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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

15
Out22

Histórias para aprender a ler e a escrever - Livro I - NUNO

Zé Onofre

                                  Nuno

  NUNO.jpg

                                      

                                       

Lá vem o Nuno                                       

Olhos de espanto

Atentos a tudo

sempre irrequieto.

Lá vem o Nuno

dos sonhos impossíveis, sonhos que só ele tem,

capaz de uma só vez caminhar nas nuvens,

não só numa,

mas logo em três.

Lá vem o Nuno

génio das estrelas

de cana, jornal e cordel

capaz de subir

muito mais alto que elas.

Lá vem o Nuno

de olhos esbugalhados

vendo cair o céu

em brancos bocados.

Com a sua imaginação,

como o vento leve,

aduelas aos pés bem atadas

desliza sobre a neve.

Na sua alegria

aos ventos berra

que não escorrega na estrada

desce veloz

a encosta da serra.

Contudo, a doce ilusão

é engano breve,

de repente faz o pino

senta o cu na neve.

        Zé Onofre

 

02
Out21

Penafiel 50

Zé Onofre

50

 

30/11/977

 

Natal

Natal.
Que palavra mágica
De enganar com ternura.
Há negociantes
Vendedores de Natal a metro.
Há velhos,
Roucos de silêncios
Nos bancos do jardim.
Há bairros de miséria,
Emparedados
Nas cercanias da opulência.
Há chuva,
Há vento,
Há sol,
Contratempo.
Há neve,
Algodão branco,
Nas montras.
Há casas de penhores
Em esquinas
De ruas esquecidas.
Vê-se lá,
A miséria do povo
À venda, nos mostruários,
As ilusões
Por uns míseros tostões.
Há casas decoradas
Com vermelhos,
Sangue,
Grito abafado
Nos corações,
De quem corre atrás do impossível.
Trabalhadores "apressadas"
Crianças, olhos arregalados
Bocas salivando,
Junto à montra das ilusões.
Há casas coloridas,
Cores arrancadas
À fome do dia a dia
De quem envergonhado,
Vai escondendo a fome que os alimenta.
Há risos,
Sorrisos,
Nas faces.
Há passos
apressados
Nas pedras dos caminhos
Há fúrias incontidas
No fundo das cores.
Há angústia,
Há raiva.
Há gente apressada
Levando amor,
Levando a paz,
Em embrulhos coloridos
Até às casas dos esquecidos da vida.
Bem sei,
É Natal...
Não deveria dizer,
Não deveria contar,
Não deveria expor
A realidade crua do outro lado do Natal.
Deveria guardá-la
No segredo
Do silêncio
Das grades dos sonhos perfumados,
Dos salões
Onde se projecta «este» Natal.

E, contudo,
Um dia fui criança.
Gostava de ir ao musgo,
À relva,
Aos galhos de árvores.
Gostava do presépio
No cantinho da sala,
De me levantar no Dia de manhã
Encontrar lá
Algum rebuçado deixado
Pelo Menino Jesus.
Gostava do presépio
Junto ao altar da Igreja
Que ajudara a fazer.
Gostava da noite "do par ou pernão",
No fim da Ceia,
À volta da lareira.
Gostava das brincadeiras
No largo da Igreja
À espera da Missa do Galo.
(Se me é permitido
Tenho saudades, mas muitas,
Desse Natal.)
Tenho saudades daquele Natal
Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade
- O Natal é comer!
(Por que caminhos te achaste,
Rosário?)
O que aconteceu ao "eu" rapazinho
Que tenho saudades
Das pinhas assadas no braseiro,
Do musgo fofo do monte,
Das brincadeiras na noite mágica
Da Missa do Galo,
Para agora olhar,
As gentes e as ruas,
As montras com neve de algodão,
As casas tremelicantes de luzes,
E sem ânimo,
Entre a saudade e o desespero,
Dizer
"Bem sei
É Natal.

  Zé Onofre