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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

05
Abr23

Dia de hoje 93

Zé Onofre

                 93

 

023/04/05

 

As palavras,

Às vezes, são apenas objetos.

Fico na dúvida

Se em algum momento

Escrevi algo,

Ou se foi algum desconhecido

Que m’as arremessou como pedras

E eu apenas as alinhei

Como quem constrói muros.

 

Às vezes

Sinto-me a navegar

Num navio,

Inafundável como o Titânic.

As palavras são os destroços

Onde me arrimo

Tentando desesperadamente flutuar,

Para me salvar do abismo

Por que me sinto atraído.

    Zé Onofr

04
Fev23

Rebusco 16

Zé Onofre

           16

 

091/05/15

 

As palavras

 

São correntes de ar

Vazias como balões

À espera de uma alma

Que lhes dê significação.

 

Às vezes são silêncios,

Pesados como chumbo

À espera de uma alma

Para dar luz ao mundo.

 

Quase sempre são

Paredes, muros, cadeias.

Outras são apenas

A cinza das ideias.

   Zé Onofre

30
Dez22

Rebusco 6

Zé Onofre

               6

 

989/11/30

 

            I

 

Se eu fosse um pássaro

Era pequenino

Estava no quente

Do meu ninho

 

             II

Entra uma criança na escola

Com vontade de falar

Da sua vida.

 

Logo no primeiro dia

O silêncio fez-se.

Nada mais houve,

Para além de palavras sem sentido.

 

              III

 

De exercício em exercício

Matamos

A criatividade.

 

De exercício em exercício

Geramos

A monotonia.

   Zé Onofre

09
Jun22

Por aqui e por ali 146

Zé Onofre

                146

 

018/10/06, Livração

 

Sons e palavras,

Sons e silêncios.

Fantasmas do passado,

Vindos de lá do início do tempo,

Em que os Homens

Inocentes viviam

No ser que eram,

Desconhecendo o ter.

 

Sons e silêncios,

Fantasmas dos tempos

Que foram seguindo

Levando na sua corrente os Homens

Que somos hoje.

 

Silêncio puro

Que transformamos em monstros

Palavrosos

Que manipulam e enganam,

Que nos engolem e nos excretam,

Lixo que somos.

 

Agora os fantasmas somos nós,

Aqui e agora,

Sombras que pensamos viverem.

Não passamos de mortos a brincar de vivos.

  Zé Onofre

25
Mai22

Por aqui e por ali 134

Zé Onofre

                   134

 

013/04/20, Escola de Igreja, Vila Caiz, AMT

 

Não sei, Amor,

Com que linhas te desenhar.

Linhas de penhasco afiado

A trepar por encostas íngremes,

Ou de planuras a fugir para o horizonte?

Linhas de árvore esquelética de ramos ressequidos,

Ou de árvore de mata luxuriante?

 

 Não sei, Amor,

Com que cores te hei de pintar.

Com as cores de horizonte longínquo,

Ou da paisagem para lá chegar?

Cores de seara primaveril,

Ou de trigo em Junho a ondular?

Cores de sol em auroras em montes,

Ou como sol a mergulhar no mar?

 

Não sei, Amor,

Com que palavras te dizer.

Com palavras trémulas de jovem a improvisar,

Ou com as palavras tristes de adulto a declinar?

Com palavras simples mas sinceras,

Ou com palavras douradas vazias de sentir?

 

Não sei, Amor,

Com que sons te acariciar.

Se com os da brisa fresca da madrugada,

Ou com o do sussurro do entardecer?

Se com o do vento quente do meio-dia,

Ou com o do vento gélido do luar?

Se com o do crepúsculo das estrelas,

Ou com o estrondo das rochas no mar?

 

Não sei, Amor,

Não sei.
       Zé Onofre

30
Abr22

Por aqui e por ali 110

Zé Onofre

                110

 

998/09/18

Alameda Teixeira de Pascoais, Amarante

 

Não sei se é esta angústia

Que me desespera.

Ou se desespero desta espera de nada esperar.

Não sei

Se as palavras de desespero,

Que uma a uma escrevo,

São sinal de desespero,

Ou apenas palavras desesperadas.

 

Não sei se as palavras

Ainda servem para unir,

Ou se já nem unem, nem separam,

Apenas balões de ar

Que o vento leva.

Não sei

Se foram as palavras que perderam

A magia, o sonho e o espanto,

Ou se fui eu que me esqueci de me maravilhar.

 

Não sei se esta mágoa

É mágoa verdadeiramente sentida,

Ou apenas mágoa fingida

De quem a já nada pode magoar.

 

Não sei se são as palavras

Que perderam o sentido,

Ou se sou eu que já não as sabe usar.

   Zé Onofre

07
Abr22

Por aqui e por ali 88

Zé Onofre

              88

 

995/03/20, acção de formação – Educação Física, Marco de canaveses

 

Jogar

Com palavras,

Com sonhos,

Com brincadeiras

Apenas de brincar

 

Sonhar palavras

Como quem semeia ilusões.

Fazer de conta

Que se é criança ainda e sempre.

 

Bola de trapos

Retrato possível do passado.

Luz, som,

Imagem invenção

De corpos em desalinho,

A saltar,

A correr,

Memória-vida

Vivida ao amanhecer.

Zé Onofre

 

 

06
Abr22

Por aqui e por ali 86

Zé Onofre

                  86

 

995/03/15

 

Imagens e sons de amor.

Palavras

Que falam de carinho, de amizade,

Da alegria das coisas simples,

Da alegria

De dar vida à nossa vida.

 

Palavras

Que falam do desperdício,

Que são os sonhos perdidos

No supérfluo.

 

Gestos simples,

Canções simples,

Palavras simples,

Dar vida à vida

Com a nossa vida.

 

Construir o sonho

Com mãos vazias.

Tão simples.

Tão belo.

  Zé Onofre