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Notas à margem

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Textos escritos em cadernos, em guardanapos, em folhas encontradas ao acaso, sempre a propósito, nunca de propósito. isto é "vou escrever sobre isto". Não é assim que funciono.

Notas à margem

10
Nov22

Dia de hoje 74 - Canto triste X

Zé Onofre

                   74

 

Canto triste X

 

022/11/10

 

Porque é que vais por esta vida

Entorpecido sem pensar

Que a escravatura não é vencida

Ainda temos muito para lutar.

 

Quem te vê ir de crista caída

És pessoa já derrotada,

Mesmo antes de ser vivida

A luta ainda não começada.

 

Por escritórios e fábricas,

Arrastas os passos doridos,

Com velhos enganos abdicas

De tempos mais coloridos.

 

Evitas ver nos outros rostos

Uma dor tamanha como a tua,

Temes que teus olhos neles postos

Bem unidos consigais até a lua.  

 

A luta é difícil, não percas a fé

Se tiveres que a luta recomeçar.

Mais vale viver um dia de pé,

Do que uma vida longa a rastejar.

 

Ver-te assim tão conformado

Com o teu viver tão cinzento

Fingires que não vives frustrado,

Para a revolta te faltar atrevimento.

   Zé Onofre

01
Out21

Penafiel 48-49

Zé Onofre

                   48

 

25/11/977

 

Hoje está um dia incaracteristico.

Será que um dia incaracterístico

Tem características?

As características

Dos dias incaracterísticas

É não terem características.

 

                 49

 

29/11/977

 

As pedras.

As palavras.

As pedras calam silêncios.

As palavras calam sulcos,

Cavam rotas,

Rios,

Riachos

Nas pedras caladas

De silêncios.

O silêncio,

Grito abafado,

Dorido,

Pleno de emoções.

As palavras,

Pedras lançadas

Ao silêncio

Granítico

Dos outros.

Os outros,

Pedras gigantes,

Gritos,

Uivos,

Raiva lancinante,

Á espera,

À espreita

De um “Abre-te Sésamo”

- Cheio de alegria,

Ou de dor -

Mas que abra,

Em cada silêncio

Um rio,

Um mar

De Palavras por nascer.

 

Há silêncios nas minhas mãos.

Há gritos incontidos nas palavras

Soltas uma a uma,

Folhas outonais

De Novembro a acabar.

Há raiva nos meus dentes.

Há fúria da razão por vencer.

Há ira ensanguentada

No estilete

Da palavra.

Há sentidos

Caídos ao amanhecer.

 

Hoje queria fugir

Dos sons,

Malditas cores

Que me trespassam

Como espadas.

Hoje queria fugir

Para a selva maldita

Dos caminhos por achar.

Hoje queria fugir

- Apenas cair,

Não me levantar -

Rastejar insensível

Pelas pedras geladas

Em silêncios gratuitos.

        Zé Onofre