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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

24
Abr22

Por aqui e por ali 100

Zé Onofre

                     100

 

996/12/__

 

Janeiras, escola de Vilarinho, V. Caiz, AMT

 

Meu senhor, minha senhora, então que tal,

Nós cantamos, do jeito que sabemos.

Esperamos, tenham tido um bom Natal

Qu’este ano seja melhor assim o queremos.

 

Andamos a dar vivas de porta em porta,

Desafinando assim alegremente.

Mas a nós isso pouco importa

Desde que fique feliz a nossa gente.

 

Mas falemos do que aqui nos traz,

Nesta noite de Janeiro tão fria,

Andamos para a frente e para trás

P´ra que na escola haja mais alegria.

 

Já não temos mais assunto para cantar,

De repente ficamos sem ter que dizer,

Algum dinheiro, nos venham aqui dar

Desde já estamos a agradecer.

 

Pedimos, não demorem a abrir

A vossa porta acolhedora de par em par.

Já dissemos o que vínhamos pedir

Está na hora de para outra casa abalar

Zé Onofre

20
Abr22

Por aqui e por ali 98

Zé Onofre

                  98

 

996/11/24

 

De repente sinto que o Natal

Morreu dentro de mim.

 

Que caminhos percorri,

Que sonhos desperdicei?

 

Tudo sabe a esforço,

Voluntarismo,

Racionalidade.

Tudo é

Porque tem de ser.

 

Já nada é

Sonho ou alegria,

Revolta ou ousadia.

Tudo é razão, razão, razão.

 

Em que canto,

Em que esquina,

Em que parte de mim próprio me perdi?

  Ze Onofre

05
Out21

Penafiel 54

Zé Onofre

                 54

 

09/01/978

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te

Ó mulher prostituída

Dos verdes anos sem viço.

 

Aproxima-te

Ó velho reformado

Dos bancos do jardim.

 

Aproxima-te

Ó criança trapo

Do bairro de lata.

 

Aproximai-vos e gritai.

Grita,

Mulher prostituída

O teu sexo frio.

 

Grita,

Velho reformado,

Os teus anos gastos

De miséria pura.

 

Grita,

Criança,

A tua fome milenar.

 

Vinde,

Saí da penumbra.

 

Sai,

Mulher prostituída,

Da sombra do teu viver obscuro.

 

Sai,

Velho reformado,

Do banco gasto do jardim público.

 

Sai,

Criança trapo,

Dos farrapos do teu já cansado viver.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Senhora dona Fulana

Dos salões de chá,

Dos bailes de Caridade.

 

Aproxima-te,

Velho ricaço,

Ajoelhado (em cuecas)

Em frente à jovem criada.

 

Aproxima-te

Criança farta, birrenta e aborrecida,

Abonecada pelos caprichos da Mamã.

 

Grita,

Senhora dona Fulana,

A tua inutilidade

Feita caridade em tempos de Natal.

 

Grita,

Velho Ricaço,

O teu moralismo em discursos de altar.

 

Grita,

Criança aborrecidamente farta,

A meninice mimada com a pobreza de outros.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

Aproxima-te,

Ó mulher domesticada,

Mãe dos teus filhos.

 

Aproxima-te,

Ó homem libertino,

Corno e corneador dos teus amigos.

 

Aproxima-te,

Ó criança maltratada,

Filha do acaso ou das conveniências.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher domesticada,

A tua vida roubada.

 

Grita,

Ó homem libertino,

Os teus cornos florescidos.

 

Grita,

Ó criança maltratada,

A tua inocência pura.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Em palavras duras, cruas,

Que são difíceis de receber.

 

Pediram-me que falasse da vida.

Aqui estou para a dizer

Através de figuras cruas

Do nosso difícil de viver.

 

 

 

Aproxima-te,

Ó mulher operária,

Construtora e transformadora da vida.

 

Aproxima-te,

Ó homem operário,

Construtor e transformador da vida.

 

Aproxima-te,

Ó criança,

Nascida do amor,

Doado e criado mão na mão.

 

Aproximai-vos e gritai.

 

Grita,

Ó mulher operária,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó homem operário,

A tua alegria de viver

De construir e transformar a vida.

 

Grita,

Ó criança nascida da alegria,

A felicidade de seres filha do amor.

02
Out21

Penafiel 50

Zé Onofre

50

 

30/11/977

 

Natal

Natal.
Que palavra mágica
De enganar com ternura.
Há negociantes
Vendedores de Natal a metro.
Há velhos,
Roucos de silêncios
Nos bancos do jardim.
Há bairros de miséria,
Emparedados
Nas cercanias da opulência.
Há chuva,
Há vento,
Há sol,
Contratempo.
Há neve,
Algodão branco,
Nas montras.
Há casas de penhores
Em esquinas
De ruas esquecidas.
Vê-se lá,
A miséria do povo
À venda, nos mostruários,
As ilusões
Por uns míseros tostões.
Há casas decoradas
Com vermelhos,
Sangue,
Grito abafado
Nos corações,
De quem corre atrás do impossível.
Trabalhadores "apressadas"
Crianças, olhos arregalados
Bocas salivando,
Junto à montra das ilusões.
Há casas coloridas,
Cores arrancadas
À fome do dia a dia
De quem envergonhado,
Vai escondendo a fome que os alimenta.
Há risos,
Sorrisos,
Nas faces.
Há passos
apressados
Nas pedras dos caminhos
Há fúrias incontidas
No fundo das cores.
Há angústia,
Há raiva.
Há gente apressada
Levando amor,
Levando a paz,
Em embrulhos coloridos
Até às casas dos esquecidos da vida.
Bem sei,
É Natal...
Não deveria dizer,
Não deveria contar,
Não deveria expor
A realidade crua do outro lado do Natal.
Deveria guardá-la
No segredo
Do silêncio
Das grades dos sonhos perfumados,
Dos salões
Onde se projecta «este» Natal.

E, contudo,
Um dia fui criança.
Gostava de ir ao musgo,
À relva,
Aos galhos de árvores.
Gostava do presépio
No cantinho da sala,
De me levantar no Dia de manhã
Encontrar lá
Algum rebuçado deixado
Pelo Menino Jesus.
Gostava do presépio
Junto ao altar da Igreja
Que ajudara a fazer.
Gostava da noite "do par ou pernão",
No fim da Ceia,
À volta da lareira.
Gostava das brincadeiras
No largo da Igreja
À espera da Missa do Galo.
(Se me é permitido
Tenho saudades, mas muitas,
Desse Natal.)
Tenho saudades daquele Natal
Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade
- O Natal é comer!
(Por que caminhos te achaste,
Rosário?)
O que aconteceu ao "eu" rapazinho
Que tenho saudades
Das pinhas assadas no braseiro,
Do musgo fofo do monte,
Das brincadeiras na noite mágica
Da Missa do Galo,
Para agora olhar,
As gentes e as ruas,
As montras com neve de algodão,
As casas tremelicantes de luzes,
E sem ânimo,
Entre a saudade e o desespero,
Dizer
"Bem sei
É Natal.

  Zé Onofre

14
Set21

Penafiel 28

Zé Onofre

                  28         

 

DEZ/976

 

Era uma vez um homem e uma mulher.

Ele era um operário.

Ela era uma operária.

Tiveram que ir à cidade.

Foram a pé.

Levavam nas suas mãos a magra comida de uma ceia.

Partiram.

A mulher estava para parir.

Ia amparada no braço do homem.

Sozinhos caminham pela tarde de um dia sereno.

Era noite quando chegaram, derreados e cansados, à cidade.

Era longe a cidade e as pernas curtas.

Procuraram onde passar a noite.

Bateram a todas as portas, em vão, não encontraram.

A mulher, cada vez mais cansada, caía aqui, acolá, ali e mais além.

O homem, desesperado, ganha ânimo e caminha. Tinha que haver uma porta, uma única, que se lhes abrisse.

E apareceu.

O cansaço fez-se descanso numa obra em construção.

Como ladrões entraram.

Como invasores abriram o seu saquitel de onde tiraram o seu magro sustento – pão, queijo e figos.

O cansaço encostou-os às paredes húmidas em construção e logo adormeceram.

Já dormiam na noite escura quando a mulher sentiu que o seu bebé, sangue do seu sangue, iria nascer ali.

Ali, naquele prédio em construção, tendo como luz, apenas, a luz das estrelas distantes.

O bebé nasceu, deu um grito, estava vivo.

Uma criaturinha filha de um operário e de uma operária, de um homem e de uma mulher.

Embalada num carrinho, sacos de cimento por colchão e o manto do pai e da mãe por agasalho.

É uma criatura humana, como outra nascida de um homem e de uma mulher.

Que virará ser humano como um outro qualquer.

E a noite fazia-se dia.

O homem, a mulher, e a criança já partiram.

Já caminhavam pela cidade à fazer a sua vida.

Anoitecia quando chegavam a casa.

E os dias e as noites sucediam-se, até que a criança se fez adulta.

Adulta que sabia qual iria ser o seu futuro.

Adulta que conhecia a vida dos outros.

Adulta que se juntou a outras pessoas adultas.

Pessoas adultas que unidas que acreditam que até as pedras darão pão para que todos o tenham.

Incrédulas, muitas pessoas insultavam-nos de ofenderem a lei dos homens e a lei de Deus.

Aquelas pessoas adultas teimavam, e teimavam chamando por todas as pessoas.

Muitas foram as que as seguiram.

E começaram a acreditar.

Os dias, as semanas, os meses e os anos iam passando, e o número de pessoas aumentava.

Já eram tantas que os poderosos de várias nações, de diversas religiões, de diferentes culturas se sentiram ameaçados.

Todos eles se uniam para destruir aquela força nascente.

Inventaram calúnias.

Diziam que falavam em nome das forças do mal. Que pretendiam acabar com os privilégios dos seus superiores.

Que queriam roubar o pão para o repartirem por todos.

As calúnias, os discursos mentirosos, tantas vezes repetidas levaram algumas pessoas a debandarem. Muitas delas traíram a nova esperança que se erguia.

Um dia, covardemente, mataram numa cruz, aquela criança que um dia nascera num colchão de sacos de cimento.

Hoje, esperamos o dia em que aquele nascimento, igual a tantos outros, não passe de uma memória. Em que as crianças, e os homens e as mulheres não acreditem que houve dias assim.

Então, nesses tempos que virão um dia, será Natal.

21
Ago21

Souto 38 (NOS DIAS QUE PENSÁVAMOS SEREM ETERNOS III)

Zé Onofre

                                  III

SET/2016

Amigo João Luís

Penso não estar enganado, mas foi naquelas Janeiras de há quarenta e três anos que tudo começou.

Pensando melhor deve ter sido na Véspera de Natal de 1973 quando, já alegres, a caminho do “Café da Zeza” encontrámos o nosso “amigo” Felícia que, sentindo-se incomodado com as nossas alegres conversas, nos saiu ao caminho de arma em riste a mandar-nos calar.

  1. Foi nesse dia que eu disparado, já não sei de onde, fui-me a ele de punho em riste e disse, acertando-lhe um murro - “Pensas que estás em Angola a explorar pretos?”

Continuamos como se nada fosse connosco. Parece que o Valdemar ainda ficou para trás a acabar o serviço.

Foi, foi nessa noite, que começamos a sonhar com amanhãs….

Foram uns dias inesquecíveis.

Zé Onofre

15
Ago21

Souto 11

Zé Onofre

              35

20/05/975

Conto de Natal

Conto com tantos anos sem conta,

Conto de anos que vieram antes de nós.

Conto de sonhos antigos,

Conto de tantas alegrias já idas.

Conto de muitos dias, num dia.

Conto de muitas alegrias, nas alegrias de hoje.

Conto de gente a sorrir desde sempre.

Conto de um menino a nascer há dois mil anos.

Conto de um canto de presépios diferentes e iguais.

Conto de alegrias todos os anos repetidas.

Conto de uma cortina que cai e tudo esconde.

Conto de uma cortina que apaga aquele dia singelo.

Conto de uma cortina que apaga a mudança que não houve.

Conto de uma cortina que apaga aquele momento doce.

Conto de uma insistência igual, todos anos.

Conto em que vivemos um conto de fantasia.

   Zé Onofre

01
Jul21

...

Zé Onofre

Bem sei é Natal

Natal, cada um tem o seu Natal.

Que palavra mágica

De enganar com ternura.

Há negociantes

Vendedores de Natal a metro.

Há velhos,

Roucos de silêncios

Nos bancos do jardim.

Há bairros de miséria,

Emparedados

Nas cercanias da opulência.

Há chuva,

Há vento,

Há sol,

Contratempo.

Há neve,

Algodão branco,

Nas montras.

Há casas de penhores

Em esquinas

De ruas esquecidas.

Vê-se lá,

A miséria do povo

À venda, nos mostruários,

As ilusões

Por uns míseros tostões.

Há casas decoradas

Com vermelhos,

Sangue,

Grito abafado

Nos corações,

De quem corre atrás do impossível.

Trabalhadores/ apressadas 

Crianças, olhos arregalados

Bocas salivando,

Junto à montra das ilusões.

Há casas coloridas,

Cores arrancadas

À fome do dia a dia

De quem envergonhado,

Vai escondendo a fome que os alimenta.

Há risos,

Sorrisos,

Nas faces.

Há passos apressados

Nas pedras dos caminhos

Há fúrias incontidas

No fundo das cores.

Há angústia,

Há raiva.

Há gente apressada

Levando amor,

Levando a paz,

Em embrulhos coloridos

Até às casas dos esquecidos da vida.

Bem sei,

É Natal...

Não deveria dizer,

Não deveria contar,

Não deveria expor

A realidade crua do outro lado do Natal.

Deveria guardá-la

No segredo

Do silêncio

Das grades dos sonhos perfumados,

Dos salões

Onde se projecta «este» Natal.

Contudo,

Um dia fui criança.

Gostava de ir ao musgo,

À relva,

Aos galhos de árvores.

Gostava do presépio

No cantinho da sala,

De me levantar no dia de Natal 

Encontrar lá

Algum rebuçado deixado

Pelo Menino Jesus.

Gostava do presépio

Junto ao altar da Igreja

Que ajudara a fazer.

Gostava da noite "do par ou pernão",

No fim da Ceia,

À volta da lareira.

Gostava das brincadeiras

No largo da Igreja

À espera da Missa do Galo.

Se me é permitido

Tenho saudades, mas muitas,

Desse Natal.

Tenho saudades daquele Natal

Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade

- O Natal é comer!

(Por que caminhos te achaste,Rosário?)

O que aconteceu ao "eu" rapazinho

Que tenho saudades

Das pinhas assadas no braseiro,

Do musgo fofo do monte,

Das brincadeiras na noite mágica

Da Missa do Galo,

Para agora olhar,

As gentes e as ruas,

As montras com neve de algodão,

As casas tremelicantes de luzes,

E sem ânimo,

Entre a saudade e o desespero,

Dizer

"Bem sei

É Natal.

Zé Onofre

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