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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

09
Jun22

Por aqui e por ali 146

Zé Onofre

                146

 

018/10/06, Livração

 

Sons e palavras,

Sons e silêncios.

Fantasmas do passado,

Vindos de lá do início do tempo,

Em que os Homens

Inocentes viviam

No ser que eram,

Desconhecendo o ter.

 

Sons e silêncios,

Fantasmas dos tempos

Que foram seguindo

Levando na sua corrente os Homens

Que somos hoje.

 

Silêncio puro

Que transformamos em monstros

Palavrosos

Que manipulam e enganam,

Que nos engolem e nos excretam,

Lixo que somos.

 

Agora os fantasmas somos nós,

Aqui e agora,

Sombras que pensamos viverem.

Não passamos de mortos a brincar de vivos.

  Zé Onofre

25
Mai22

Por aqui e por ali 134

Zé Onofre

                   134

 

013/04/20, Escola de Igreja, Vila Caiz, AMT

 

Não sei, Amor,

Com que linhas te desenhar.

Linhas de penhasco afiado

A trepar por encostas íngremes,

Ou de planuras a fugir para o horizonte?

Linhas de árvore esquelética de ramos ressequidos,

Ou de árvore de mata luxuriante?

 

 Não sei, Amor,

Com que cores te hei de pintar.

Com as cores de horizonte longínquo,

Ou da paisagem para lá chegar?

Cores de seara primaveril,

Ou de trigo em Junho a ondular?

Cores de sol em auroras em montes,

Ou como sol a mergulhar no mar?

 

Não sei, Amor,

Com que palavras te dizer.

Com palavras trémulas de jovem a improvisar,

Ou com as palavras tristes de adulto a declinar?

Com palavras simples mas sinceras,

Ou com palavras douradas vazias de sentir?

 

Não sei, Amor,

Com que sons te acariciar.

Se com os da brisa fresca da madrugada,

Ou com o do sussurro do entardecer?

Se com o do vento quente do meio-dia,

Ou com o do vento gélido do luar?

Se com o do crepúsculo das estrelas,

Ou com o estrondo das rochas no mar?

 

Não sei, Amor,

Não sei.
       Zé Onofre

30
Abr22

Por aqui e por ali 110

Zé Onofre

                110

 

998/09/18

Alameda Teixeira de Pascoais, Amarante

 

Não sei se é esta angústia

Que me desespera.

Ou se desespero desta espera de nada esperar.

Não sei

Se as palavras de desespero,

Que uma a uma escrevo,

São sinal de desespero,

Ou apenas palavras desesperadas.

 

Não sei se as palavras

Ainda servem para unir,

Ou se já nem unem, nem separam,

Apenas balões de ar

Que o vento leva.

Não sei

Se foram as palavras que perderam

A magia, o sonho e o espanto,

Ou se fui eu que me esqueci de me maravilhar.

 

Não sei se esta mágoa

É mágoa verdadeiramente sentida,

Ou apenas mágoa fingida

De quem a já nada pode magoar.

 

Não sei se são as palavras

Que perderam o sentido,

Ou se sou eu que já não as sabe usar.

   Zé Onofre

07
Abr22

Por aqui e por ali 88

Zé Onofre

              88

 

995/03/20, acção de formação – Educação Física, Marco de canaveses

 

Jogar

Com palavras,

Com sonhos,

Com brincadeiras

Apenas de brincar

 

Sonhar palavras

Como quem semeia ilusões.

Fazer de conta

Que se é criança ainda e sempre.

 

Bola de trapos

Retrato possível do passado.

Luz, som,

Imagem invenção

De corpos em desalinho,

A saltar,

A correr,

Memória-vida

Vivida ao amanhecer.

Zé Onofre

 

 

06
Abr22

Por aqui e por ali 86

Zé Onofre

                  86

 

995/03/15

 

Imagens e sons de amor.

Palavras

Que falam de carinho, de amizade,

Da alegria das coisas simples,

Da alegria

De dar vida à nossa vida.

 

Palavras

Que falam do desperdício,

Que são os sonhos perdidos

No supérfluo.

 

Gestos simples,

Canções simples,

Palavras simples,

Dar vida à vida

Com a nossa vida.

 

Construir o sonho

Com mãos vazias.

Tão simples.

Tão belo.

  Zé Onofre

03
Abr22

Por aqui e por ali 83

Zé Onofre

                83

 994/10/16

                 I

Que é

Do fogo ardente

Que iluminava o nosso caminho?

Que é

Da fúria

De fazer o futuro ontem?

Que tempo é este

Que levanta barreiras

Onde deveria haver, apenas, sonho e magia?

Que tempo é este

Que tudo macula?

Que tempo é este?

Que tempo,

Sem tempo

Para sonhar mais longe.

                II

Que bom,

Poder olhar o céu

Sem sonhos no olhar.

Que bom,

Poder apreciar a paz

Sem lágrimas nas palavras.

Que bom,

Pisar serenamente

As pedras da calçada.

                III

Quanto mais bom seria,

Incendiar de sonhos

O futuro,

Iluminar de pureza

O caminho,

Semear de flores

A gravidade dos dias.

  Zé Onofre

01
Abr22

Por aqui e por ali 78

Zé Onofre

              78

 

993/06/26

 

O silêncio continua a ser o fio condutor

Que dá sentido à vida.

A ele, como náufrago, me arrimo

Para me proteger da fúria

Das palavras revoltas que me afogam.

Apenas o silêncio continua.

Já houve tempos em que as palavras

Geravam ilhas ou pântanos,

Que como lava queriam brotar.

Hoje o vulcão está tranquilo.

Apenas uma coluna subtil

De vapor de palavras se evola,

Sendo percetível ao noitecer dos sonhos.

    Zé Onofre

19
Mar22

Por aqui e por ali 72

Zé Onofre

              72

 

991/04/23, Porto, Hotel Boega, Acção de Formação Ensinar é investigar

 

Chora palhaço

A tristeza perdida

No dia da tua estreia.

Chora palhaço

A dor do sonho perdido

No dia da tua estreia.

Chora palhaço,

Chora palhaço.

 

O que interessa não é percorrer o caminho,

É o modo como se percorre o caminho.

O importante é que tenha sido feliz a caminhada.

O resultado é sempre o mesmo – fim de linha.

 

 

De palavras sonhamos a vida.

De palavras enchemos a felicidade.

De palavras falamos o silêncio das nossas almas.

 

De linhas traçadas ao acaso

Fazemos encruzilhadas

Que querem ser vida.

Só ilusões nos unem,

Só ilusões se cruzam e entrecruzam.

 

Viagem ao país do impossível,

À solidão de cada um na cidade fria e cinzenta.

A viagem ao país do faz de conta,

Da magia, da fantasia,

E fuga das alegrias estudadas e normalizadas da cidade.

Viagem ao reino das paredes brancas

Onde tudo pode ser e nada é.

      Zé Onofre

16
Mar22

Por aqui e por ali 70

Zé Onofre


              70

 

991/04/22

 

De mutismos, de alguns gestos,

De sons vagos, ressonâncias,

E de uns poucos actos reflexos

Fazemos da vida coisa sem importância.

 

Ciciamos, dizemos, debitamos

Palavras sem pensarmos, ao menos,

Se para ser escutados falamos,

Se, para não ouvirmos, o fazemos.

 

E de palavras e vazios

Um fosso, cavamos.

Já debruçados no precipício

 

Cínicos, ainda perguntamos,

Se é melhor um rude silêncio,

Ou palavras em que tudo calamos?

  Zé Onofre

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