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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

06
Mai22

Comentário 260

Zé Onofre

                   260  

 

022/05/06

 

Sobre Nostalgia por Romi em 29/04/22, no blog  desabar.blogs.sapo.pt

 

 

Saudades do passado

Me assombram nos tempos de hoje.

Não são saudades do que fiz,

São saudades do que não fiz.

 

Verdadeiramente o que me assombra

Não é ter por ficado por fazer,

Mas a dúvida se poderia ter sido feito,

Ou se ficou por fazer por inércia,

Medo, bem sei eufemismo, da verdade

Que não me atrevo a nomear.

 

Nostalgia por saber,

Que o tempo em que o poderia ter realizado,

Já passou irremediavelmente.

Que saudades do tempo

Em que poderia ter sido feito.

  Zé Onofre

17
Abr22

Por aqui e por ali 96

Zé Onofre

                 96

 

996/05/12, visita a uma amiga instalada no asilo, Amarante

 

Aqui estão parados,

Simulando que vivem.

Aqui estão a viver um tempo

Que não existe,

A gastar um sopro 

Que está suspenso.

Aqui estão

Envoltos num passado,

Num presente suspenso

Que não terá futuro.

Aqui estão desertos de sonhos,

Suspensos do tempo,

Ausência do hoje,

Sem possíveis amanhãs.

  Zé Onofre

23
Jul21

Souto 17

Zé Onofre

               17

 25/11/974

                    I

Procuro-me incansável

Por entre os factos do dia-a-dia

E encontro

Sempre a mesma imagem desamparada.

Procuro-me insistentemente

No espelho do que fiz

Derrotas e humilhações

E vejo-me pessimista.

Prendo-me ao passado,

Cadeia que me enreda

Em algumas certezas,

Muitas incertezas,

E vejo

Um ser melancólico.

               II

Cada lágrima é uma lápide

A cada glória desperdiçada.

Olho,

Vejo-me cheio de raiva

Pelos factos que me mostro

E que jamais fiz.

Entretanto

Os outros não me veem

Como imagem falsificada

De mim próprio.

Quando no meu quarto,

Tendo-me como companhia única,

Sinto em mim um desistente

Incapaz de desistir

Por inércia

E na esperança

Que novas forças

Me venham arrancar

A este torpe,

Estéril,

Inútil,

Viver

  Zé Onofre

21
Jul21

Souto 16

Zé Onofre

             16

 18/11/974

I

Perco-me

Na memória de mim

E na dos outros.

Não sei se nasci ontem

Se nasci hoje

Se estou ainda por nascer.

Faço-me

Hoje,

Todos os dias,

Marco de mim mesmo.

Ora sou ontem,

Ora me futuro amanhã.

Perco-me

Na memória de mim

E na dos outros,

Todos os dias

Me construo diferente.

Imagem sonhada,

Ou moldada

Pelo meu querer inconsciente.

A memória de mim

É sempre alterada

Pela memória dos outros.       

                      II

Sendo eu,

Ou sendo outrem,

Não importa,

Seja ou o que for

As ilusões nascem-me como cogumelos.

Também a saudade

- Sempre a mesma palavra –

Se veste de recordação do passado,

Ora se enfeita de recordação do futuro,

Ou memória

Do que se não fez

E já não se pode fazer,

Ou esperança de encontrar

O que sequer se imaginou.

Saudade,

Que me prende ao passado,

Que me faz reviver o que fui,

E doentiamente o que não fui.

                     III

Sempre.

Procura permanente

De formas diferentes

De uma solução

Que crio,

Recrio,

Invento,

Destruo,

Endeuso,

Construo

E destruo.

A minha memória,

Factos de derrota,

De incertezas,

Desesperança de vencer.

A memória

Que me diz

Sentimental,

Rude,

Sensível,

Grosso,

Inteligente

E ininteligível.

       Zé Onofre

02
Jul21

Souto 5

Zé Onofre

5

07/07/972

 Novos caminhos.

Que caminhos?

Qual o trilho?

Pescado no saco da sorte e do azar.

Trilho

Em direcção à vida,

Em direcção à morte,

Ou a lado nenhum.

Trilho

Que me leva

À fonte da vida,

À fonte da morte,

Ou a lado nenhum.

Trilho que me leva

À fonte da Esperança,

À fonte do desespero,

Ou a lado nenhum.

Novos caminhos.

Caminhos longos, tão longos

Que em algures

Numa reta, numa curva,

Ou num solavanco do piso,

Guarda o por desvendar.

Caminhos novos,

Ou caminhos velhos?

Caminhos perdidos,

Trocados,

Com futuro,

Abertos,

Fechados.

Na lonjura dos tempos futuros

Nada de novo,

Apenas sombras,

Vindas

Sabe-se lá de onde

De que curva do passado.

No verde dos prados,

No crepúsculo,

Na aurora,

Nada senão o verde,

A luz a fugir para além do mar,

A luz a surgir por detrás dos montes.

Cheguei aqui.

Por que caminhos?

Por que Sonhos?

Por que pesadelos?

Por que artes mágicas?

Cheguei aqui.

    Zé Onofre

 

 

 

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