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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

25
Jan23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro II - O ouvido do rei

Zé Onofre

                                                                   O ouvido do rei

O OUVIDO DO REI.jpg

 

Conta o povo, ou a lenda,

Ou talvez o povo tenha feito a lenda.

Agora o povo diz que há uma lenda

Mais velha que os avós, dos avós dos seus avós.

 

No velho Castelo, lá no alto do Outeiro,

Viveu antigamente um rei igual a todos os reis

De todos os tempos e de todas as lendas.

Caçava javalis, veados e ursos nas suas matas.

Que quando não caçava, guerreava outros reis.

 

Nos intervalos das caçadas e das guerras

Arranjava tempo para atender pessoalmente

Os seus súbditos. Da mais alta nobreza e clero

Ao mais baixo dos pés descalços,

Justiça aqui lhe seja feita.

 

Numa das audições ouviu dois senhores,

Da mais alta nobreza do seu reino.

Uma questão de caça. D. Beltrão acusava

  1. Beltrano de ter caçado o melhor veado

Que bicho como aquele, só aquele.

 

  1. Beltrano ia replicar

Porem, foi interrompido pelo rei.

  1. Beltrão, entre nós que ninguém ouve,

Não terá caído, um veado igual ao seu

Da Mata de D. Beltrano, ao seu caldeirão?

  1. Beltrão ficou corado de vergonha.
  2. Beltrano ficou vermelho de fúria.

 

Num outro dia atendeu dois lavradores

Desavindos à quebra de um acordo feito,

Em nome dos seus filhos, ainda crianças.

O sr. José da Póvoa prometeu o seu filho

Alberto, à Anita filha do sr. António da Horta.

 

Ao fazerem tal acordo difícil seria não dar asneira.

É verdade que a Anita e o Alberto gostam-se,

Como amigos. Se não o fossem seria de estranhar.

Brincaram às casinhas desde pequeninos.

Agora para casar Anita ama o Manel da Eira.

 

O que acordaram ficou lá no passado

E deixem os dois pombinhos casarem-se.

Já longe do Castelo, na ladeira do Outeiro

Dizia o sr. António ao compadre José.

Antes de nos teres levado ao sr. rei,

Falávamos e entre nós resolvíamos o caso.

Ó compadre, sabes que não sou queixinhas.

Diz-me então compadre, como o sabia o rei?

 

Estes casos do rei saber tudo sobre todos,

Pôs o reino numa maldita confusão.

Cada vizinho acusava o outro

De o rei lhe pagar para ser espião.

  

O rei cansado de ouvir tanta desavença,

Decidiu acabar com os mal-entendidos

Antes que o povo armasse uma explosão.

Para isso tinha que desvendar o seu segredo,

O que não lhe agradava de modo algum,

Todavia, pior seria sangue a correr pelo chão.

 

Convocou para o seu Castelo do Outeiro

Todo o Povo para acalmar a sua Nação.

Da varanda arengou no estilo do costume.

Senhores nobres, bispos e padres,

Abades, abadessas, freiras e frades,

Lavradores, pescadores, tecelões e tecedeiras.

Meu Povo.

  

Quando já todos mostravam impaciência,

Convoquei-vos hoje aqui para vos garantir

Que no reino não há, não houve nem haverá,

Espião ou espia, coscuvilheiro ou coscuvilheira

Que me façam chegar aos ouvidos a vossa vida.

 

Meu povo, há aqui no alto do Outeiro,

Junto ao Castelo, um penedo orelhudo,

A que resolvi chamar o ouvido do rei,

Porque encostando lá o meu

Permite-me ouvir tudo que se passa

Perto do Outeiro, ou nos longes do reino.

 

Um oh, um só oh de incredulidade subiu

Da multidão reunida até ao rei.

Não levando a mal tamanha desconfiança

Disse com um sorriso. Com certeza  

Não duvidareis de uma inocente criança.

 

Tu, que ris incrédulo, vai até ao orelhudo,

Que desço para ir lá ter contigo, vamos.

Encontraram-se junto ao Penedo.

Encosta o teu ouvido ao Orelhudo.

O rapazinho, ainda desconfiado, assim fez.

 

Primeiro começou a sorrir, a rir baixinho

Por fim desatou à gargalhada.

O povo quis saber que diabo se passava.

Ouço um padre a rezar a missa em latim.

Agora o Romão remendão canta e bate a sola.

Longe, um lavrador chama o preto e o amarelo.

Podeis acreditar aqui o penedo do Outeiro

É o verdadeiro ouvido do senhor rei.

 

O castelo já ruiu,

O rei do Outeiro morreu,

O ouvido do rei ainda está lá.

Quem acreditar, acredita,

Quem não acreditar

Vá lá escutar.

02
Dez22

Dia de hoje 78 - Canto triste XIV

Zé Onofre

              78

 

                  Canto triste XIV

 

022/12/02

 

“O ano de 2023 vai ser mais duro do que 2022”, Marcelo, o presidente a visar o povo que se prepare para mais um período de Austeridade.

 

Povo trabalhador ouve com atenção,

Para entenderes que no que não é dito

É que encontras o verdadeiro sentido

Das palavras ditas com a intenção

Para que fiques totalmente convicto

Que é o único rumo a ser seguido.

 

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem que aprendeste a lição.

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem quem é o teu patrão.

 

Povo trabalhador ouve com atenção.

O poder exige sacrifícios outra vez,

A ti que tens a vida bem complicada,

Fazem-te crer que estes dias são

Normais, que não vejas clara a avidez,

Dos que vivem da tua vida suada.

 

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem que aprendeste a lição.

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem quem é o teu patrão.

 

Povo trabalhador ouve com atenção.

Nunca ouviste os nossos governantes,

Pedirem ao patronato, num só momento,

O que a ti tiram sem qualquer comiseração,

Que os lucros, do próximo ano em diante,

Terão que ser reduzidos a zero por cento.

 

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem que aprendeste a lição.

Manipula a verdade como quiseres,

Manipula as palavras como quiseres

Mostra bem quem é o teu patrão.

   Zé Onofre

29
Out21

Penafiel 73

Zé Onofre

                     73

 

___/___/978

 

O método científico na análise da Batata

 

Iª Fase – a preparação.

 

Verificar se é boa a batata.

Esterilizá-la bem esterilizada.

Ter cuidado com a bata

Não vá estar conspurcada.

 

Ter muito cuidado com as mãos.

É necessário que estejam desinfetadas.

Chama-se também atenção

Para as ferramentas a serem usadas.

 

 

A tina, o bisturi, a lamela,

O microscópio, o próprio laboratório

Será mesmo conveniente fechar a janela

Não se vá introduzir algum micróbio.

 

Continuemos o nosso trabalho, então.

Com muito cuidado e leveza,

Rapidez e bom golpe de mão

Descasquemos a batata com destreza.

 

Na tina, em água esterilizada,

Introduzimos a batata a demolhar.

Entretanto na mesa preparada

Meditamos em hipóteses a verificar.

 

IIª fase – a hipótese

 

Que será que a batata tem?

Terá açúcares, sais minerais?

Ou será algo em que ninguém

Pensou ainda jamais?

 

Não! Já sei. Eureka. Descobri.

Começo a ver, então, imagens

Penso aquilo que nunca vi.

Enche-se-me a cabeça de miragens.

 

Será certo o que vejo de repente?

Uma enorme gota de suor

Que cresce constantemente

E se torna cada vez maior?

 

Penso de maneira diferente.

Tento outro , com outro olhar

Já não é só o suor que se pressente,

É também um povo a trabalhar.

 

Vejo Trás-os-Montes. Num relance

Todas as courelas do meu país a correr.

Enche-se-me o peito de ar, fico em transe,

Sinto-me sufocar, nem sei que fazer.

 

IIIª Fase – a verificação

 

Mas não quero crer ainda. Não quero crer.

Corro para a tina, preparo o material.

Pego no microscópio, sempre a correr.

Acalmo os nervos, não vá ver mal.

 

Vi. Vi claramente visto

Sem dúvidas com toda a clareza

Naquele pequeno, minúsculo interstício

Toda a nossa miséria e grandeza.

 

Vi sangue – sangue senhores de escravos.

Vi azorragues, naus e caravelas.

Vi pimenta, canela, noz-moscada, cravo.

Muito mais vi naquela pequena lamela.

  Zé Onofre

29
Ago21

Penafiel 7

Zé Onofre

                    7

 08/07/977

Todo o texto é uma abertura

O veiculado moral pode trazer um falso humanismo.

Atribuir os feitos “aos grandes” “faz com que se esqueça do esforço e da dor do povo.

Bocage foi uma cigarra massacrada pelas formigas exploradoras de então.

A formiga representa a faceta desumanizada do trabalho.

Não há qualquer literatura inocente e muito menos a Infantil, pois pode trazer a morte de um olhar crítico de amor.

Abaixo a alegria, viva o trabalho escravo. Sem alegria morre-se de fome.

  Zé Onofre

01
Jul21

...

Zé Onofre

Bem sei é Natal

Natal, cada um tem o seu Natal.

Que palavra mágica

De enganar com ternura.

Há negociantes

Vendedores de Natal a metro.

Há velhos,

Roucos de silêncios

Nos bancos do jardim.

Há bairros de miséria,

Emparedados

Nas cercanias da opulência.

Há chuva,

Há vento,

Há sol,

Contratempo.

Há neve,

Algodão branco,

Nas montras.

Há casas de penhores

Em esquinas

De ruas esquecidas.

Vê-se lá,

A miséria do povo

À venda, nos mostruários,

As ilusões

Por uns míseros tostões.

Há casas decoradas

Com vermelhos,

Sangue,

Grito abafado

Nos corações,

De quem corre atrás do impossível.

Trabalhadores/ apressadas 

Crianças, olhos arregalados

Bocas salivando,

Junto à montra das ilusões.

Há casas coloridas,

Cores arrancadas

À fome do dia a dia

De quem envergonhado,

Vai escondendo a fome que os alimenta.

Há risos,

Sorrisos,

Nas faces.

Há passos apressados

Nas pedras dos caminhos

Há fúrias incontidas

No fundo das cores.

Há angústia,

Há raiva.

Há gente apressada

Levando amor,

Levando a paz,

Em embrulhos coloridos

Até às casas dos esquecidos da vida.

Bem sei,

É Natal...

Não deveria dizer,

Não deveria contar,

Não deveria expor

A realidade crua do outro lado do Natal.

Deveria guardá-la

No segredo

Do silêncio

Das grades dos sonhos perfumados,

Dos salões

Onde se projecta «este» Natal.

Contudo,

Um dia fui criança.

Gostava de ir ao musgo,

À relva,

Aos galhos de árvores.

Gostava do presépio

No cantinho da sala,

De me levantar no dia de Natal 

Encontrar lá

Algum rebuçado deixado

Pelo Menino Jesus.

Gostava do presépio

Junto ao altar da Igreja

Que ajudara a fazer.

Gostava da noite "do par ou pernão",

No fim da Ceia,

À volta da lareira.

Gostava das brincadeiras

No largo da Igreja

À espera da Missa do Galo.

Se me é permitido

Tenho saudades, mas muitas,

Desse Natal.

Tenho saudades daquele Natal

Em que a Rosário respondeu ao Sr. Abade

- O Natal é comer!

(Por que caminhos te achaste,Rosário?)

O que aconteceu ao "eu" rapazinho

Que tenho saudades

Das pinhas assadas no braseiro,

Do musgo fofo do monte,

Das brincadeiras na noite mágica

Da Missa do Galo,

Para agora olhar,

As gentes e as ruas,

As montras com neve de algodão,

As casas tremelicantes de luzes,

E sem ânimo,

Entre a saudade e o desespero,

Dizer

"Bem sei

É Natal.

Zé Onofre