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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

14
Out21

Penafiel 63

Zé Onofre

                  63

 

03/03/978

 

Solidão

É ter o direito de dizer a nossa palavra

E calá-la.

É ter espaço para a gritar

E não o aproveitar.

É ter pernas

E não querer andar.

É ter olhar

E não querer ver.

 

Solidão

É o diz-se, diz-se

Das mesas do café.

É o murmúrio

Nos recantos dos corredores.

É ter a luz acesa

E apaga-la.

 

Solidão

É ter o dever de falar

E calar.

É ter o dever de ocupar o espaço

E abandoná-lo.

É ter o dever de andar

E amarrar as pernas.

É o dever de olhar em frente

E baixar os olhos.

 

Solidão

É querer estar só.

São estas paredes cheias

Do silêncio das nossas vozes.

É vazio gritado

De murmúrios.

É o sussurro bichanado

Ao ouvido do teu amigo.

 

Solidão

É ter o dever de estar presente

E fugir.

É direito de estar

E não o usar.

    Zé Onofre

 

 

05
Ago21

Souto 22

Zé Onofre

                  22

05/12/975

De Viagem

                       I

Se observares bem o postal

Concluirás que não há somente

Uma vista a perder-se longamente

De que a ponte é o centro por sinal.

 

Se acaso o teu olhar não for igual

Ao da atarefada e cansada gente,

Verás que os cabos são uma corrente

De muito esforço, dor, suor e sal.

 

Notarás ali naquela elegante ponte

Não há só ferro ordenado e cravado

Mas algo que desce por ela do monte

 

Até este lado do Tejo alargado.

Sob o tom vermelho se esconde,

Tinta e sangue bem misturado.

                        II

À espera

Neste canto de um café

A viver as pessoas em mim

E a ser vivido nelas,

Ou simplesmente ignorado.

Aqui neste canto, onde me escondo

Do ruído, dos gritos, do fumo e dos olhares,

Tento descobrir homens livres,

Encontro servidão.

Ali,

Naquelas paredes invadidas por cartazes.

Na imprensa escrita

Onde o pensamento se materializa

Em palavras livres,

E não canal de ressonância

Das palavras dos outros.

Aqui,

Neste canto do café

Onde continuo à espera,

Ser anónimo e sem importância,

Talvez ignorado de todos,

Ouço falar de mim.

Não de mim propriamente,

Mas daquele ser genérico e generalizado,

Nas bocas desconhecidas que me desenham,

No grito vermelho das palavras

Que escorrem pelas paredes.

Aqui,

Nesta periférica Lisboa

Onde a vida se faz,

Em ritmos monotonamente cadenciados.

Dia, após dia, após dia ainda,

Presos a uma roda que oprime

A que se chama progresso,

A que se chama civilização.

Aqui,

Onde espero encolhido neste canto,

Tentando perceber os outros,

Os seus pensamentos,

As suas esperanças,

Através dos seus gestos,

Das suas palavras.

Distraído que sou

Deixo-os escapar por entre os dedos.

     Zé Onofre

17
Jul21

Souto 13

Zé Onofre

13

 23/01/974

Vontade de me mostrar

Um ser eu diferente.

Possesso de uma vontade

De viver ao longo das horas mortas,

Flutuar ao saber de correntes inimagináveis.

Deixar as quatro paredes,

Sempre quatro paredes,

Ainda que no alto do monte,

Encarrapitado no mais alto penedo,

Sob um céu cinzento pronto a desabar em água,

Rodeado de horizontes

Sem limites.

Sentir o vento Norte

Na manhã gélida clara de sol,

Que me rodopia e enrola,

Fazendo-me viver distâncias,

Ancorado no meu quarto,

Mostrando-me infinitos,

Inalcançáveis,

Montado no seu dorso 

Anunciando liberdades infinitas,

Galopando por vales e planícies.

Lembrar o vento primaveril,

Nas manhãs frescas ao amanhecer,

Ondular nas searas verdes do centeio,

Onde o sol nascente refratado no orvalho,

Faz pinturas abstratas de rara tonalidade.

Voltar a ver-me refletido

Nas águas paradas de lagoa do rio,

Viver sonhos turbulentos  

Capazes de romper o desespero de ser este, eu,

Que se amarra neste quarto,

Com medo de viver.

  Zé Onofre

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