e feitios,

Em altas, ou baixas velocidades,

Todos defumando o ar que respiramos.

 

Olhando no seu interior

Vê matas de pinheiros,

Carvalhos e sobreiros.

Lá no meio deles,

Como carta fora do baralho,

Um enorme eucalipto,

Com eles cavalgava montes acima.

 

Abre os olhos.

O verde das árvores encolheu,

Muitas clareiras o rasgaram.

Cores vivas

Acompanham

O que resta do arvoredo

Até ao cimo do monte.

 

Olha no seu passado.

Lá estão as suas amigas,

A Lola, a Júlia e a Amélia.

Estavam a jogar à macaca,

Às pedrinhas,

O quino pedreiro,

A saltar à corda

À volta do enorme eucalipto.

Depois vê-se aninhada

Aos pés do forte eucalipto

Que a abraçava com as suas fortes raízes.

  

Duas lágrimas

Rolam agora pelo rosto de Eugénia.

Está a ver o seu eucalipto,

Que fora vilmente vendido,

Ser abatido.

O Toninho trepa-o com uma corda.

Chega ao alto e laça-lhe um ramo.

Em baixo, o Quinzinho e o Gaspar

Esperam que a serra acabe o serviço

Para lentamente depositarem no chão

O cano decepado.

Assim

Ramo após ramo,

O eucalipto nu

Tomba estrondosamente por terra.

 

Agora uma voz chamava,

Eugénia, Eugénia, …

Não eram as vozes verdes

Das suas amigas da infância.

Era a voz

Forte e madura do seu marido

Que lhe abria os olhos.

Eugénia, antes de os abrir,

Deu um último adeus ao seu eucalipto.

Ao último chamo,

Levantou-se e foi ter com a família.

16
Dez22

Dia de hoje 82

Zé Onofre

82

 

022/12/16

 

Alguém disse um dia

Que o Natal será apenas memória

Um dia.

 

Alguém disse um dia

Que a grande memória do Natal

Será quando não se festejar o Natal.

 

Alguém disse um dia

Que a grande Festa do Natal

Será cumprir o Natal.

 

Alguém disse um dia

Que o Natal não é memória de um Menino,

Mas o trajeto de vida desse menino.

 

Alguém disse um dia

Que cumprido esse Trajeto de Vida

Deixará de haver memória de Natal.

 

Porque, então, nesse dia, será Natal.

Zé Onofre

10
Dez22

Dia de hoje 80

Zé Onofre

        80

 

022/12/09

 

Decidiu partir.

Nada justificava ficar na aldeia

A que nada o prendia.

A mãe,

Que ali o segurava,

Falecera.

Os irmãos espalhados.

Os amigos, 

Perdidos pelo mundo.

 

Que deixava para trás?

Uma vida vivida entre trabalho e casa

A leitura apressada do jornal

No canto do café.

A arrogância dos senhores da Terra,

Que vinham passar setembro na aldeia,

Receber as rendas dos caseiros,

Acompanhar as vindimas,

Enquanto os filhos se exibiam no Largo.

 

Chegou ao fim da viagem.

Olhava as paredes da estação

De olhos esbugalhados.

Agora que iria fazer,

Perdido que estava?

 

Certamente fora um erro

Partir "à cega seja eu".

Talvez fosse melhor

Regressar no mesmo comboio.  

 

Uma mão pousou-lhe no ombro

Coisas da sorte,

Ou do destino.

Era uma velha mão amiga

Que o levou até à sua residência,

Uma casa numa ilha,

Onde conseguiu alugar

Uma cozinha,

Um quarto/sala.

Dava até arranjar coisa melhor.

 

A rotina continuava a mesma,

Apenas numa Terra diferente.

Trabalho, casa e café.

O que seria provisório

Tornava-se definitivo.

Aqui a miséria não vai de porta em porta

Vive de mãos esticadas

Nos umbrais das portas 

Ao lado dos seus colchões de cartão.

Os donos da Terra viviam em palacetes

A renda que cobravam aos trabalhadores,

Eram os salários baixos que pagavam.

 

Resolveu transpor fronteiras,

Apesar de não ser propriamente jovem.

Parecia que a miséria perseguia

Os seus passos.

Agora a miséria vivia nos túneis dos metros.

A pobreza em bidonville        

Nos muitos bafejados

Com a mesma sorte macaca.

 

A diferença entre o patronato

E o povo trabalhador

Tornava-se mais visível.

Ali os Senhores

Da Terra e do Dinheiro

Viviam em casas apalaçadas,

Em bairros elegantes,

Bem longe do suor

De quem os enriquecia.

Deixou-se ficar

Enquanto pode trabalhar.

Então resolveu voltar,

Para que a terra que lhe fora berço,

Lhe fosse também caixão.

 

Numa tarde de dezembro

Estava sentado num toco,

Num ponto alto

A observar a aldeia.

Rememorava cada pessoa.

Quantos estariam ainda vivos?

Quantas crianças seriam adultas?

 

Por ali se deixou ficar

Revivendo os passos antigos.

Quando começou a escurecer

Desceu à aldeia

Foi percorrendo veredas,

Caminhos e largos,

Acabando no maior,

O largo da igreja.

 

Dirigiu-se ao café,

À mesma mesa do canto.

Um empregado desconhecido

Atendeu o seu pedido

Não dando qualquer sinal

De o conhecer.

 

A noite fria ia-se adiantando.

O largo ganhava vida

Com pessoas a entrar na Igreja.

Só então lhe ocorreu

Que era véspera de Natal.

Pagou,

Saiu e, também ele,

Foi para a Missa do Galo.

 

Entrou pela porta do fundo,

Pareceu-lhe que alguém

Lhe guardara o lugar no banco

Encostado à parede.

 

A missa começou,

Nem se apercebeu 

Da mudança de Padre,

Perdido nas suas lembranças.

 

Voltou ao presente

Na altura do beija-menino.

Via na postura das pessoas

O cumprimento de uma tradição,

Não um ato de comoção.

As crianças iam na fila

Com um ar aborrecido

 

Já fora, no Largo,

Via as crianças agitadas

A apressar os pais.

Queriam ir para casa,

Desembrulhar as prendas,

 

Mais ricas, ou mais pobres.

Para elas eram O Natal.

 

Desesperado, desapareceu na noite.

   Zé Onofre

05
Dez22

Dia de hoje 79

Zé Onofre

               79

 

Carta do Menino Jesus às Crianças  

 

022/12/05

 

Queridas crianças, minhas amigas

Este ano resolvi endereçar-vos uma carta, que há muitos anos trago no pensamento.

Não o fiz até agora porque o tempo, e dizem que tenho todo o tempo do mundo, tem sido pouco para os meus afazeres.

Não o fiz até agora porque as circunstâncias têm sido adversas a este meu desígnio. Bem sei que dizem que posso controlar as circunstâncias, porém isso seria um abuso de poder.

Creio, contudo, que chegou o momento de falar.

O tempo tornou-se mais livre para mim nestes últimos sessenta anos.

Desde meados do século passado que a maior parte de vós deixou de me pedir prendas.

Desde esse tempo tendes-vos dirigido a um senhor anafado, de cabelos e barbas brancas acolhedoras que vindo lá do norte frio vos vai enchendo com mais do que precisais.

Fato, esse, que me tem deixado livre para refletir sobre os pedidos simples que me faziam os vossos avós e ainda alguns dos vossos pais.

Alguns de vós, menos contaminados pela ambição de quererem coisas deste mundo e do outro, continuam simples como os seus avós, bisavós, trisavós e outros antepassados.

É com alegria que recebo esses pedidos pois vêm de crianças simples que ainda não se renderam ao consumismo do Homem do Barrete Vermelho.

É com tristeza que recebo esses pedidos pois são quase uma cópia dos pedidos dos seus antepassados. Simples, contudo plenos de tristezas e angústias.

Ao ler esses pedidos tão singelos vejo-me no tempo em que, há pouco mais ou menos dois mil anos, vivi entre vós e que de lá até hoje pouco mudou nas relações entre os homens.

Não é que alguns não tenham tentado.

Em Itália, um jovem comerciante de panos de luxo, que muito o enriqueciam, viu que nos caminhos que o levavam de feira em feira, e nas cidades onde a feira se fazia, muitos poucos se vestiam, calçavam e comiam. Entretanto a maioria caminhava descalça, esfomeada e coberta de trapos.

Decidiu então abandonar toda a sua riqueza e falar de mim às gentes famintas de tudo, até do calor do meu abraço.

Os encarregados de ensinarem o que eu lhes ensinei vestiam-se luxuosamente, viviam em palácios ricos, longe dos homens, a que chamavam o seu rebanho. Não queriam cheirar às suas ovelhas.

Foi então que decidiu representar o meu nascimento.

Escolheu um curral de ovelhas, onde nasci nas suas manjedouras, tendo palha como colchão.

Para minha guarda de honra colocou dois mansos animais de trabalho, um burro e uma vaca.

Como luz deu-me a luz das estrelas.

Como visitantes deu-me pastores que vinham com as suas ovelhas ajoelharem-se em frente à manjedoura.

Mais tarde chegaram os sábios que acreditavam que algo era preciso para mudar o mundo, nem que fosse um indigente nascido à luz das estrelas, num curral de ovelhas.

Por fim pôs um coro cujas vozes ecoavam nos céus e em todos os cantos da Terra – Glória aos Homens de Boa Vontade.

Nem o despojamento das suas riquezas.

Nem a minha mensagem representada em figuras, que não enganavam como as palavras dos altos sacerdotes, mudou o estado do mundo.

Poucos homens continuaram a viver à custa do suor de muitos.

Os que falavam que era tempo de todos terem direito a uma vida digna continuaram a ser perseguidos pelos Herodes deste Mundo e de falarem em nome do demónio pelos Sumos-sacerdotes.

Como o Homem de Assis houve poetas, visionários, humanistas que queriam que ninguém tivesse mais do que uma capa, porque outras que possuísse tinham sido tiradas aos seus irmãos.

Era isto que os vossos antepassados humildemente me pediam como prenda de Natal.

Não estava, e não está, nas minhas mãos satisfazer este pedido.

O que eu posso fazer é continuar a dizer que para um Homem viver com dignidade lhe chega o necessário, que o extraordinário já não lhes pertence. Apenas os posso tentar convencer, obrigá-los não.

Esse pedido que me fazem há mais ou menos dois mil anos está nas vossas mãos.

Nas mãos dos vossos pais que não explorem, nem se deixem explorar.

Principalmente nas vossas mãos, ainda inocentes, mas que o velhinho das barbas brancas e gorro vermelho as vai tornando, cada vez mais, em mãos muito pequenas para o que desejais, e é infinitamente mais do que precisais.

27
Nov22

Dia de hoje 76 - Natal

Zé Onofre

               76

 

Natal

 

022/11/20

 

O Natal está a chegar.

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar do mar imenso e bravo da pobreza,

Causada pela ganância do lucro, da acumulação,    

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos rios de água que correm pela mesa

Dos que à volta dela se sentam e não têm pão   

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar das crianças que sofrem a dureza

De viverem sem telhado e a incerteza de um chão,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Do “canto dos anjos” na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar das guerras geridas pela avareza

Dos que só vivem tendo tudo na sua mão,   

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Dos pastores ajoelhados na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar da velhice rejeitada com crueza, 

Abandonada em casas, ou lares de ostentação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia dos Magos na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar da ensanguentada riqueza

Que estropia, fere, mata escondendo a mão, 

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia da Estrela sobre a gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos que mergulhados na tristeza

E não sabem que o seu suor é o ouro do patrão,    

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Para falar dos males feitos à Natureza

Por quem se julga dono de toda a criação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem.

 

Este ano prometo que apenas falarei da beleza

Que irradia do Natal na gruta de Belém.

Prometo que, por maior que seja a tentação

Não falarei dos que vendem, com baixeza, 

O mistério que anunciava uma nova estação,

Apenas falarei da alegria que o Natal tem. 

24
Mai22

Por aqui e por ali 133

Zé Onofre

              133

 

012/12/07, Biblioteca Municipal de Amarante, Amarante

 

Nunca mais será Natal.

 

As luzes que me guiavam

Uma a uma vão caindo,

Não na gruta da esperança,

Caem no templo da desilusão.

 

Nunca mais será Natal.

 

Por mais cânticos que nas ruas O anunciem.

Por mais luzes que nas ruas O iluminem.

Não anunciam o Natal da Alegria,

Pranteiam o Seu funeral.

 

Nunca mais será Natal.

 

Apesar do musgo dos montes.

Apesar das saudades da infância,

Foi-se despedaçando pelo caminho.

Foi ficando lá atrás moribundo

Sob o peso da desesperança

De milhões de seres desapropriados

Da vida, da dignidade do ser pessoa

    Zé Onofre

 

 

24
Abr22

Por aqui e por ali 100

Zé Onofre

                     100

 

996/12/__

 

Janeiras, escola de Vilarinho, V. Caiz, AMT

 

Meu senhor, minha senhora, então que tal,

Nós cantamos, do jeito que sabemos.

Esperamos, tenham tido um bom Natal

Qu’este ano seja melhor assim o queremos.

 

Andamos a dar vivas de porta em porta,

Desafinando assim alegremente.

Mas a nós isso pouco importa

Desde que fique feliz a nossa gente.

 

Mas falemos do que aqui nos traz,

Nesta noite de Janeiro tão fria,

Andamos para a frente e para trás

P´ra que na escola haja mais alegria.

 

Já não temos mais assunto para cantar,

De repente ficamos sem ter que dizer,

Algum dinheiro, nos venham aqui dar

Desde já estamos a agradecer.

 

Pedimos, não demorem a abrir

A vossa porta acolhedora de par em par.

Já dissemos o que vínhamos pedir

Está na hora de para outra casa abalar

Zé Onofre

20
Abr22

Por aqui e por ali 98

Zé Onofre

                  98

 

996/11/24

 

De repente sinto que o Natal

Morreu dentro de mim.

 

Que caminhos percorri,

Que sonhos desperdicei?

 

Tudo sabe a esforço,

Voluntarismo,

Racionalidade.

Tudo é

Porque tem de ser.

 

Já nada é

Sonho ou alegria,

Revolta ou ousadia.

Tudo é razão, razão, razão.

 

Em que canto,

Em que esquina,

Em que parte de mim próprio me perdi?

  Ze Onofre

05
Out21

Penafiel 54

Zé Onofre

                 54

 

09/01/978

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te

Ó mulher prostituída

Dos verdes anos sem viço.

 

Aproxima-te

Ó velho reformado

Dos bancos do jardim.

 

Aproxima-te

Ó criança trapo

Do bairro de lata.

 

Aproximai-vos e gritai.

Grita,

Mulher prostituída

O teu sexo frio.

 

Grita,

Velho reformado,

Os teus anos gastos

De miséria pura.

 

Grita,

Criança,

A tua fome milenar.

 

Vinde,

Saí da penumbra.

 

Sai,

Mulher prostituída,

Da sombra do teu viver obscuro.

 

Sai,

Velho reformado,

Do banco gasto do jardim público.

 

Sai,

Criança trapo,

Dos farrapos do teu já cansado viver.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Senhora dona Fulana

Dos salões de chá,

Dos bailes de Caridade.

 

Aproxima-te,

Velho ricaço,

Ajoelhado (em cuecas)

Em frente à jovem criada.

 

Aproxima-te

Criança farta, birrenta e aborrecida,

Abonecada pelos caprichos da Mamã.

 

Grita,

Senhora dona Fulana,

A tua inutilidade

Feita caridade em tempos de Natal.

 

Grita,

Velho Ricaço,

O teu moralismo em discursos de altar.

 

Grita,

Criança aborrecidamente farta,

A meninice mimada com a pobreza de outros.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Ó mulher domesticada,

Mãe dos teus filhos.

 

Aproxima-te,

Ó homem libertino,

Corno e corneador dos teus amigos.

 

Aproxima-te,

Ó criança maltratada,

Filha do acaso ou das conveniências.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher domesticada,

A tua vida roubada.

 

Grita,

Ó homem libertino,

Os teus cornos florescidos.

 

Grita,

Ó criança maltratada,

A tua inocência pura.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

 

 

Aproxima-te,

Ó mulher operária,

Construtora e transformadora da vida.

 

Aproxima-te,

Ó homem operário,

Construtor e transformador da vida.

 

Aproxima-te,

Ó criança,

Nascida do amor,

Doado e criado mão na mão.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher operária,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó homem operário,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó criança nascida da alegria,

A felicidade de seres filha do amor.

02
Out21

Penafiel 50

Zé Onofre

50

 

30/11/977

 

Natal

Natal.
Que palavra mágica
De enganar com ternura.
Há negociantes
Vendedores de Natal a metro.
Há velhos,
Roucos de silêncios
Nos bancos do jardim.
Há bairros de miséria,
Emparedados
Nas cercanias da opulência.
Há chuva,
Há vento,
Há sol,
Contratempo.
Há neve,
Algodão branco,
Nas montras.
Há casas de penhores
Em esquinas
De ruas esquecidas.
Vê-se lá,
A miséria do povo
À venda, nos mostruários,
As ilusões
Por uns míseros tostões.
Há casas decoradas
Com vermelhos,
Sangue,
Grito abafado
Nos corações,
De quem corre atrás do impossível.
Trabalhadores "apressadas"
Crianças, olhos arregalados
Bocas salivando,
Junto à montra das ilusões.
Há casas coloridas,
Cores arrancadas
À fome do dia a dia
De quem envergonhado,
Vai escondendo a fome que os alimenta.
Há risos,
Sorrisos,
Nas faces.
Há passos
apressados
Nas pedras dos caminhos
Há fúrias incontidas
No fundo das cores.
Há angústia,
Há raiva.
Há gente apressada
Levando amor,
Levando a paz,
Em embrulhos coloridos
Até às casas dos esquecidos da vida.
Bem sei,
É Natal...
Não deveria dizer,
Não deveria contar,
Não deveria expor
A realidade crua do outro lado do Natal.
Deveria guardá-la
No segredo
Do silêncio
Das grades dos sonhos perfumados,
Dos salões
Onde se projecta «este» Natal.

E, contudo,
Um dia fui criança.
Gostava de ir ao musgo,
À relva,
Aos galhos de árvores.
Gostava do presépio
No cantinho da sala,
De me levantar no Dia de manhã
Encontrar lá
Algum rebuçado deixado
Pelo Menino Jesus.
Gostava do presépio
Junto ao altar da Igreja
Que ajudara a fazer.
Gostava da noite "do par ou pernão",
No fim da Ceia,
À volta da lareira.
Gostava das brincadeiras
No largo da Igreja
À espera da Missa do Galo.
(Se me é permitido
Tenho saudades, mas muitas,
Desse Natal.)
Tenho saudades daquele Natal
Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade
- O Natal é comer!
(Por que caminhos te achaste,
Rosário?)
O que aconteceu ao "eu" rapazinho
Que tenho saudades
Das pinhas assadas no braseiro,
Do musgo fofo do monte,
Das brincadeiras na noite mágica
Da Missa do Galo,
Para agora olhar,
As gentes e as ruas,
As montras com neve de algodão,
As casas tremelicantes de luzes,
E sem ânimo,
Entre a saudade e o desespero,
Dizer
"Bem sei
É Natal.

  Zé Onofre