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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

21
Dez21

Por aqui e por ali 26

Zé Onofre

               26  

 

985/03/28, Marco, acção de formação sobre bibliotecas

 

         I

 

Ah,

Se o mundo

Fosse apenas a solidão.

Ah,

Se fosse apenas.

 

         II

 

Palavras,

Pedras nuas

À espera de carinho.

 

Palavras,

Arestas,

Gumes,

Sequiosas de sangue

Que as reguem.

 

Palavras,

Mãos nuas estendidas

À espera da esmola,

Do bulício …

Ou do silêncio apenas.

 

                                        III

 

Aqui ou ali, ontem ou amanhã, ou mesmo hoje Ivo estará sempre só.

E não só Ivo, como todos os Ivo deste mundo. Mesmo aqueles que não foram à guerra, mas são geradores de guerras.

Mesmo aqueles que medindo a distância em metros, apenas pensam em alcances de mísseis.

Mesmo aqueles que não sendo mutilados pensam o mundo sem onténs, ou amanhãs, mas no tempo eterno de uma explosão de neutrões.

Todos se sentirão sós por não se terem interrogado, antes de agir – que direito tenho eu de premir o gatilho, ou o botão? – e, mais ainda, quando nem um hipotético pastor houver para lhes perguntarem – quem são vocês?

E os outros, nós sós estamos por não fazermos a pergunta agora, enquanto há tempo e não eternidade. 

     Zé Onofre

12
Dez21

Por aqui e por ali 17

Zé Onofre

               17

 

982/04/01

 

Se me permite,

Minha senhora.

Eu

Falo-lhe em cães,

Gatos e coelhos,

Milho e centeio,

Vindimas e desfolhadas

Porque, raios

E carga de água,

A senhora me fala

De meninos bem comportados?

Porque me fala

Em príncipes encantados,

Ou não.

A mim, pobre criança,

Que palmilho

Descalço

Nunca as lonjuras do sonho,

Sempre as pedras ásperas do caminho?

Fala-me

Do que não entendo

E nunca dos montes e dos ninhos

Dos campos verdes onde me rebolo

Nas tardes amenas da Primavera,

Enquanto a vaca,

Pachorrenta vaca pasta.

 

Fala-me de casas,

De janelas

E não da lonjura dos horizontes

Lá,

Onde o verde dos pinheiros,

E o azul do céu, se misturam.

Onde o vento sopra forte

Em Agosto.

Lá onde os passarinhos voam

Em asas de sonho!

Lá,

A beleza,

O sonho

Voam

Em planuras de Liberdade.

 

Porque me fala

De grades,

Paredes,

Prisões,

A mim que sou livre,

Travesso,

(Assim o diz)

E gosto de movimento!

 

Porquê?

 

A srª professora fala-me,

Fala-me,

De letras, e sílabas e palavras,

Ou de palavras, sílabas e letras.

Srª professora

Ajude-me a falar,

A falar,

Sobre o meu porco morto.

      Zé Onofre

26
Out21

Penafiel 70

Zé Onofre

                  70

 

___/04/978

 

Quero cantar

Os gitos 

Feitos pedras

Nos dias abjetos

A que chamamos viver.

 

Quero cantar

Hoje

Não as prostitutas

Os operários,

Os bairros de lata,

As crianças abandonadas,

Os velhos dos bancos do jardim.

 

Quero apenas cantar

Os humildes

Que vivem na sombra

Dos telhados

Das casas mortas.

 

Quero cantar

A mulher feita objeto,

Corpo de prazer,

Jarra, ornamento.

 

Quero cantar

Aquele homem

Que vive de terra em terra,

Sem terra,

Sem casa,

Que morre

Nas bermas da opulência.

 

Quero cantar

Aquele vagabundo

Que bebe

Estrelas de luar.

 

Quero cantar

As flores do jardim,

As estrelas,

O sol,

A solidão,

Companheiros

De quem morre em vida.

    Zé Onofre

15
Out21

Penafiel 64

Zé Onofre

                     64

 

___/03/978

 

Às vezes,

Só às vezes

Os sons são silêncios.

Nem sempre

Os silêncios são pedras.

As pedras,

Às vezes são distâncias,

Nem sempre solidão.

De pedras são os caminhos.

De pedras é a alegria plena

Do dia-a-dia.

Às vezes a lonjura

É estar perto,

Nem que para lá chegar,

Se caminhe um infindável caminho

De pedras

Que, às vezes

São palavras amigas.

Silenciadas?

Talvez.

    Zé Onofre

08
Out21

Penafiel 57

Zé Onofre

                 57

 

11/01/978

 

Ó criança

Perdida

Nos meandros de teias

Em que te metemos.

 

És

Lampejo gritado

Nos sons da noite.

 

És relâmpago

Deslumbrante

De sons em cântico.

 

És

Presente

Espraiado

Nas margens do futuro.

 

Canto-te

Cor florescida

No chão

Semeado de pedras.

 

Canto-te

Som sofrido

No pântano

Semeado de medo.

 

Canto-te

Bem alto

Alegria que te quero

Das minhas mãos.

 

Elevamos-te

Bem alto

Alegria das nossas mãos.

  Zé Onofre               

01
Out21

Penafiel 48-49

Zé Onofre

                   48

 

25/11/977

 

Hoje está um dia incaracteristico.

Será que um dia incaracterístico

Tem características?

As características

Dos dias incaracterísticas

É não terem características.

 

                 49

 

29/11/977

 

As pedras.

As palavras.

As pedras calam silêncios.

As palavras calam sulcos,

Cavam rotas,

Rios,

Riachos

Nas pedras caladas

De silêncios.

O silêncio,

Grito abafado,

Dorido,

Pleno de emoções.

As palavras,

Pedras lançadas

Ao silêncio

Granítico

Dos outros.

Os outros,

Pedras gigantes,

Gritos,

Uivos,

Raiva lancinante,

Á espera,

À espreita

De um “Abre-te Sésamo”

- Cheio de alegria,

Ou de dor -

Mas que abra,

Em cada silêncio

Um rio,

Um mar

De Palavras por nascer.

 

Há silêncios nas minhas mãos.

Há gritos incontidos nas palavras

Soltas uma a uma,

Folhas outonais

De Novembro a acabar.

Há raiva nos meus dentes.

Há fúria da razão por vencer.

Há ira ensanguentada

No estilete

Da palavra.

Há sentidos

Caídos ao amanhecer.

 

Hoje queria fugir

Dos sons,

Malditas cores

Que me trespassam

Como espadas.

Hoje queria fugir

Para a selva maldita

Dos caminhos por achar.

Hoje queria fugir

- Apenas cair,

Não me levantar -

Rastejar insensível

Pelas pedras geladas

Em silêncios gratuitos.

        Zé Onofre

07
Set21

Penafiel 14-15-16-17

Zé Onofre

                 14

17/04/976

Morte à morte,

Morra o sonho

Que cria ilusões.

Morra a vida

Que cria sonhos.

Morra a Terra,

Morra!

Viva,

A vida livre

Liberta

De sonhos

Ilusões.

Viva o sonho,

Sempre!

                 15

05/05/976

Ó alegria

De ser

Se.

Ó dor

De se

Ser

                 16

06/05/976

Em qualquer canto,

Em qualquer esquina,

Em qualquer rua,

Em qualquer mar,

Se se souber olhar

Os homens sem serem sombras,

As ilusões

Sem serem pedras.

                 17

07/05/976

Se!

Há tantos ses

Escondidos

Nos cantos

De cada um.

Se!

Tantos ses

Perdidos

Nos dias

Hoje

     Zé Onofre

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