Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

21
Abr22

Por aqui e por ali 99

Zé Onofre

               99

 

996/12/21

 

Exercícios dramáticos preparativos de teatro, Casa Padre Gonçalo, Amarante         

 

Eram tão lindos os seus olhos.

Castanhos,

Não, dourados,

Não, antes cor de mel.

Eram tão lindos os seus olhos.

Doces,

Líquidos

Tão transparentes,

Tão belos.

Eram tão lindos os seus olhos,

Mas tão traidores,

Fugidios,

Os seus olhos

Tão belos.

Zé Onofre

19
Jan22

Por aqui e por ali 44

Zé Onofre

                  44

sd, Escola de Portela, Aboim, AMT

Adivinha

As pernas
Começam no chão
E vão
Por ali acima
– Parecendo nunca mais acabar –
E param
De repente,
Num corpo redondo,
Fofo,
Macio
Onde é bom estar.

Os braços
Agitam-se ao vento
Do que há para fazer.
Ora pequeninos
Quando afagam,
Ora gigantes
Que tudo agarram.

Lá no alto,
A cabeça
Cor-de-noite-escura
Iluminada por duas estrelas,
Os olhos
Cor-de-muita-ternura.

14
Out21

Penafiel 63

Zé Onofre

                  63

 

03/03/978

 

Solidão

É ter o direito de dizer a nossa palavra

E calá-la.

É ter espaço para a gritar

E não o aproveitar.

É ter pernas

E não querer andar.

É ter olhar

E não querer ver.

 

Solidão

É o diz-se, diz-se

Das mesas do café.

É o murmúrio

Nos recantos dos corredores.

É ter a luz acesa

E apaga-la.

 

Solidão

É ter o dever de falar

E calar.

É ter o dever de ocupar o espaço

E abandoná-lo.

É ter o dever de andar

E amarrar as pernas.

É o dever de olhar em frente

E baixar os olhos.

 

Solidão

É querer estar só.

São estas paredes cheias

Do silêncio das nossas vozes.

É vazio gritado

De murmúrios.

É o sussurro bichanado

Ao ouvido do teu amigo.

 

Solidão

É ter o dever de estar presente

E fugir.

É direito de estar

E não o usar.

    Zé Onofre

 

 

22
Ago21

Souto 39 (A brincar aos poemas de Amor)

Zé Onofre

39

                SET/975

                     I

Quando encontrei os teus olhos,

O teu corpo,

E a tua vida,

Antevi um novo dia.

Nunca esquecerei o momento             

Em que te encontrei.

Para sempre ao vento

De paixão cantarei.

Quando encontrei os teus olhos,

Antevi um novo dia.

Contarei do teu olhar,

Da tua boca a sorrir,

Dos teus cabelos doirados,

Loiro sol a sorrir.

Quando encontrei os teus olhos

Antevi um novo dia

                   II

Lembro com saudade

A tua presença serena

Que nos dias de liberdade

Vivíamos em comunhão plena.

 

Lembro com saudade,

Única coisa que ficou,

Dos dias de felicidade

De quem tanto amou.

 

Lembro com saudade

O que ficou por te dizer.

Perdi a oportunidade

Não sei o que fazer,

 

Lembro com saudade

Teus lábios, o teu sorriso

O teu olhar de lealdade.

Até penso que perdi o siso.

  Zé Onofre

13
Ago21

Souto 32

Zé Onofre

32

 29/04/975

 Os dias cinzentos e chuvosos

Ficaram ternos e saudosos,

Melancólicos.

As recordações entram de mansinho.

De repente os olhos

Enchem-se de vida, de brilhos

Que iluminam o presente.

 

Aqui, sentado a esta janela,

Ténue fronteira

Entre o ontem e o hoje.

Escorre dela os belos dias de criança.

Dias sempre azuis,

Nem que o céu cinzento negro,

Despejasse águas a cântaros,

Ou enchesse a vida

Com raios e trovões,

Eram sempre azuis.

 

Eram azuis quando rolávamos

Verdes nos campos.

Eram azuis, quando rindo,

Tentávamos um beijo do nosso amor.

Eram azuis

As caras dos amigos

Os brinquedos que inventávamos.

 

Eram azuis

As tardes longas de sol

Era azul,

O sol que se derramava em nós.

Eram azuis

As águas corredias nos regos e riachos.

Era azul

O ralho da mãe

- Se adoeceres

Nem um copo de água te levo à cama. –

 

Azul,

Aquela nossa vida

Saltar de rego em rego,

Construir enormes barragens,

Lagoas como mares,

Pontes, as maiores do mundo

(Três pedras,

Varas caídas da poda

E o cimento, lama)

Obra-prima da engenharia.

Azul

Era o tempo, em que enleados,

Admirávamos a obra feita.

 

Azuis

Eram os sorrisos felizes

Estampados no rosto,

E desfaziam em pó

Os ralhos ternos da mãe.

 

Azul,

Embora esbatido,

É esta melancolia

De espreitar a infância

Pela frincha do tempo.

Azul,

Embora esbatido,

É espreitar os campos,

Ainda cheios de vida,

Agora abandonados

À incúria dos tempos.

 

Vieram os anos,

Olho para dentro de mim

Onde ontem,

Vejo azuis ossos encharcados.

Hoje,

Apenas ossos pesados.

Vieram os anos,

Olho para dentro de mim.

Onde ontem,

Há sombras azuis de amores,

Olhos azuis que eram azuis,

E azuis continuam,

Apesar das lágrimas

Que hoje

Teimam em diluí-los.

 

Nesse azul claro

Uma nova onda nascerá

Sem angústia,

Sem desespero da loucura

Da vã procura.

Nas ruas da solidão

Estará o azul

À minha espera.

   Zé Onofre

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub